jovem a segurar um cartaz "end the war before it ends you"

A Esquerda Que Chegou Tarde à Paz

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Doze anos.
Há uma esquerda europeia que demorou doze anos a chegar à paz. Façam-se as contas, recue-se no tempo, e pergunte-se onde esteve essa esquerda quando uma administração democrata norte-americana promoveu, às claras, com a CIA na sombra e o apoio no escuro a milícias nazis, o golpe de Estado que desestabilizou a Europa e, na verdade, o mundo – para trocar um presidente ucraniano, democraticamente eleito, que advogava a não adesão à NATO e o equilíbrio das relações da Ucrânia com a vizinha Rússia e com o ocidente, por um regime que assumiu daí em diante a confrontação com a sua população russófona, com Moscovo e com os russos.

Maidan, Kiev. Novembro de 2013 a Fevereiro de 2014. Nos dias finais da operação de mudança de regime, a subsecretária de Estado, Victoria Nuland, na sua sétima visita à Ucrânia em menos de três meses, responde às preocupações manifestadas pelo seu embaixador, Geoffrey Pyatt, com um claro “fuck the EU”. Os Estados Unidos sabem bem que podem fazer o que quiserem em solo europeu, que os europeus vão comer e calar.

O golpe triunfa, depois do massacre de cerca de cem manifestantes. Está hoje provado, por exames balísticos, que a maior parte das vítimas foi abatida pelas costas, a partir do quinto andar do Hotel Ukraina – o local onde se concentravam os snipers nazis do Pravyi Sektor. Dias depois, a Ucrânia rasga o acordo de utilização da base naval de Sevastopol, pela Rússia, elemento fundamental da confiança mútua entre os dois vizinhos. A Rússia anexa a Crimeia, sem disparar qualquer tiro, após um referendo local não reconhecido internacionalmente, em que a esmagadora maioria da população se manifesta a favor “da união com a Rússia”. A Ucrânia reprime manifestações pacíficas no sul e no Donbass contra o golpe de Estado, e declara a Operação Antiterrorista, lançando exército, milícias armadas e força aérea contra os manifestantes russófonos, iniciando a guerra civil.

Foi possível saber de tudo isto, na altura.
Onde esteve, então, a esquerda europeia?

A esquerda que, neste momento, aplaude a coragem de Pedro Sanchez e do governo espanhol, o único que diz alto e bom som “não à guerra”, parece nunca ter compreendido que os acontecimentos de 2014, na Ucrânia, já eram o prenúncio do fogo que, hoje, está a alastrar sem controlo, e nos ameaça consumir a todos: o fogo de um império decadente, que esperneia para manter o seu domínio sobre o mundo. O problema dos Estados Unidos, desenganemo-nos, não é Trump. Trump é só o nosso problema sem máscaras. Trump é só a fase última e desabrida.

Há uma esquerda, na Europa e em Portugal, que se atrasou doze anos. Não se mobilizou contra o militarismo, contra as operações imperiais em solo europeu, só parecendo notar que elas existem quando são realizadas noutros hemisférios. Longe. É uma esquerda que cedeu a sua obrigação de pensar o mundo. Não foi para a rua como nos tempos em que exigiu o fim de outras guerras injustas e atrozes do império.

Que esta esquerda tenha chegado tarde à paz, mas não tarde demais.

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