crianças a brincar no recreio

Escola Pública: O Coração que Ainda Bate por Todos

A Escola Pública é o maior ato de coragem de uma sociedade. É a promessa silenciosa de que nenhum destino está fechado, de que a origem não determina o futuro, de que o saber não pertence a uma elite, mas ao povo inteiro. Num tempo em que tudo se privatiza — do pensamento à atenção — a Escola Pública continua a ser o último território verdadeiramente comum. É ali que se cruzam mundos que, de outro modo, nunca se encontrariam. Filhos de médicos e filhos de desempregados sentam-se lado a lado, partilham o mesmo recreio, aprendem as mesmas letras. E …

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mural de menina a perder um balão em forma de coração. Texto na parede ao lado em inglês "sempre haverá esperança"

Ganhar a esperança

Ganhar, que não ter. Ter constitui o desejo sem ação; ganhar demanda umha atitude, ativa. (atitude e ativa são palavras que se parecem mas procedem de étimos diferentes; como se confundem étimos, também há pessoas que confundem significados e estados; há quem pensa que com ter atitude basta para estar ativa; como há quem tem esperança mas nada faz, por vezes porque nem repara nisso, por ganhar a esperança). A esperança, para pessoas com fé, alberga também umha transcendência. Vivem com a esperança da ressurreição mas isso não exclui (ao contrário, seria umha premissa maior em algumhas crenças) que devam trabalhar por fazer realidade na …

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Natal: A Essência Perdida no Brilho das Vitrines

Chega todos os anos, sempre igual e sempre diferente. O Natal, que deveria ser o tempo da pausa e da gratidão, tornou-se um desfile de sacos, luzes e urgências compradas à pressa. As ruas enchem-se de músicas repetidas, os centros comerciais transformam-se em templos improvisados, e o mundo parece acreditar que a felicidade tem etiqueta de preço. O Natal consumista não começou agora. Mas nunca foi tão ruidoso, tão ansioso, tão distante da sua origem. A celebração que nasceu da ideia de renascimento — de um gesto humilde num lugar esquecido — tornou-se uma corrida para ver quem embrulha mais, …

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Representação da agricultura em papiro do antigo Egito

Entre o Black Friday e o Comércio Justo

Entre os apelos ao consumo que promete a abundância a preços baixos e à consciência que exige preços que reflitam a dignidade do trabalho e da sustentabilidade, ficamos encurralados no dilema ético do valor que atribuímos aos bens materiais, às pessoas e ao planeta. O Black Friday e o Comércio Justo simbolizam estes dois modelos sociais. A escolha reflete uma dialética central da nossa sociedade: lucro a qualquer custo versus prosperidade partilhada e sustentável. Nos comportamentos com inclinação ao materialismo e à impulsividade do Black Friday, o indivíduo é arrastado por um querer descontrolado em detrimento do pensar e do …

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Pinóquio num desenho antigo

A Mentira de Perna Longa

A desinformação é uma das novidades do nosso tempo, não por ser absolutamente nova, porque sempre houve desinformação, mas pela escala. Desengane-se quem foi posto a pensar que desinformação é o mesmo que ‘fake news’. Não é. Não comparemos a mentirinha de perna curta que qualquer pessoa consegue produzir, cujo precursor é o antigo boato, ambos de efeitos limitados e localizados, com as grandes narrativas desinformativas. Uma dessas narrativas é, precisamente, a que nos tenta convencer de que o problema está nas ‘fake news’, ou seja, de que o problema está em nós, por interpostas redes sociais, desviando o foco …

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mural de menina a perder um balão em forma de coração. Texto na parede ao lado em inglês "sempre haverá esperança"

Perder a esperança

No ano 1992, quando se avizinhava para Boff e para a editora Vozes mais umha punição da hierarquia eclesiástica católica, o teólogo brasileiro afirmara ter perdido a esperança, que é pior, dizia, que perder a fé. Na Vozes publicara Boff o seu Igreja, Carisma e Poder, que tivem a oportunidade de ler em meados de oitenta, um livro basilar para entender a Teologia da Libertação mas, sobretudo e polas suas consequências, as razões da hierarquia católica contra aquela interpretação teológica, que perseguiu Boff até que este deixou a Ordem Franciscana. Pola reação dessa hierarquia (que pode ler-se, em termos doutrinários, na carta sobre …

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O Buraco da Fechadura

Diz-se, em Roma, que a melhor vista para a cúpula da Basílica de São Pedro, no Vaticano, é a do ‘il buco della serratura’, que mais não é do que o buraco da fechadura de um portão da Ordem de Malta, situado no bairro Aventino da capital italiana. Como em Roma, sê romano, não há nada como ir lá, espreitar e ver. Já se adivinha, claro, que, romano, o humano fará aquela expressão típica do súbito êxtase de que todos os humanos são acometidos quando querem transmitir aos demais que viram a coisa que lhes disseram que deviam ver. O …

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texto em latim sem pontuação

Elogio da pontuação

Na Antiguidade, não se usavam habitualmente sinais de pontuação — e nem sequer espaços. Por exemplo, neste manuscrito do século IV (Vergilius Augusteus) não vemos nem espaços nem pontuação. Ao longo do tempo, lá fomos inventando os espaços, os pontos, as vírgulas. Estes sinais começaram por assinalar pausas e entoações, para ajudar na leitura em voz alta, mas também passaram a mostrar como se organizam os textos e as frases, ajudando a ler em silêncio. A pontuação é muito parecida nas várias línguas da Europa, mas há alguns pontos em que as línguas seguiram caminhos diferentes. Basta pensar nos pontos …

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fotografia tristonha, velha e gasta, a preto e branco, de caretos virados de costas

Varge, nordeste transmontano

Varge, nordeste transmontano, 25 de Dezembro de 1999. Depois da missa de Natal, e sob forte chuva, os rapazes mascarados desfiam as loas, uma modalidade de crítica social. Atrás dos caretos, o povo – expressão materializável no conjunto vicinal. Aqui, cada aldeia é um povo, e todos os vizinhos, salvo os enluta­ dos, são conduzidos para ouvir as loas. À chuva, procuram pontos altos onde a vista seja melhor, e riem. Durante este momento do ciclo do Inverno os moços são investidos de autoridade para criticar. Após uma fórmula de saudação, seguem-se três ou mais loas. Uma envolve o espalhafato, …

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O calão do século XVIII

Alguma vez pensou como era o calão da época do terramoto? Não o português bem-comportado de grande parte dos livros da época, mas antes o que as pessoas diziam no dia-a-dia, na rua, entre amigos, entre familiares? Há um livro precioso, escrito no século XVIII, poucos anos depois do terramoto, que se chama Enfermidades da Língua e foi escrito por Manuel José de Paiva. Depois de um discurso (provavelmente irónico) sobre as maleitas da língua, o autor apresenta uma lista de 4000 expressões e palavras que não se deveriam usar — que deveriam ser eliminadas da língua. A tal lista é uma …

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Confesso: eu também sou bolivariana

Confesso. Sim. Eu fiz parte do grupo de intelectuais, artistas e movimentos sociais que o governo bolivariano reuniu em Caracas em dezembro de 2014. Confesso. Viajei no avião presidencial e participei nos intensos dias que durou o encontro como convidada, desfrutando da gentileza do governo e do povo da Venezuela. Confesso: assisti às reuniões daqueles dias, às mesas de trabalho e de debate. Escutei palestras e discussões menos formais, e mesmo tive a oportunidade de intervir como relatora. Como se pode imaginar numa reunião destas caraterísticas, as palavras eram graves, as análises contra o capitalismo beligerantes, as críticas aos amos …

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Imagem da D. Inês de Castro na Quinta da Regaleira. Sobre fundo amarelo dourado uma Inês de perfil com joias na cabeça

O que a Galiza deu a Portugal: galegos e galegas na História portuguesa

Frequentemente revisitamos a literatura medieval galego-portuguesa como fonte indiscutível dos vínculos linguísticos e culturais entre a Galiza e Portugal. Os contributos linguísticos são mais do que evidentes no que diz respeito ao título deste artigo, mas…já pensaram noutras áreas culturais? A verdade é que sempre tive muita curiosidade e há tempo que comecei a juntar uma série de nomes que conformam este post. Portanto, proponho-vos uma pequena viagem galega a várias fases da História de Portugal. Como as explicações vão inseridas em animações, deverão levar na mala um bocado de “paciência digital”. Podem ampliar os diapositivos para uma melhor visualização. …

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Pinheiros queimados com muita cinza no chão

O que já nem arde

A ausência de iniciativas públicas sólidas para recuperar aquela cultura rural que cuidava do monte só se explica por uma conjunção de interesses particulares que analisamos reiteradamente sem obter conclusões definitivas. Nos últimos tempos, na Europa culta e democrática acatamos o mandato de Trump e investimos em armamentos. Apelando a uma suposta insegurança internacional, optamos por comprar sofisticados joguetes para o terror. Nem detemos um genocídio, nem questionamos a obscena acumulação de riqueza; simplesmente aceitamos que se deteriorem as nossas conquistas sociais em benefício da indústria bélica e continuamos vegetando num simulacro de felicidade. Esquecemos as mais elementares noções de economia doméstica …

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Praia da Lançada com muitas pessoas

As línguas misturadas em Agosto

Às vezes, estamos no café e ouvimos as conversas à volta. Há uns tempos, nas mesas ao lado, estava uma adolescente a falar para o telemóvel. Sim, a falar. Estava numa chamada de vídeo com o namorado e, naquele café tão português (com cartazes do Benfica Tricampeão — já não sei de quando — e revistas do Correio da Manhã), falavam os dois num rápido e desenvolto francês. Sim, os emigrantes voltam e trazem os filhos. E estes, no nosso querido mês de Agosto, mantêm as amizades e os amores à distância — como todos fazemos quando temos de estar …

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Primeiro mapa de portugal de 1561

Ó sol, imortal sol, do meu país do sul

Depois de quase três anos de ausência, voltei ao Algarve. Do outro lado da janela do trem vejo a intensidade da cor avermelhada da terra e os campos de laranjeiras à volta da cidade de Silves. Posso adivinhar o docíssimo arrecendo a flor de laranjeira no ar. Uma das variadas leituras que conheci nos dez anos em que cá morei foi a do rei e poeta Al-Mutamid, que passou em Silves a sua adolescência. O mapa político, linguístico e cultural da Península Ibérica era bem diferente no seu tempo. A vida de Al-Mutamid está marcada pelas turbulências políticas derivadas da …

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As relações internacionais e o papel da sociedade civil galega

Se não é útil o que fazemos, vã é a glóriaLema da Academia das Ciências de Lisboa Quem não arrisca não petiscaDitado popular O que não surge da necessidade quotidiana costuma passar para o último lugar das tarefas a atender. Este princípio pode ser aplicado à ação galega organizada e orientada ao plano internacional, que está supinamente regulada por leis estatais e que na Galiza conta com uma “Lei 10/2021, do 9 de marzo, reguladora da acción exterior e da cooperación para o desenvolvemento de Galicia”, pendente de desenvolvimento (e de aplicação). O documento inclui uma significativa orientação a favor da …

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Praia sem pessoas

O dia em que perdi os óculos no mar

Os óculos são um objecto estranho. Ao contrário dos outros equipamentos de correcção dos nossos defeitos, podem muito bem servir de acessório de moda. Fazem parte da identidade de quem os usa duma maneira que, por exemplo, um equipamento auditivo nunca faz. Afinal, estão na cara — são parte daquilo que nos define aos olhos dos outros. E, no entanto, também é verdade que este objecto carrega algumas ideias sobre o tipo de pessoas que o usa — e até serve para aquele insulto quase simpático do «caixa-d’óculos». Pois, é verdade, sou um dos caixa-d’óculos deste país. Os óculos servem-me …

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imagem de músicos a tocar o organistrum em pedra na catedral de santiago

Cultura de Colo

Uma das questões mais interessantes na minha opinião que aparecem nalgumas culturas é a pouca transmissão das experiências entre geração e geração, de que foi o que funcionou bem, quais foram os erros, que foi o que se aprendeu, a transferência intergeracional, as pessoas maiores como a fonte principal de sabedoria. Daí que muitas vezes continuemos em laços infinitos, repetindo erro após erro, sem saber que isso já foi experimentado antes, que o mundo não começou agora, as condições eram diferentes, a tecnologia, mas a gente vivia, experimentava, errava, aprendia. Por isso é impressionante a visão que temos por exemplo …

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A Galiza, a Espanha e a CPLP

Ao considerar o histórico de relacionamento da Galiza com os países de língua oficial portuguesa, só cabe exprimir o desejo de que o governo espanhol acerte na sua política, nas suas linhas de atuação. Por isso é expectável, e de justiça, que reconheça o papel da Galiza na CPLP. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) tem vindo a registar, nos últimos anos, uma ampliação do número de Estados associados e organizações observadoras, modificando mesmo alguns regulamentos para promover e facilitar uma participação ativa. Isto, sem dúvida, terá efeitos positivos em termos de influência internacional e capacidade para atingir …

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litografia da ponte de Tui-Valença

Galiportus

Galiportus podcast é um projeto radiofónico criado em 2023 e realizado graças ao suporte da rádio municipal de Alhariz (Ourense – Galiza). Trata-se de um programa semanal (às vezes dois) em formato de entrevista “em profundidade” e, no qual, se abordam tópicos que ligam a Galiza e Portugal, focados na Eurorregião Galiza-Norte de Portugal. Galiportus aborda questões de atualidade relacionadas com o ambiente, a política, artes, eventos, desporto, cinema, sociedade, língua, etc. Nesta sequência, já foram tratados assuntos como a “água limpa” do Lima, a turistificação, os sistemas educativos, o Festival Convergências Portugal-Galiza, Caminho Minhoto-Ribeiro ou o Imaginarius – Festival Internacional de …

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