O cuco já não para no Gestal

Da minha aldeiaDa minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo…Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,Porque eu sou do tamanho do que vejoE não do tamanho da minha altura…Alberto Caeiro Nem nos chamamos Balbino, nem nascemos numa aldeia, mas, por sorte, sempre tivemos uma, a aldeia da nossa mãe, o Gestal, no concelho de Monfero, como acontece com tanta gente urbana deste país. Um lugarejo nas ribeiras do Lambre, a menos de quatrocentos metros de altitude que, como tantas outras povoações do interior da Galiza, se está a transformar numa espécie …

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Prioridade ortográfica

Que todas as pessoas tenham os mesmos direitos é um desejo antigo. São conquistas que todas conhecemos: o iluminismo, a Declaração dos Direitos do Homem, muito mais tarde a afirmação dos direitos das mulheres, a abolição da escravidão, o fim da segregação racial, o casamento igualitário para as pessoas LGBTQ+ e mais que hão de vir. Não é uma semente que cresça num dia, precisa de muito tempo e é reversível. Ora, perto dela sempre há brutos, egocêntricos e pessoas sem empatia de moto-serra na mão. Nada deve mudar, mesmo que a injustiça seja o alicerce do edifício. Não interessam …

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José Pereira: a memória de uma injustiça portuguesa

Há vidas que começam por parecer pequenas porque nasceram numa aldeia pequena. Depois, quando se escutam bem, percebemos que trazem dentro um país inteiro. José Pereira, avô de Rui Barroso Gonçalves, nasceu em Lamachã, a 7 de janeiro de 1914. Cresceu entre irmãos, trabalho, fome e necessidade. Ficou órfão de pai cedo, como Rui recorda, e foi a mãe que segurou a casa e aquela vida toda, num tempo em que as famílias numerosas conheciam a dureza pelo nome próprio. Ainda novo, José Pereira começou a trabalhar na Mina,no baldio que separava Criande, Negrões e Lamachã. Ganhava ali o pão. …

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Por quê razão odiamos os sem-abrigo

Em 2020, escrevi um artigo com este título para o jornal Público. Estava dentro de uma carrinha emprestada pelo Teatro Art’Imagem à associação Saber Compreender, com refeições quentes na bagageira, e tinha outro nome e identidade de género. Contei a história do Cinco Escudos, um mendigo da minha infância que toda a gente conhecia pelo preço que pedia. Contei como um homem nos pediu desesperadamente uma garrafa de água porque os cafés estavam fechados e ele não tinha onde encher uma garrafinha. A crónica foi uma das mais lidas dos Diários da Pandemia do Público. Partilharam-na. Comentaram-na. Comoveram-se. E depois …

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Tecno-logos e datacracia

Cada época produz as suas próprias formas de racionalidade. Durante séculos, as sociedades ocidentais depositaram a sua confiança na razão humana como instância encarregada de interpretar a realidade e orientar a ação individual e coletiva. Hoje, porém, parece estar a emergir uma nova forma de racionalidade, um tecno-logos baseado na capacidade dos sistemas digitais e da inteligência artificial para analisar a informação, realizar previsões e prescrever os comportamentos. Cada vez com maior frequência, são os algoritmos que nos indicam que conteúdos consumir, que rota seguir, que produto comprar ou que decisões são as mais convenientes. A sua presença estende-se também …

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O “Pacote Laboral” reduz o trabalhador ao estado de menoridade mental

À medida que o governo português vai fazendo o seu caminho, no sentido da aprovação da proposta legislativa, que designou como “trabalho XXI”, seria de extrema importância que a Imprensa promovesse um debate público sobre as consequências para a generalidade dos trabalhadores, as suas famílias e a sociedade em geral, no caso de se materializarem os intentos de Palma Ramalho e de quem ela representa. Ao invés do apagão quase geral que se tem produzido e, quando assim não é, da discussão mesquinha, como se tudo se tratasse de um mero braço de ferro entre governo e sindicatos, o trabalho …

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A cozinha na Casa do Barrosão

Na Casa do Barrosão, a cozinha não é divisão da casa. É território. Os presuntos pendurados nas traves não são decoração rústica para fotografia bonita. São a prova material de uma vida inteira ligada à terra. Cada peça ali suspensa tem atrás madrugadas frias, erva carregada ao ombro, animais tratados todos os dias do ano, sem domingos nem feriados. E depois há a fotografia na parede. O trator cheio de fardos ocupa o lugar de honra porque, naquela casa, a fartura conquista-se. Não aparece. Não vem pronta. Faz-se. Há um orgulho muito próprio no mundo rural: o de olhar para …

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Mudam-se os tempos, mudam-se as letras das canções

A música popular é frequentemente entendida como um território sem propriedade — algo raro nos tempos de hoje, em que até a água, as praias e a terra têm dono. A canção tradicional não pode ser privatizada: qualquer pessoa, sabendo música ou não, pode inventar uma cantiga que, através da tradição oral, passa de geração em geração. No fado, nas desgarradas, nas regueifas e nos bailes galegos, a mesma canção podia ser alterada, misturada e transformada, tanto como desafio artístico como enquanto forma de pensamento, desabafo e protesto. Hoje, porém, este movimento é considerado controverso. Vários projetos musicais e coros …

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Eurocidades: muito mais do que turismo 

Durante décadas, as fronteiras foram vistas como margens. Lugares periféricos, afastados dos centros de decisão e frequentemente associados ao despovoamento, à perda de serviços e à falta de oportunidades. Foi precisamente para contrariar essa realidade que nasceram as eurocidades ibéricas: espaços de cooperação entre municípios portugueses e espanhóis que procuravam transformar a fronteira numa ponte em vez de uma barreira. Atualmente existem várias eurocidades ao longo da fronteira luso-espanhola e galega, entre as quais se destacam as do Minho, a de Chaves-Verim, a EUROBEC, a de Ciudad Rodrigo-Fuentes de Oñoro-Almeida e a Eurocidade do Guadiana. Apesar das suas diferenças, todas …

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Zeca Afonso, Álvaro Siza e José Saramago maravilham em Vite de Compostela

O cantor e músico Zeca Afonso, o arquiteto Álvaro Siza Vieira, e o escritor José Saramago, três das pessoas que melhor identificam Portugal e a sua cultura internacionalmente, conheceram Vite, um bairro não turístico de Santiago de Compostela, e são nele lembrados por produtos que maravilham. As suas singulares histórias abrem uma oportunidade a uma experiência diferente e a gozar de uma maneira ativa de um espaço muito atrativo e enriquecedor, que não costuma ser alvo das atenções das gentes que peregrinam ou visitam a cidade. Estreia de Grândola Vila Morena As vivendas de Vite começaram a ser habitadas em …

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Mar

Mar.Vem comigo.Acalma-me o peito.Enquanto juntos agitamos o mundo. Mar.Do outro lado de ti.Há gente que embarcaGritam “Justiça!” noutros mundos. Mar.Essas são pessoas bravas!Trá-los de volta a casa. Mar.Que possas tu libertarQuem do outro lado do marAnseia por voltar. Mar.Ouve as suas preces.Ouve o que pedem.Uma terra para viver.Alguma coisa para comer. Mar.Ninguém deveria sonharCom um tecto onde viverQue não seja uma tenda encharcadaOnde já não sobra nada Mar.Não há como voltarDa humanidade que não temosDe cada vez que viramos a cara Mar.Que possamos nós também regressarÀ humanidade de outroraSem que seja só por moda Da fotografia © Maria Pedro Silva

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Da boa influência no mundo (ou a segunda carta)

Fala – dizia Eurípedes –, caso tenhas palavras mais fortes do que o silêncio… ou então, guarda o silêncio, mas é fácil, hoje, desobedecer-lhe e juntar as minhas palavras a tantas outras que, por esse mundo fora, falam e escrevem, festejando a mesma circunstância. Celebrámos, há poucos dias, o centésimo aniversário dessa maravilhosa pessoa que é Sir David Attenborough. O estar uma pessoa fisicamente presente nas festas do seu próprio centenário, é já um feito digno de nota mas, neste caso em particular, os cem anos que se celebram trazem tanto de riqueza, de sabedoria, de partilha, de maravilhamento, de …

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Adolescência, Gravidez e Pressões Sociais

As gravidezes na adolescência continuam a representar uma das maiores preocupações sociais em Moçambique. Em bairros urbanos e zonas periféricas, tornou-se cada vez mais comum encontrar meninas a partir dos 14 anos que interrompem os estudos para assumir responsabilidades de maternidade. O que mais preocupa não é apenas o aumento desses casos, mas a forma como a sociedade começa lentamente a encarar esta realidade como algo normal. Grande parte dessas adolescentes envolve-se com homens mais velhos, muitos deles casados, movidas pela necessidade de obter dinheiro, roupas, telemóveis, bebidas, cosméticos e outros bens materiais que representam status social entre os jovens. …

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Próxima paragem: Inferno?

Já são consideráveis as filas de pessoas que, civilizadamente, se organizam para esperar pelas várias linhas de autocarro que confluem e partem da estação da Casa da Música, no Porto, a uma segunda-feira, às 7 da manhã.Vão, umas quantas, atravessar a ponte da Arrábida, para sul, nota-se nas faces o despertar já cansado, e a semana está só no começo. São, na maior parte, homens. Jovens. Africanos subsaarianos, africanos magrebinos, brasileiros, alguns asiáticos. Calados, cabisbaixos, humildes, trabalhadores, um fala comigo a custo, quando lhe dou o lugar na fila, porque, digo-lhe, ele já ali estava, só que na fila errada. …

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Educação sexual

Constata-se que, enquanto a agressão machista – verbal, emocional, afetiva ou física – continua, e as dificuldades das mulheres em alcançar uma igualdade efetiva de direitos e reconhecimento no local de trabalho persistem, proliferam discursos que defendem que o feminismo foi longe demais. Abundam as referências ao «supremacismo feminista», denuncia-se a suposta discriminação positiva e difunde-se até a ideia de que as mulheres se aproveitam das regras através de falsas acusações ou exagerando comportamentos considerados «inocentes». Ao mesmo tempo, o binarismo de género e a defesa dos papéis tradicionais associados à masculinidade e feminilidade clássicas estão a registar um forte …

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Chuck Norris

Quando tentamos definir a saudade, a sua natureza inefável é a primeira a revelar-se. Assim, uma pessoa saudosa, confrontada com a questão, mal conseguirá explicar o que sente. No seu livro Filosofia da Saudade, Ramon Pinheiro refere-se a ela como um traço característico da personalidade de um povo ou, por assim dizer, de uma “comunidade espiritual” — o grande mistério galaico-português. Contudo, é mais habitual que sejam os forasteiros a atribuir uma alma comum aos naturais de outro país. Nesse sentido, a abundância de clichés sobre os galegos não deixa lugar a dúvidas quanto à sua singularidade. Um dos mais …

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Estatuto da Carreira Docente: o que está em causa?

Amanhã 16 de maio está convocada uma manifestação nacional de professores em Lisboa como ação de protesto contra o conteúdo e as formas do processo negocial do futuro Estatuto da Carreira Docente que se tem vindo a dar entre o Ministério de Educação, Ciência e Inovação – MECI e os sindicatos do setor. Será o ponto alto da crescente oposição e da progressiva tomada de consciência por parte da classe docente da gravidade dos planos que esta equipa ministerial tem para o futuro da profissão e da escola pública portuguesa como um todo, grande conquista da Revolução de Abril. É …

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A IA e o teste da Carmen

Muitas pessoas conhecem Alan Turing e, em particular, o seu famoso teste através das palestras de divulgação sobre a Inteligência Artificial. Esse teste, cujo nome original é “jogo da imitação“, é amplamente referido, mas poucos conhecem os seus detalhes concretos, mesmo entre os estudantes de Inteligência Artificial e áreas afins nas universidades. No artigo “Computing Machinery and Intelligence“, publicado em 1950, Alan Turing propôs um critério comportamental para avaliar se uma máquina consegue exibir inteligência semelhante à humana: num jogo de imitação, um interrogador humano comunica-se apenas por texto com dous interlocutores escondidos, um humano real e uma máquina, e, …

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17 M | Begonha Caamanho, uma das nossas

Begonha Caamanho passou polo mundo entre 1964 e 2014. Foram 50 anos em que se deixou fascinar polo calor dos afetos, polo prazer arredor do conhecimento e pola fúria revolucionária de mudar o mundo. Olhou com curiosidade e fascinação para um poema, para a flor das cebolas, para o Movimento de Libertação Nacional Palestino. Gozou do teatro, da literatura. Adorou a música. Vibrou em concertos, em foliadas. Em bares com música muito alta. Entendeu a cultura ao estilo da lavrança tradicional, como um ofício, um cultivo, como um jeito de estar no mundo. Era público frequente do Festival de Poesia …

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alminhas

As Alminhas: uma leitura etnológica

As alminhas constituem uma das expressões mais significativas da religiosidade popular no espaço cultural galego-português. Presentes sobretudo em zonas rurais do norte e centro de Portugal e em grande parte da Galiza,estas pequenas construções devocionais — nichos, capelinhas ou painéis — são dedicadas às almas do Purgatório e fazem parte da paisagem simbólica das comunidades desde, pelo menos, a Idade Moderna. A origem das alminhas está intimamente ligada à consolidação da doutrina do Purgatório, difundida pela Igreja Católica a partir da Baixa Idade Média e reforçada após o Concílio de Trento (século XVI). A ideia de um espaço intermédio de purificação …

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