Guerra

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Em 2022, a editora francesa Gallimard publicou um romance inédito de Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) intitulado Guerra. O sair à luz deste livro assenta numa história realmente singular — a começar pelo facto de o autor ter falecido há mais de sessenta anos.

No final da Segunda Guerra Mundial, perante o avanço dos Aliados, Céline e a sua mulher, Lucette, abandonam Paris rumo à Alemanha nazi. Tido por um destacado colaboracionista — o mais célebre entre os escritores —, temem o ajuste de contas que inevitavelmente se seguirá. Apesar do teor dos seus panfletos, ele virá mais tarde a responder com veemência a todas as acusações; naquele momento, porém, consegue salvar a vida graças a uma fuga precipitada — o fuzilamento do também escritor Robert Brasillach não deixa margem para dúvidas. No apartamento parisino do casal ficam, entre muitos outros pertences, textos inacabados e obras ainda por publicar. Esses papéis desaparecem durante o exílio de Céline, que regressa a França, em 1951, depois de ter beneficiado de uma anistia.

Na década de oitenta, o manuscrito de Guerra chega às mãos de um jornalista, por intermédio de ex-membros da resistência, sob a condição de só ser publicado após a morte da viúva de Céline — não querem que uma antiga inimiga lucre dos direitos de autor. O desfecho desta rocambolesca história, relatada em vários meios e cuja veracidade alguns questionam, dá-se passadas três décadas, quando Lucette, nascida em 1912, morre aos 107 anos de idade.

Antes de mais, devo dizer que a leitura do romance póstumo do autor de Viagem ao Fim da Noite, uma obra-prima da literatura universal, me desiludiu bastante — não é de estranhar, atendendo às elevadas expetativas geradas mundialmente. Ainda assim, quis abordar este curioso episódio porque me serve sobretudo para introduzir certos temas de atualidade. À partida, confirma o que se tem tornado evidente nos grandes prémios literários, reduzidos a campanhas publicitárias de produtos elaborados ad hoc: que o negócio editorial procura maximizar os lucros e jogar pelo seguro, optando por fórmulas amplamente comprovadas — incluindo obras perdidas de autores famosos, que surgem de repente, como um Monet no sótão de casa.

Por outro lado, poucos escritores levaram tão longe o contraste entre o talento literário e a miséria ideológica. O caso Céline daria, portanto, para falar na possibilidade de separar a obra do autor. Não obstante, sempre pensei que este debate, tão em voga, parte de uma ideia errada sobre o que deve ser o reconhecimento público. Se atendermos às teorias de Alfred Adler, um dos fundadores da psicologia moderna, só se pode atribuir valor a uma criação humana desde que sirva a comunidade; quer dizer, enquanto sociedade, é absurdo admirar alguém que apenas procura o seu próprio benefício. A notoriedade não se conquista como um troféu: recebe-se como forma de gratidão. Quando o público aplaude, agradece mais do que felicita — eis o que o artista precisa de compreender.
Em minha opinião, o equívoco nasce da vaidade que, como reconhece o psicólogo austríaco, atravessa as grandes obras humanas e pode tornar-se perturbadora.

Não há vaidade inteligente, nem uma pessoa que não seja especialmente vaidosa — diz Bardamu, o protagonista de Viagem ao Fim da Noite.

Se a questão reside em alimentar ou não o ego dos autores, o dilema desfaz-se, já que a vaidade nada vale. Que o nome de alguém figure numa placa de rua é irrelevante: a inscrição não passa de um espelho onde se reflete a vaidade dos outros.

Por último, nos tempos que correm, é claro que a própria guerra reclama, infelizmente, um pertinente comentário. No seu romance mais conhecido, Céline — que combateu na Primeira Guerra Mundial, onde foi ferido e condecorado — produz talvez o melhor discurso antibelicista já escrito, embora dedique à contenda apenas os capítulos iniciais, ao contrário do que sucede em Guerra. Não se trata, tampouco, de um retrato goyesco dos horrores da guerra — à maneira de A Oeste Nada de Novo, de Remarque —, mas de uma crítica azeda e devastadora de todo o que envolve qualquer conflito bélico.

Lembrei-me de vários desses trechos ao acompanhar, pela imprensa, outro debate recente em Espanha, na sequência de um ciclo de palestras sobre a Guerra Civil que iria decorrer em Sevilha. Uma das polêmicas surgiu em torno do título escolhido — “A guerra que todos nós perdemos” —, com o qual os organizadores pretendiam evocar a tragédia que atingiu o país inteiro. O lema foi contestado por um dos escritores intervenientes, que o considerou demasiado equidistante, tendo em conta que o bando franquista governou ilegitimamente durante quarenta anos graças à sua vitória sobre os republicanos. Como de costume nestas ocasiões, a discussão intensificou-se com o passar dos dias, agregando vozes a ambos os lados, até culminar na anulação do evento.

Pensei imediatamente em Bardamu, quando comenta, a propósito da Grande Guerra:

— A guerra tinha aquecido uns e queimado outros, da mesma forma que o lume reconforta ou tortura, conforme se esteja na sua frente ou dentro dele.

Concordo, de veras, com os detratores do título mencionado, mas com uma importante ressalva: afinal, são as pessoas, e não os bandos, que mais ganham ou perdem. A recompensa do soldado caído na batalha é sempre escassa, embora faça parte do exército vitorioso — em todo o caso, menor que a dos dirigentes que transformam a sua derrota num retiro dourado. Aliás, ainda existem aqueles que, como em tempos de Céline, desprovidos de qualquer afiliação, permanecem na retaguarda a lucrar com as contendas do presente.

Penso que ao falarmos de bandos esquecemos que o mais importante são os indivíduos, ainda que as suas ações devam ser sempre coerentes — como dizia Adler — com o bem comum. A este respeito, quero trazer à tona uma citação de outro literato francês, Albert Camus: “Entre a justiça e minha mãe, escolho minha mãe”. Esta célebre frase, que na realidade nunca proferiu — foram umas declarações sobre a guerra de Argélia, que ficaram popularmente assim resumidas — , gerou no seu momento uma grande polémica. E, no entanto, ele só estava a expressar algo que a história tem demonstrado em inúmeras ocasiões: quando as ideias, inclusive as mais elevadas, ignoram as pessoas, convertem-se em perigosas abstrações.

As guerras de ontem e de hoje, mas também outros conflitos menores, sustentados em debates acirrados e posturas irreconciliáveis, procuram a sua justificação na defesa de determinados coletivos. Eu diria, aos que legitimamente protegem o grupo, que comecem pelo labor — em nenhum caso contraditório — de cuidar das pessoas. Porque, com frequência, é o mato que não nos deixa ver as árvores.

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