A Casa de Partida

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Faz este ano quatro décadas que me apresentei na casa de partida. A 19 de Julho de 1986, puxado pela minha irmã, Alexandra Loureiro, ela com 14, eu com 17 anos, fomos a uma reunião, na sede da Cooperativa Cultural e Recreativa da Gafanha da Nazaré. Rua Gil Eanes.
A casa ainda lá está.

Uma semana antes, também um sábado, um emissor pirata havia sido, ali, instalado. A rádio chegara, com o aviso de uma notícia, num tempo em que as notícias eram toda a novidade. E nós, à escuta, nessa semana de notícias e de espanto, e certamente instigados pelo nosso Pai, lá fomos de bicicleta, dois miúdos, munidos de ideias, timidez, minha, e coragem, dela. Inocência, de ambos. A reunião, aberta à comunidade, queria produzir uma primeira grelha de programas da novíssima rádio pirata, ainda sem nome.

A Alexandra propôs o Cantinho da Pequenada, juntando-se a mais umas amigas. Eu propus o Zona Zero, com o João Paulo Marta, o Paulo Amarante e a Judite Marques, embrião de um programa que ainda hoje existe nesse horário, O Sonho do Rock ‘n’ Roll, pela mão dos meus queridos amigos Jorge Cravo e José Bola. Todos tínhamos lugar nessa grelha de programas original, democrática, docemente caótica.

A Rádio TerraNova foi a casa de onde parti. Felizmente, está de pé. Permanece e há-de completar, dentro de três meses, a sua meia idade. Cá estarei a comemorá-la intensamente, como parte do que sou. Já o estou a fazer, aliás, desde que há meses encontrei outro grupo de gente que sonha mundos. E dá tudo para que esses mundos se façam.

Estou de regresso à casa de partida. Uma casa pequena, humilde, mas feita das portas e das janelas maiores que o mundo já viu. A casa onde o jornalismo é o nome que damos ao vento do que se quer mudar. Onde esse jornalismo puro é a comunidade humana em movimento. Onde é o que é simples e o que nos torna autênticos. Onde é a voz que rejeita silêncios. Onde é o tempo que rejeita a ditadura do tempo. Onde é a democracia que rejeita o sequestro da consciência. Onde é liberdade.
Onde é liberdade.

A 25 de Abril, daqui a três dias, nasce o DNS.
De Norte a Sul.
De Bares, no extremo norte da Galiza, ao Chuí, no extremo sul do Brasil.
Que é de onde nós somos.

Tal como na casa de onde parti há quarenta anos, estou inteiro no regresso. Acho que nenhum de nós faz a menor ideia do que vai ser o DNS. Somos todos assumidamente amadores, de novo, assumidamente inocentes. Sabemos apenas que há uma fronteira que não é mais do que um rio.
E que os rios unem mais do que separam.

Continuarei a dar notícias.

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