Entrevista | Miriam da Stop Biogás: “Não queremos abandonar as nossas casas”

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Miriam Sánchez Canedo, mora na freguesia de Soandres, na Laracha, e é membro da Stop Biogás. O coletivo, que se opõe à instalação de uma fábrica industrial junto a núcleos habitacionais, alerta para os impactos ambientais e para a saúde da população. O possível impacto sobre o Rio Anlhons, do qual bebem milhares de pessoas nos concelhos a jusante, também está em causa. Esta é uma problemática que já está a preocupar milhares de pessoas na região.

Miriam Sánchez Canedo da Stop Biogás

O que é isto do Biogás e qual a problemática?

O biogás é uma das muitas formas de energia renovável que existem. É um modelo que se está a expandir pela Europa, através de centrais de biogás que produzem eletricidade graças à decomposição de matéria orgânica, nomeadamente através de resíduos agropecuários. Nós contestamos o modelo à escala industrial e a sua localização. Consideramos que não é a adequada.

Quais foram os movimentos realizados pela empresa?

Realizaram uma sessão de esclarecimento público no dia 13 de abril, manifestando a intenção de se instalarem na freguesia de Soandres (concelho da Laracha). O principal problema que a central vai gerar é a poluição, porque os impactos ambientais vão ser muito graves. Há população residente, há habitações a 300 metros e, num raio de meio quilómetro, há, ao todo, mais de 500 casas.

A população aqui tem vindo a crescer porque estamos bem localizados: a pouca distância da autoestrada A-6, da terceira via de acesso à Corunha e da estrada em direção ao Mesão do Vento — construída em 2005 para ligar à Sogama1. Isto fez com que a população aumentasse, mas agora tememos ter de ir embora, por não vermos o nosso modo de vida compatível com este projeto.

Que consequências teria a instalação da fábrica?

Uma delas seria a qualidade do ar. A central vai produzir gases tóxicos. A empresa fala de quantidades pequenas, mas há um efeito cumulativo muito importante, que afetará inclusive o gado. Entre os gases nocivos está o sulfureto de hidrogénio, um gás com um cheiro muito desagradável. Isto pode provocar dores de cabeça, insónias e agravar a situação de quem já tenha problemas respiratórios, asma, ou causar dificuldades às pessoas idosas…

O maior prejuízo seria para as próprias pessoas, que não poderiam sequer abrir as janelas pelo facto de viverem a menos de um quilómetro da planta industrial. Quanto à água, temos o rio Anlhons, que nasce muito perto. Um braço do rio, que vem do monte Xalo, atravessa esse ponto exato. Além disso, esta central tem projetado o processo de desidratação, provocando a decomposição por meio de bactérias que eles introduzem no chorume. No entanto, isto representaria apenas 10% da matéria-prima. Os restantes 90% seriam provenientes de estações de tratamento de águas residuais e fossas séticas, soro de leite e outros resíduos…

174 toneladas diárias de resíduos orgânicos: agrícolas, chorume, indústria alimentar e derivados…

Exatamente. Eles falam desse dado, mas com a possibilidade de aumentar a quantidade se for necessário. São perto de 64 mil toneladas anuais que será necessário gerir, e que produziriam parte líquida e parte sólida. A parte líquida, essa desidratação nesses contentores estanques que eles iriam colocar, provocaria a descarga direta dessa água no rio. Mas não temos garantida a salubridade dessa água, nem face a eventuais imprevistos. O que acontecerá se alguma parte da estação de tratamento avariar? Se houver um acidente?… ou como serão analisados esses resíduos? Essas águas podem levar restos de metais pesados, antibióticos… Trata-se de um rio que logo na sua nascente passaria a receber cerca de dois mil camiões-cisterna por ano. Essa pressão ambiental será difícil de suportar para um curso de água que abastece várias populações da comarca de Bergantinhos até chegar ao mar: Laracha, Cabana, Carvalho, Coristanco e até Ponte-Cesso bebem dessa água. E finalmente, a própria central quer se instalar num terreno que é inundável. O que a Águas de Galiza2 tem a dizer? Parece-nos surreal.

A questão da Altri está ainda nas nossas mentes … Qual a proposta apresentada pelo governo às populações? Empregos, tratamento adequado ? Avaliação do impacto ambiental… Que informações vos chegaram?

Num primeiro momento passaram pela aldeia de Vistalegre (a “zona zero”) representantes da empresa a dizer que este era um projeto muito bom e que traria postos de trabalho. No entanto, a surpresa foi que o projeto trará unicamente 10 empregos diretos, com momentos no dia com apenas 3 pessoas a trabalharem lá. E até mesmo dias com controlo remoto total. Então sendo assim, será um projeto prioritário, estratégico… mas há uma questão que não cumpre as expectativas: os efeitos negativos são muito superiores aos benefícios que possa trazer.

A título de exemplo, a Sogama em Cerzeda, teve uma vertente positiva com postos de trabalho e condições sociais favoráveis. Não acontece o mesmo com este projeto. E além de tudo, estão ainda os resíduos sólidos: após o processo de desidratação, produz-se um fertilizante que eventualmente seria vendido sob o conceito de economia circular. Mas não há garantias, nem sabemos de onde provêm os resíduos dessa amálgama de componentes. Esse fertilizante pode acabar perto das nossas terras. E há ainda o risco de descargas descontroladas que podem piorar com as chuvas e as cheias.

Mais ainda, teríamos também um problema com as águas subterrâneas. Muitos dos moradores bebemos dos nossos furos particulares que poderiam acabar poluídos por esses fertilizantes. Em suma, a terra, a água e o ar estão em risco. Temos todos os motivos para não acreditar.

Como nasceu a Stop Biogás, como se associaram, quais os suportes doutros coletivos, as reações sociais?

Tudo começou a 13 de abril deste ano, com a consulta pública. Houve uma mobilização espontânea após a repercussão nas redes. Apareceram vizinhos, pessoas dos coletivos ambientalistas como Senda Nova, a Adega e mesmo um deputado do Bloco (BNG). Nesse momento percebemos que havia que organizar-se, fazer pressão social, mobilizar-se, informar-nos, saber o que são alegações, procurarmos assessores…

Recebemos total apoio da parte institucional do Concelho. Conseguimos um centro social para as reuniões e começamos a redigir as alegações particulares. As pessoas não sabiam disto, e agradeceram muito este espaço de debate e de informação partilhada. Reunimo-nos com todos os autarcas da zona, e chegamos a falar também na capital da comarca, Carvalho, que bebe dessa água e poderia ser muito afetada.

Têm os apoios todos em Coristanco, Malpica, Carvalho, Laje…

Sim, sim, até Culheredo, Arteijo, municípios fora da comarca. O apoio é total, todos consideram este projeto negativo. Porém, o governo galego mantém-se na mesma linha de favorecer o processo. Temos de ver como é que vão ser os relatórios dos organismos: Estudo de impacto ambiental, das Conselharias, Águas da Galiza… e se estes serão finalmente favoráveis. Se forem desfavoráveis, o próprio governo disse que o projeto não avançaria.

Estamos à espera do que possa vir a acontecer, sabemos que a tramitação pode demorar um ano….

Então é preciso continuarmos na luta, tomar consciência, pressionar. E ainda mais: este modelo está a dar problemas noutras partes da Europa. Por exemplo na Alemanha já estão a fechar fábricas de biogás. E aqui, com a nossa demografia dispersa, é muito pior. Na coordenadora Stop Biogás, a nível estatal, utiliza-se muito a palavra de ordem “ni en tu pueblo ni en el mío” —nem na tua terra nem na minha—. É um slogan muito esclarecedor. Quem quer este modelo? Ninguém. Outras formas devem ser possíveis.

A gestão desses resíduos, como no caso da instalação de “megaquintas3”, tem que ser feita in loco. Sabemos que na Itália ou na França há pequenas centrais de processamento. Se calhar, nem todos os modelos servem para os mesmos lugares. Teremos de adaptá-los e, sobretudo, é preciso legislar. A legislação tem de vir antes do problema, mas já se sabe: fundos, subvenções… e a lei só vem atrás de tudo o resto.

A fábrica projetada na Laracha foi a debate no Parlamento Europeu…

Sim, com a intervenção da eurodeputada Ana Miranda do Bloco. O Sumar levou o assunto também a uma das comissões. Muitas das vozes que lá nos representam insistem nesta ideia: não se pode sacrificar o rural. Há que priorizar quais os resíduos admissíveis e quais não são, elaborar leis que favoreçam as pessoas… definir como é que se vão desenvolver estas novas indústrias do biogás, biometanol, etc. Há muito trabalho pela frente para corrigir estas lacunas na lei.

Assim sendo, este ano será preciso esperar?

Depois de este projeto ter sido declarado como “prioritário” e “estratégico” pelo governo, apenas nos foi permitido um único momento para apresentar alegações; agora o prazo terminou e não há opções nesta fase. Teremos de esperar os relatórios técnicos…

Mas não podemos esquecer o património: a saúde é a nossa vida, mas também há antas afetadas, petróglifos, calçadas romanas e até um castro perto. Esta é uma zona muito rica no plano arqueológico, mesmo à entrada da Costa da Morte. Um local estratégico há mais de 5 mil anos. A planta pode acabar também com a beleza da área ao redor.

Finalmente, descobrimos com surpresa que a nascente do rio Anlhons não está protegida e não faz parte da Rede Natura 2000, embora o rio a jusante sim4. É incrível: passaram 12 anos desde a primeira declaração e a Rede Natura continua sem ser atualizada para abranger a nascente. O rio tem que ser protegido na sua totalidade. Há certos assuntos de que só ficamos a saber quando acontecem estas coisas. Infelizmente, antes ninguém reparara nisto, mas agora muitas pessoas se interessam por estas questões, cria-se comunidade.

Houve muitas demonstrações de apoio… Quais foram as mais surpreendentes e qual é a repercussão real deste projeto?

O Parlamento Europeu. Para nós é fulcral que se ouçam os nomes da “Laracha” ou “Soandres” lá, tão longe. Porém, as associações ambientalistas ou de moradores, a ação social de proximidade não é menos importante: colaborarmos, todos unidos… como diz o ditado: “pensar globalmente, agir localmente”. O problema é local mas também é de todos. Há uma forte rejeição no conjunto do Estado e estão a decorrer muitas mobilizações. Antes dos interesses das empresas estamos nós, as pessoas que moramos aqui.

Contactaram com outros coletivos ambientalistas como o Altri Non” da Ulhoa ou oÁgua Limpa Já” da Límia?

Não tivemos muito tempo para os contactos, estávamos condicionados pelos prazos para as alegações. Mas eles contactaram-nos, sim, oferecendo ajuda. E também outras plataformas de Stop Biogás doutros lugares. Quando convocamos a manifestação na Laracha, vieram associações de outras partes da Galiza, que enfrentam o mesmo problema ou que, na verdade, poderão vir a enfrentá-lo muito em breve. A ajuda deles foi e é permanente, e para nós é muito importante.

Mas neste momento é preciso esperar e abrirmos um novo processo na plataforma para visibilizar, debater… Temos muitos desafios pela frente.

Ficou alguma coisa por dizer? Quem quiser contribuir como poderia contactar convosco?

Quem quiser contribuir, é só contactar connosco nas redes sociais. Ou no stopbiogasalaracha[@]gmail.com. Temos uma grande comunidade no whatsapp onde também avisamos sobre as próximas mobilizações. O problema é de todos, e devemos estar todos juntos na luta.


  1. Empresa pública do governo que trata dos resíduos urbanos gerados na maior parte dos municípios galegos ↩︎
  2. Organismo do governo para a gestão dos recursos hídricos ↩︎
  3. Megaquintas ou megragranjas são explorações pecuárias industriais de grandes dimensões que surgiram no leste de Espanha, contestadas pelo consumo de água, grande acumulação de chorume e problemas associados a carências no bem-estar e saúde animal. ↩︎
  4. O Rio Anlhons é Lugar de Importância Comunitária (LIC) desde 2004 tendo sido elevado em 2014 a Zona Especial de Conservação (ZEC) dentro da Rede Natura 2000 nos restantes concelhos pelos que passa. ↩︎
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