Que todas as pessoas tenham os mesmos direitos é um desejo antigo. São conquistas que todas conhecemos: o iluminismo, a Declaração dos Direitos do Homem, muito mais tarde a afirmação dos direitos das mulheres, a abolição da escravidão, o fim da segregação racial, o casamento igualitário para as pessoas LGBTQ+ e mais que hão de vir.
Não é uma semente que cresça num dia, precisa de muito tempo e é reversível. Ora, perto dela sempre há brutos, egocêntricos e pessoas sem empatia de moto-serra na mão. Nada deve mudar, mesmo que a injustiça seja o alicerce do edifício. Não interessam as pessoas, e o que fazem, apenas se se chama Mohamed ou José, o seu sotaque, a melanina, a conta bancária, a sua intimidade.
A intolerância tem muitos tamanhos. Conhecemos os grandes, saem nos manuais escolares, nos filmes, na literatura, nos debates políticos. Mas também estão os pequenos, que passam mais desapercebidos, que nos deixam mais indiferentes. No entanto, a matéria-prima é exatamente a mesma. Cada um faz o que puder dentro da sua caixa.
A caixa do galego, numa escala planetária, é diminuta. Nem merece muita atenção. Ou melhor, há aspetos que sim, enquanto outros passam mais desapercebidos. Se a nossa caixa é pequena, parece sensato torná-la maior. Afinal, a outra, a do castelhano é um palete, imenso, com a capacidade de esmagar tudo.
O Prémio de poesia Johán Carballeira foi instituído polo1 Concelho de Bueu. Na edição de 2025 o autor premiado foi Uxio Outeiro, por Réquiem. O júri considerou que era a melhor obra entre as apresentadas. Estava escrita num modelo de galego como o que estou a usar neste texto. Para ser premiado não interessou a melanina, o nome do autor, a sua conta bancária, a sua intimidade, a ortografia… só a sua qualidade.
Recentemente, o Concelho de Bueu publicou as bases do prémio e a ortografia tornou-se um problema. O júri só poderá avaliar obras escritas com ortografia espanhola. Desrespeita-se assim um plenário municipal do ano passado em sentido contrário. Qual a origem de tudo isto? Uma moto-serra. A editora encarregada da edição dos livros vencedores, Xerais, pressionou para que assim fosse. Para ela não é importante a qualidade da obra. A sua prioridade é a ortografia.
Vemos este tipo de atitudes totalitárias todos os dias nos meios de comunicação. Alguém dirá, meu, isto não é nada comparado com a selvageria que está por aí fora. Com certeza, é um suspiro frente ao trovão. Mas continua a ser totalitário. Ficamos zangados quando os líderes políticos se riem das piadas do Mandador, ou olham para outro lado. Que faríamos nós em seu lugar? O que está a fazer o Concelho de Bueu? Engolir. A obra de Uxio não poderia ganhar o prémio se ela concorresse agora.
Por fim, é difícil não pensar na ladainha de Os nossos e os Outros. Os Nossos são os bons, os abertos, os justos e os Outros são o reverso do espelho. E temos de ter fé. Mas é impossível, porque os nossos não fazemos parte dos nosos. E a caixinha é ainda mais pequena, e tanto lhes dá.
- O autor escreve numa variedade de português que inclui particularidades galegas ↩︎

