O Brasil também não sabe lidar com a imigração

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Há uma imagem que o Brasil gosta de cultivar sobre si mesmo: a de um país acolhedor, miscigenado e aberto ao mundo. É uma narrativa confortável.

Afinal, o país foi sendo formado por diferentes e sucessivas ondas migratórias. Portugueses, italianos, espanhóis, japoneses, sírios, libaneses e tantos outros ajudaram a construir a sociedade brasileira.

O problema é que a realidade atual nem sempre confirma essa autoimagem.

Nos últimos quinze anos, o Brasil voltou a receber fluxos migratórios significativos. Vieram haitianos após o terremoto de 2010. Vieram venezuelanos fugindo da crise econômica e institucional do seu país.

Chegaram os bolivianos chegam em busca de trabalho, principalmente para a cidade de São Paulo. Vieram senegaleses, congoleses e cidadãos de outras nações africanas procurando oportunidades e segurança. O que encontraram, muitas vezes, foi um país sem estrutura para recebê-los.

A legislação brasileira sobre migração avançou consideravelmente. A Lei de Migração de 2017 substituiu o antigo Estatuto do Estrangeiro, criado durante a ditadura militar, e passou a tratar o migrante como sujeito de direitos, buscando assegurar garantias e combater a discriminação.
Se, no papel, foi uma mudança importante, na prática, porém, a vida continua a ser muito mais complicada.

Os dados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísica – IBGE, apontam que de 2010 a 2022 houve um crescimento expressivo de imigrantes estrangeiros no Brasil. O contingente passa de 592 mil para 1 milhão de pessoas.
Nesse período, a parcela de imigrantes latino-americanos foi de 183 mil em 2010 para 646 mil em 2022, com grande influência dos imigrantes nascidos na Venezuela (272 mil), ao passo que, entre os europeus, houve uma redução de 263 mil para 203 mil no mesmo período.

Por trás de estatísticas e métricas existem famílias inteiras com diferentes necessidades que precisam ser atendidas. Porém, o primeiro obstáculo que enfrentam é a burocracia. Obter documentação, regularizar a permanência, validar diplomas ou simplesmente compreender os procedimentos administrativos pode transformar-se em uma verdadeira maratona.
Em muitas cidades brasileiras, os serviços públicos não dispõem sequer de funcionários preparados para atender pessoas que não falam português.

A situação torna-se ainda mais complexa porque o acolhimento depende fortemente dos municípios. E os municípios brasileiros, sobretudo os de médio porte, raramente possuem políticas estruturadas para a integração de migrantes.
Falta apoio para a aprendizagem da língua, para a inserção laboral, para o acesso à habitação e até para a obtenção de informações básicas sobre direitos e deveres.

A diferença entre refugiados e migrantes econômicos ajuda a explicar parte do problema.
Quem foge de guerras ou perseguições políticas — como sírios, ucranianos, palestinos ou alguns grupos de libaneses — costuma ter acesso a programas específicos de acolhimento, apoio institucional e articulação com organismos internacionais. Não significa que a vida seja fácil, mas existe uma rede mínima de proteção.

Já o trabalhador venezuelano que atravessa a fronteira em Roraima, o haitiano que chega a São Paulo ou o senegalês que desembarca no Sul do país frequentemente de deparam com um vazio institucional.

Não estão enquadrados nos mesmos mecanismos de proteção e acabam dependendo de organizações religiosas, associações comunitárias ou iniciativas da sociedade civil.

Em São Paulo, por exemplo, é comum encontrar bolivianos empregados na indústria têxtil em condições precárias. Regularmente, o Ministério do Trabalho recebe denúncias de trabalho análogo à escravidão e precisa intervir para garantir o mínimo de dignidade para as famílias imigrantes.

Em diversas cidades do Sul, senegaleses trabalham no comércio informal enquanto tentam regularizar documentos e estabelecer uma vida estável. Haitianos ocuparam vagas importantes na construção civil e na indústria frigorífica, mas muitos enfrentaram dificuldades de integração social e profissional.

Os venezuelanos representam talvez o exemplo mais visível desse fenômeno. Desde 2018, a chamada Operação Acolhida tornou-se referência internacional por organizar o atendimento inicial na fronteira e promover a interiorização de milhares de migrantes para outras regiões do país.

Ainda assim, uma vez concluída essa etapa, o sucesso da integração depende quase sempre da capacidade das cidades de destino. E é justamente aí que surgem os maiores desafios.

O Brasil envelhece. A taxa de natalidade diminui. Diversos setores econômicos enfrentam escassez de mão de obra. Em teoria, a imigração poderia ser encarada como uma oportunidade.

Muitos dos recém-chegados trazem ampla formação acadêmica, experiência profissional, vontade de trabalhar e disposição para reconstruir a vida. Contudo, continuamos a tratar a questão como uma emergência temporária e não como uma política pública permanente.

Talvez a maior contradição brasileira esteja aí. Grande parte da sociedade gosta de recordar os navios que trouxeram nossos antepassados; existem museus e associações que perpetuam a memória desses imigrantes do século XIX.

Contudo, a população brasileira ainda não aprendeu a receber aqueles que chegam agora. Entre a imagem de país acolhedor e a realidade vivida pelos migrantes existe uma distância que não pode mais ser ignorada.

Ainda que o futuro sinalize que as cidades serão multiculturais, multirraciais e multiétnicas, e que isso certamente trará riquezas para o Brasil, muitos setores da sociedade ainda percebem esse fluxo como uma crise, não como uma oportunidade a ser gerida.
A imigração não é apenas uma questão humanitária. É também uma questão de desenvolvimento, cidadania e futuro.
E, por enquanto, o Brasil ainda não encontrou uma resposta à altura desse desafio.

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