Da minha aldeia
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…
Alberto Caeiro
Nem nos chamamos Balbino1, nem nascemos numa aldeia, mas, por sorte, sempre tivemos uma, a aldeia da nossa mãe, o Gestal, no concelho de Monfero, como acontece com tanta gente urbana deste país. Um lugarejo nas ribeiras do Lambre, a menos de quatrocentos metros de altitude que, como tantas outras povoações do interior da Galiza, se está a transformar numa espécie de condomínio geriátrico-residencial, onde já não há vacas e apenas umas poucas ovelhas corta-relvas. É lá que passeamos felizes nos fins de semana.
O caso é que nesta primavera não ouvimos o cuco no Gestal. Na primaveras anteriores tampouco… O cuco-canoro (Cuculus canorus) era uma ave muito frequente na nossa infância, mas nos últimos anos tem-se tornado cada vez mais rara. Trata-se de um fenómeno estranho, sobretudo se tivermos em conta que esta espécie florestal parasita os ninhos doutros pássaros, como a carriça (Troglodites troglodites), a ferreirinha-comum (Prunella modularis), a lavandeira-branca (Motacilla motacilla) ou o pisco-de-peito-ruivo (Erithacus rubecula), que continuam a ser extremamente abundantes.
Em abril, visitámos o Couto Misto, um antigo couto de homiziados ligado à Casa de Bragança. Este couto manteve-se semi-independente até 1868, devido a um pleito no século XVI entre esta família nobre portuguesa e a galega Casa de Monterrei. Um território onde se podia escolher a nacionalidade, não se fazia o serviço militar e quase não se pagavam impostos. O sonho de qualquer libertário. Fizemos o Caminho Privilegiado, a rota que antigamente permitia a circulação livre de pessoas e mercadorias entre as três aldeias dos mistos e Tourém, em Portugal, sem qualquer interferência das autoridades espanholas ou portuguesas. E eis que… quem acompanhou toda a nossa caminhada entre musgos, flores e árvores centenárias? O canto do cuco! Havia cucos por toda a parte, para o nosso regozijo… e perplexidade. Como explicar isto?
Dias mais tarde, encontrámos Damián Romay, um dos maiores naturalistas galegos, que nos desvendou o mistério. A subida global das temperaturas, que tem afetado especialmente a Europa Ocidental nas últimas décadas, provocou um desajuste fenológico entre o cuco e as espécies que parasita. Nas terras baixas ou de média montanha, como o Gestal, as aves adiantam a nidificação, acompanhando uma primavera que chega mais cedo. Assim, quando o cuco regressa dos seus refúgios hibernais africanos, já não encontra ninhos com ovos. No entanto, em terras altas, como no Couto Misto, um vale situado entre os 900 e os 1100 metros de altitude, nas ribeiras do rio Salas, os ciclos biológicos do cuco e das suas vítimas continuam a coincidir. Isto explica que o cuco prevaleça.
Como reza o ditado popular: “Entre março e abril o cuco há de vir, ou o fim do mundo está para vir”. Embora não sejamos tão pessimistas, é certo que o aquecimento global, independentemente das suas causas últimas, vai aumentar o estresse dos ecossistemas, que já estão a perder biodiversidade devido a um conjunto de perturbações ambientais e atividades humanas. Será que alguns ecossistemas poderão entrar em colapso funcional num futuro próximo, devido a possíveis efeitos sinérgicos em cadeia? Chi lo sa!?
- Nota da redação: o autor faz referência ao início icónico da novela “Memórias dum neno labrego” de Neira Vilas: Eu Sou Balbino. Um rapaz de aldeia. Como quem diz, um ninguém. A 1ª versão em português moderno foi editada em 1977 pela editorial Forja com o título Memórias dum pequeno camponês. ↩︎

