Instrumentos diferentes, uma mesma função de futuro: o coletivo.
A percussão é um convite à ancestralidade humana. Desde os primórdios, o corpo e o ritmo fecundam a expressão. No ventre materno, no bater contínuo do fluxo sanguíneo. No início da civilização, com paus, pedras, ossos e dentes.
Aqui, no nosso canto oeste da Europa — onde a fronteira entre Portugal (Norte) e Galiza serve apenas a ilusão dos tratados e dos mapas ficcionados — há um património que trazemos nas mãos.
Objeto singelo, de fácil confeção e acessível, o adufe, o pandeiro, a pandeireta — apesar de diferirem na forma e na técnica — representam expressões culturais que se tornam comunidade na sua fruição. Variam no formato, na madeira, nas soalhas ou ferrenhas, na técnica de toque, no repertório. Mas a sua função social e artística ultrapassa qualquer diferença.
Aqui, do lado onde vivo, o adufe está em franca ascensão. É raro não haver um nas mãos em qualquer foliada, encontro, manifestação ou festival. Do Algarve a Trás-os-Montes, já perdi a conta aos grupos existentes, nos mais variados modos e expressões. Sobretudo nos centros urbanos e no litoral, o adufe assume um papel aglutinador de uma geração jovem que sonha um futuro partilhado. A tradição e o cancioneiro tornam-se terreno fértil para criar laços e consciência.
A cantiga é uma arma e o adufe é escudo — como na canção de Zé Mário Branco. É um fenómeno que observo com um êxtase quase infantil. Permito-me acreditar que pele e madeira ainda colam pessoas e vontades, em tempos tão individuais. E assim, sem percebermos — ou talvez sabendo — mantemos o rito. Sem tempo contado ou definido. Mas sentindo, debaixo da pele, que muitos e muitas antes de nós tiveram a mesma necessidade, a mesma expressão, a mesma vontade. Seja na Galiza do Norte ou na Galiza do Sul, como dizia Zeca Afonso, vemos na rua, nas foliadas, nas aulas e na academia as percussões de mãos como mediadoras de encontro, de partilha e de canto comum.
As nossas avós guardaram o repertório mesmo quando os ditadores o quiseram apagar. Esconderam-no na voz, na reunião, na persistência. Micro-liberdades em tempos de fascismo. E hoje, tentamos reproduzi-las, com a base da tradição oral; viva e adaptada ao nosso tempo. Das pandereteiras de Mens às Adufeiras do Paúl, do pandeiro de Penha Parda a Monsanto ou Miranda do Douro — exemplos entre tantos — há uma força telúrica que nos atravessa.
Não escrevo sobre estes instrumentos numa perspetiva etnomusicológica. Escrevo a partir de uma esperança concreta: ver tantas pessoas, como eu, a tocar adufe e a cantar equidade; a tocar pandeireta e a defender direitos; a tocar pandeiro e a sustentar quem está ao lado.
Adufes, pandeiretas e pandeiros ultrapassam o tempo e a geografia. Não são apenas herança — são ação. Estão nas nossas mãos. Agora, sãos as nossas mãos que os farão significar.

