pintura rupestre a Preto e Branco com mãos humanas de muitos tamanhos e cores

Nós-outros

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Uma das ideias eixo —profundamente enraizadas e incontestadas— sobre as quais se sustenta e gira o neoliberalismo, entendido não apenas como modo de produção dominante, mas também como paradigma cultural hegemónico —e que, nessa medida, impregna o conjunto de representações, normas e valores a partir dos quais se pensa, se age e se decide— é a de indivíduo. Isto é, a crença de que cada ser humano é uma entidade separada e distinta das outras, e que, além de ser íntegra, unitária e coerente, dispõe de si mesma, sendo, por isso, autónoma, racional e consciente.

O indivíduo —literalmente, “não dividido”— é concebido como anterior à comunidade, que ficaria reduzida a um produto resultante de um pacto voluntário entre sujeitos livres que procuram facilitar a sua própria sobrevivência ou maximizar os seus interesses. A sociedade aparece, assim, como soma ou agregação de elementos discretos, que se tomam a si mesmos como unidade última de referência a partir da qual dar conta do comum.

De uma concepção semelhante da identidade e da vida social decorre, quase por continuidade lógica, uma moral egocentrada, na qual a satisfação dos interesses próprios se erige em critério prioritário e na qual as relações se inscrevem numa dinâmica de competição. Os outros tornam-se rivais que disputam objetivos semelhantes e perante os quais é preciso impor-se. Sob este prisma, a desigualdade não só se naturaliza, como também se legitima: quem ocupa posições predominantes tê-lo-ia merecido, do mesmo modo que quem fica para trás seria responsável pela sua situação.

O homo economicus, o empresário de si mesmo ou, na gíria contemporânea, o crypto ou o gymbro, não são senão modulações atuais desta forma de subjetividade própria de uma modernidade acelerada e hiperprodutivista. Todas elas partilham, contudo, um mesmo esquecimento: o da fratura constitutiva que nos atravessa. Porque, ao contrário do que pressupõe a noção dominante de sujeito, o ser humano não é originariamente autossuficiente, mas radicalmente vulnerável e dependente.

Nascemos em condições de desamparo e só chegamos a ser quem somos em relação com outros que cuidam de nós, nos sustentam, nos ensinam e nos introduzem num mundo já tecido de significados. Aprendemos a perceber, a interpretar, a agir, a decidir e a avaliar em e a partir dessa rede de vínculos. E, de modo decisivo, aprendemos a falar, a pensar e a pensar-nos através dos outros. A alteridade não é um acidente posterior, mas a própria condição de possibilidade da subjetividade.

Neste sentido, não é o indivíduo que precede a sociedade, mas, pelo contrário, é o comum que torna possível qualquer forma de individuação. Por isso, a identidade não pode ser pensada adequadamente na primeira pessoa do singular, mas numa primeira do plural que não é soma de eus, mas trama constitutiva de relações.

Assumir isto implica inverter a moral que glorifica o indivíduo autossuficiente e competitivo. Não se trata de negar a singularidade, mas de desativar a ficção da sua autossuficiência. Face à ética da competição, importa pensar uma ética da interdependência: uma em que cuidar e ser cuidado não seja sinal de fraqueza, mas a expressão mais básica do que somos. Porque não há “eu” sem “nós”, e esquecer isto não é apenas um erro teórico: é uma forma de violência.

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