A Primavera dos coros – Crónica dum movimento

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No dia 25 de Abril de 2025 nasceu em Portugal o Movimento Primavera de Coros, através de um passa-palavra num grupo de WhatsApp, criado por Matilde Simões artista, ativista e coralista do Coro das Mulheres da Fábrica. Uniram-se mais de 40 Coros de música tradicional portuguesa, de Norte a Sul.

O motivo deste encontro foi uma dor comum: a tentativa de descredibilizar os valores de Abril, alterar a Constituição Portuguesa e destruir a Democracia e a suas instituições. Centenas de pessoas de diferentes coros cantaram em frente à Assembleia da República enquanto os deputados saiam após a sessão solene, mostrando que a Revolução dos Cravos estava viva e cheia de gente.

Depois partiram para a manifestação em Lisboa e ocuparam um palco vazio transformado num concerto improvisado no Rossio que se estendeu para milhares de pessoas enchendo a praça, sem microfones nem amplificadores, onde toda a gente cantava junto.

Imagens do 25 de abril de 2025

Este movimento nacional continuou e foi aumentando. Neste momento integra mais de 60 coros comunitários de música popular que nascem em Portugal a cada dia, nos últimos três anos, como flores na primavera. Daí o título que lhe faz jus, ao movimento que encerra.

Isto que vos venho falar não é uma “percepção” ou uma “estatística” que me parecem subvalorizados nos tempos tecnológicos que correm. Falo de factos. Estudos recentes realizados no Instituto de Etnomusicologia da Universidade de Aveiro identificam um progressivo crescimento do canto comunitário através da criação de coros com ligação e identidade local com forte dimensão política e social, do Minho ao Algarve, em cidades, vilas e aldeias.

Isto acontece também na Galiza, onde começam a nascer coros progressivamente! São coletivos que nascem fora das instituições formais, participativos e horizontais, cuja premissa consiste em cantar, bem ou mal, com ou sem experiência ou talento musical. Qualquer pessoa pode integrar um coro comunitário, o que importa é cantar junto.

E porque será que este movimento está a crescer agora? Os investigadores do INET-MD apontam para cinco fatores principais:

O primeiro, a fase Pós-pandemia trouxe uma necessidade de pertença e de contacto humano e um aumento da procura por experiências coletivas no combate ao isolamento social. Perguntem-se: não tiveram vontade de algo novo, de pertencer a algo, de estar junto? Eu pensei em integrar uma equipa de Hockey (esta história ficará para outro artigo!) mas acabei por fundar um coro comunitário, o Coro as Mulheres da Fábrica — e hoje são mais de 100 mulheres, cantam em festas da aldeia como em grandes festivais e fazem concertos com nomes reconhecidos como Uxia, Ceumar, Crua, Projecto Calíope—.

Depois, o mundo moderno trouxe um saudosismo interno dos tempos antigos, da ruralidade mesmo nos espaços urbanos. Perderam-se aldeias, trabalhos, funções sociais, tradições, abandonaram-se campos e praças… Onde podemos recuperar esse lugar antigo que já não volta? Uma das formas consiste precisamente nas recuperação de canções tradicionais, na transmissão oral, cultura da identidade territorial.

Quando se canta há uma sensação de viagem no tempo, de regresso a uma fogueira enquanto se desfolha o milho, há um regresso aos bailes, às regueifas e desgarradas, ao pão fresco da avó, às rugas das mãos grandes do avô. Voltamos à raiz através das nossas próprias raízes. Há uma identidade coletiva quando cantamos: lembra-mo-nos de quem somos, desligamos o cabo da internet e das redes sociais.

imagens do 25 de abril de 2025

Cantar tem todo este poder.

Por outro lado, há um progressivo aumento do número de coros femininos tradicionais, com liderança feminina, com propósitos de cidadania e de igualdade, que criam novas canções e alteram letras tradicionais com semântica patriarcal e anti-democrática, trazendo uma nova linguagem inclusiva. Galiza e Portugal semeiam este caminho: Coro das Mulheres da Fabrica, Cantadeiras do NEFUP, Braga Fora, Cantadeiras do Redondo (Canto Alentejano Feminino) Cantadeiras do Proxeto Consoante, Erikas e Peluxias são alguns dos exemplos desta vontade coletiva.

Ainda, o contexto geo-político internacional em que nos encontramos atualmente, a crescente perda de direitos humanos em todos o mundo, as progressivas guerras e o ataque constante às minorias bem como o crescimento dos movimentos políticos extremistas que ameaçam a democracia, impele a população a agir, à necessidade de intervir. Os coros comunitários são espaços de cidadania e um instrumento de politização dos membros e do público que assiste. O canto permite um lugar de palavra, uma voz para cantar, mas também para dizer.

Por último, aceitar que toda a gente pode cantar significa quebrar com as convenções da perfeição melodiosa do canto e criar um novo paradigma no acto de cantar. Esta mudança aumentou o número de participações em coros, alargando a toda a população. Além disso a música popular tradicional é um tipo de música que não tem propriedade: é cantada e transmitida de geração em geração através da tradição oral, por pessoas que trabalhavam no campo, muitas vezes sem escolaridade ou formação musical. É uma música de toda a gente, acabam-se os egos e os virtuosismos exclusivos.

Por isso, depois do primeiro encontro o movimento tem crescido e continuado, com outras ações que partem nas ruas. Considero estes encontros como “Manifestações Cantadas”, como um oásis de uma Grândola de 1974 interminável e que regressa aos tempos contemporâneos. Os coletivos e o movimento permitem criar esses espaços de debate, de união e de cidadania.


O segundo encontro aconteceu em Outubro de 2025, aquando dos incêndios desastrosos que acontecerem na Galiza e Portugal. De acordo com o Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia, em apenas 3 semanas de agosto provocaram 460.585 hectares ardidos em Portugal e Espanha, dois dos países mais afectados dos 1.079.538 hectares que arderam na União Europeia em 20251. O encontro foi em Serpins um dos locais fortemente afectados pela negligência ambiental.

Encontro de Serpins, outubro de 2025

Daí nasceu a primeira canção do Movimento criada e construída em conjunto, tendo como base a canção de recolha tradicional do A Musica portuguesa a gostar dela própria “ Esta terra esta queimada” mesclada com a canção original de Bia Maria “ Este povo protege”. O título da canção chama-se “Esta é a nossa morada”, onde cada coro no fim canta sobre um problema da sua terra, manifestando a sua luta individual dentro de uma canção coletiva.

O terceiro encontro surge com os Cidadãos pela Beira Baixa — Associação ambiental da Guarda – para defender as comunidades do interior português que neste momento resistem a projetos ligados à transição energética, nomeadamente o Projeto Beira e Sophia2, empresas energéticas internacionais que pretendem ocupar mais de 2.000 hectares3 com centenas de milhares a milhões de painéis solares com comprovadas consequências na poluição da água, destruição de solos agrícolas, impacto na economia local4.

A Cidadãos pela Beira Baixa pediu ajuda ao movimento Primavera de Coros e os coros decidiram sair da sua localidade – Minho, Algarve, Centro, Ribatejo – para se juntar à causa. Foi criado um grande Protesto em Lisboa, habitantes locais e antigos residentes participaram com mais de uma centena de manifestantes, com coros de música tradicional, bombos e adufes durante o protesto5.

Não poderão ser os coros uma força popular, uma vaga de abril, na necessidade de sair à rua por um bem comum?

No próximo 25 de abril de 2026 será o próximo encontro desta vez dois locais de concentração: Lisboa e Porto, onde os coros de todas as regiões do país saem a rua não apenas para cantar mas para protestar contra o ataque à Constituição, aos Direitos Humanos6 , valores que a revolução trouxe em 1974 e 4 de Abril de 1976 e e na democracia dos últimos 50 anos, que que atualmente estão a ser postos em causa em plena Assembleia, um retrocesso imenso da sociedade portuguesa, que se verifica mundialmente.

E se cantássemos cada vez que fosse necessário sair à rua por uma causa comum, o que aconteceria?

No livro “A Revolução Antes da Revolução”7 uma das teses principais é que antes de haver revolução política, houve revolução cultural. Zeca, Adriano, Ary dos Santos e tantos outros conseguiram subverter o uso da canção popular como uma propaganda do regime da Salazar8, criticar o regime, para representar a voz do povo, motivar a força popular e, assim, fizeram nascer a musica de intervenção, que foi impactante para a Revolução dos Cravos.

O canto cria identidade comunitária, a cultura precede mudança política, movimentos musicais criam redes sociais, exatamente o que está a acontecer hoje com os coros comunitários, o canto tradicional, o canto participativo.

E se em cada cidade ou vila existisse um coro comunitário?

E se um dia todos os Coros da Galiza e de Portugal, se juntassem num mesmo lugar com mesmo objetivo, para sair à rua?


A Revolução dos Cravos começou verdadeiramente com o Movimento das Forças Armadas, com Salgueiro Maia na frente. Imagino, sonho e acredito, que em vez de um soldado, a revolução (se necessária) pode começar com uma coralista que usa a cantiga como uma arma, já dizia José Mário Branco. Afinal, a Grândola também se fez com desafinados e desafinadas.

Cada Coro é uma aldeia e dentro dela vivem redes de pessoas, famílias, lutas, sonhos e desafios. Nessa Aldeia, as canções são ponto de partida e de chegada. No caminho está toda o processo de desenvolvimento de um coletivo, do pensamento, da liberdade de escolha, da pessoa enquanto ser humano e cidadão, da união por um valor maior, por todos e todas, sem exceção.

Quanto todas as aldeias se juntam para cantar, são um país inteiro. São forças armadas de canto e de palavra. Gosto de chamar, por isso, a esta vaga de coros, o Movimento das Forças Cantadas.

Manifestação em defesa da Beira Baixa

Será que precisamos de voltar a cantar para ser ouvidos?

Num mundo invadido e dominado pela tecnologia, terão estes coletivos um lugar pensamento, de volta a realidade táctil, longe do chat GPT e dos post virais, das redes sociais digitais?

Será uma forma de subverter o mundo em que vivemos como fizeram Zeca e Adriano, onde todos nós somos produtos de publicidade, escravos da tecnologia e dos mercados internacionais?

Fazer parte de um coletivo artístico , com assembleias democráticas e eventos de cidadania, serão formas de explorar o pensamento critico e politizar a esfera pública, utilizando a musica?

A multiplicação desses lugares de canto onde voltamos à raiz e ao contacto humano será um meio de se reencontrarem na sua própria cidade ou vila, rompida por um turismo universal, de montras globalizadas e serviços iguais, de uma habituação caríssima e impossível de viver?

Será um coro capaz de recuperar quem somos, individualmente e onde vivemos?

Será um espaço de reconexão com a humanidade que existe dentro se cada um de nós?

E se tu, hoje, mesmo sem saberes cantar ou dirigir, fundasses um coro comunitários na tua terra?

Para cantar juntos não é preciso internet, nem um telemóvel, nem um papel, nem mesmo uma sala.

Basta um corpo, a rua e o canto.

O ato de cantar junto é em si mesmo um ato revolucionário.


Vânia Couto pertence ao Coro das Mulheres da Fábrica

  1. Segundo a Reuters foi a pior época de incêndios desde que há registos (2006) e Portugal e Espanha representavam cerca de dois terços da área ardida. ↩︎
  2. Jornal The Guardian, 2026 ↩︎
  3. Reportagem RTP 1 ↩︎
  4. Plataforma de Defesa do Tejo Internacional e Avaliação da Agência Portuguesa do Ambiente ↩︎
  5. RTP 1, 2026 ↩︎
  6. Aborto, terapia de conversão, emigração, leis de género, a Reforma Laboral, Lei da Nacionalidade ↩︎
  7. A Revolução Antes da Revolução, Luís de Freitas Branco, 2024 – ISBN: 9789893514689 ↩︎
  8. Assim com Hitler, Franco e outros ditadores ↩︎
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