Um dia estive num dos 12700 km e tal (a exatidão é uma enteléquia) que o diâmetro da terra tem, a passear por cima de uma linha chamada de Equador, no conhecido por marco do Equador do Ilhéu das Rolas. Foi bonito, estranho, empolgante, impactante e tudo numa terra onde as rolas, são chamadas de rolas mesmo.
Pensar em que uma insignificante pessoa está no meio e meio da linha imaginária que uma outra pessoa insignificante, mas pensante, calculou como sendo a divisão da terra na horizontal tem a sua piada, e a sua relevância, ou talvez transcendência.
Estar na latitude 0º, nem no norte nem no sul, ou no norte e no sul ao tempo, tem a sua piada, o seu valor simbólico; mas também denota que, no fundo, somos bem simples, e que é com as mais pequenas coisas que ficamos bem impressionadas.
A linha imaginária divide o norte do sul, o hemisfério de cima do hemisfério de baixo, divide a quem, pelo geral, pode molhar a garganta quando tem sede face a quem nem sempre pode. É uma divisão imaginária, mas que se torna real e útil desde que passa a ser referência e guia nas grandes navegações ultramarinas de que temos constância a partir do século XV.
Assim são as invenções e demais parâmetros que usamos para definir e descrever os nossos mundos, para estabelecermos coordenadas que nos guiam ao navegar ao longo do tempo (mais um conceito criado para organizar as nossas vidas).
Assim são as linhas que por vezes nos dividem como povos, como corpos sexuados, como pessoas ricas ou pobres… imaginárias.
E, linhas imaginárias, como o Equador, há muitas.
A questão coloca-se quando essas linhas em vez de serem referenciais e guias se tornam muros, divisórias a sério, linhas que estabelecem fronteiras, segregações socioeconómicas, etnocentrismos ou tetos de vidro vários que, aliás, se erigem como barreiras completamente inquebrantáveis e inultrapassáveis.
Mas, como a água mole em pedra dura tanto bate até que fura, aqui começamos uma nova dialética que, como diz a música, entre pedras e pedrinhas pretende encontrar as pequenas pingas de entendimento que nos façam cantar como rolas, mesmo que, como as rolas ninguém cante.

