Representação da agricultura em papiro do antigo Egito

Entre o Black Friday e o Comércio Justo

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Entre os apelos ao consumo que promete a abundância a preços baixos e à consciência que exige preços que reflitam a dignidade do trabalho e da sustentabilidade, ficamos encurralados no dilema ético do valor que atribuímos aos bens materiais, às pessoas e ao planeta.

O Black Friday e o Comércio Justo simbolizam estes dois modelos sociais. A escolha reflete uma dialética central da nossa sociedade: lucro a qualquer custo versus prosperidade partilhada e sustentável.

Nos comportamentos com inclinação ao materialismo e à impulsividade do Black Friday, o indivíduo é arrastado por um querer descontrolado em detrimento do pensar e do sentir profundos. A velocidade e a pressão do desconto não permitem o pensamento claro e consciente, nem o discernimento sobre a necessidade do produto, a sua origem ética ou a sua durabilidade.

O sentir genuíno que deveria ligar a pessoa ao valor intrínseco e ético da compra, é substituído por uma satisfação emocional instantânea e breve. O desejo é despertado e intensificado pelo marketing, impedindo o sentimento nobre da empatia e a reflexão ética.

A individualidade que permite a liberdade de escolha e a consciência moral, é oprimida ou anulada. O consumo de massa e a obediência cega às tendências diluem a individualidade. A pessoa compra o que é imposto e não o que é fruto da sua vontade livre e consciente. Se a verdadeira liberdade advém da capacidade de agir com motivações éticas, comprar no Black Friday, é um ato que a a limita e liga a pessoa a ações que comprometem a justiça e promovem a exploração.

O comportamento massivo no Black Friday é, em suma, um sintoma de um desequilíbrio anímico e desconexão com a essência humana, onde a pessoa é dominada pelos impulsos em vez de ser guiada pela consciência livre e pela sua individualidade.

Por sua parte, o Comércio Justo é manifestação de um comportamento consciente e evoluído, alinhado com o desenvolvimento ético e a justiça social. A escolha do Comércio Justo exige pensamento consciente e discernimento. O comprador não age por impulso, procura ativamente informações e avalia o impacto da sua compra. Há um esforço intelectual para compreender a cadeia de valor que inclui a matéria prima, o tempo, a arte, o esforço e o custo ambiental.

Também apela ao sentimento da empatia. O comprador estabelece uma relação com o objeto e com a pessoa que o produze. O preço mais alto e justo é pago a partir de um sentimento moral e social altruísta e manifesta uma vontade disciplinada e direcionada por valores éticos: o impulso de poupar (querer material) é superado pela vontade de fazer o bem (vontade moral). O indivíduo age por convicção e exerce a sua liberdade visando a justiça universal em vez do benefício próprio.

Ao estabelecer relações justas com um reflexo em muitas vidas presentes e futuras, o Comércio Justo é também um ato de cura social, de diminuição da exploração e da desigualdade individual e coletiva.

O Comércio Justo é, em suma, uma ação consciente motivada pelo sentimento de empatia social, dirigida por um pensamento ético e realizada por uma vontade moral.

O Comércio Justo é um passo em direção a uma economia fraterna.