mosaico grego de mulheres a praticar desportos

A tirania do pódio

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O desporto mediatizado põe ênfase na alta competição, recordes, força física e espectacularização, gira em torno da monetização e do poder e tende a reduzir a pessoa ao corpo físico. O ‘mens sana in corpore sano’ e o ‘importante não é vencer, mas participar, são hoje em dia slogans publicitários, apelos marginais e clichés que preenchem banalmente momentos mediáticos.

A predominância televisiva desta visão do desporto é um dos sintomas da cultura materialista que prioriza o lucro e o espetáculo da força física, em detrimento do desenvolvimento integral e equilibrado e da valorização das individualidades.

O desporto deixou de ser uma via para a evolução harmoniosa a partir do desenvolvimento do ritmo e do equilíbrio, com base na coragem e no trabalho em equipa e alicerçado na ética e na superação, em suma, na disciplina e na atividade física como caminho para o autoconhecimento e a realização da individualidade.

No clímax, a abafante presença mediática do futebol masculino que tende a priorizar o espetáculo da força e do dinheiro, negligenciando o potencial educativo e formativo da atividade desportiva. A submissão à lógica do capital, transformou o desporto num produto de consumo e, a predominância mediática do futebol masculino, é o que melhor satisfaz globalmente a indução de essa necessidade.

Na esfera pública predomina o princípio desportivo associado à ação, a determinação, a força física e a exteriorização. Entretanto, o princípio feminino é associado à nutrição, o cuidado, a colaboração e a interiorização e tem o mínimo espaço mediático politicamente correto.

Não só a minimização da presença do desporto feminino nos média, mas também a invisibilização das modalidades minoritárias e minorizadas e a condescendência no tratamento do desporto ‘adaptado’, podem ser vistas como manifestações de discriminação, injustiça e de falta de visão integral, quando são áreas de profundo valor humano e social.

A ínfima quota de ecrã do desporto praticado por pessoas com limitações físicas e a condescendência com estes atletas, fica cunhada na maneira de o nomear: paradesporto, paralímpico… A utilização do prefixo para-, equipara-o com ‘próximo de’ (paramédico), com ‘não oficialmente parte’ (paramilitar) e com ‘fora do comum’ (paranormal). É sempre a ideia excludente de estar ao lado de, em relação a ou para lá de algo central, portanto, situa-o na esfera do não normal.

O desporto praticado por pessoas com limitações físicas ou necessidades/habilidades diferentes é um exemplo poderoso de como o ser humano pode superar as limitações do corpo físico através da vontade e manifestar a sua individualidade. A sua ocultação priva a sociedade de exemplos de superação e força moral que são essenciais para o enriquecimento espiritual e social.

Face o resultado, a vitória, o recorde e a espetacularização, desenvolvimento integral e harmonioso do ser humano. Face a especialização precoce e a exigência máxima do corpo físico, desenvolvimento neurossensorial, rítmico e motor em equilíbrio. Face o ênfase na competição, na competitividade e na mercantilização, autoconhecimento, ética e superação moral. Face as rotinas rígidas e foco na competição, atividades rítmicas, jogos cooperativos e treinamento lento. Face a força bruta e tornar-se um campeão, movimento pleno de sentido, independentemente da destreza física.

O desporto está a perder a alma.