Um dos leitmotiv mais persistentes da tradição cultural ocidental sustenta que, se não há Deus, tudo é permitido. A fórmula — atribuída a Dostoiévski e repetida até à exaustão — condensa a convicção segundo a qual apenas a existência de uma instância suprema, de um fundamento último, poderia garantir a ordem da realidade, do conhecimento e da moral. Sem esse ponto de apoio absoluto, diz-se, a humanidade ficaria exposta ao caos, ao niilismo e ao relativismo ético e epistemológico.
No entanto, a história oferece motivos mais do que suficientes para desconfiar dessa premissa. Pois sob a ideia de uma ordem garantida por uma verdade última desenvolveu-se, repetidas vezes, um vasto elenco de representantes da Realidade, da Verdade, do Bem ou da Justiça. Corolários diretos da teologia política, essas figuras — visionários, eleitos, iluminados, sábios ou, na sua versão contemporânea, especialistas — arrogaram-se o poder de falar em nome do indiscutível. E quando alguém se apresenta como porta-voz do absoluto, o desacordo deixa de ser legítimo e a violência começa a justificar-se.
Sánchez Ferlosio inverteu com lucidez a célebre consigna, afirmando que é precisamente quando há Deus que tudo é permitido. O que assinalava não era tanto uma provocação retórica quanto um aviso político e moral de primeira ordem. Ninguém é tão ferozmente perigoso como aquele que se sente carregado de razão, investido pela verdade absoluta ou por uma missão salvífica. A certeza total não pacifica; autoriza. E essa autoridade costuma exercer-se de forma violenta contra quem não corresponde ao modelo de ser, pensar ou comportar-se canonizado.
Daí a necessidade — urgente, quase profilática — de prescrever uma modesta cura de ceticismo. Não como cinismo nem como indiferença, mas como vacina contra o dogmatismo. Um ceticismo temperado, acompanhado de uma ironia discreta, capaz de introduzir distância em relação às próprias convicções. Assumir que a realidade é plural, que o mundo não se deixa encerrar num sistema único, que existe um resto de desordem irredutível com o qual só é possível lidar através do diálogo tenso, da interpretação aberta e da convivência com o dissenso.
Neste sentido, a assunção de que não se pode ser Deus não constitui uma renúncia passiva, mas um gesto de valor ético. Significa aceitar a própria finitude, a historicidade das nossas verdades e a fragilidade dos nossos valores. E talvez seja precisamente este pathos discreto, esta moderação consciente, o melhor ponto de partida para travar o regresso dos fanatismos autoritários que, uma vez mais, ameaçam apresentar-se como garantia de solução para os diversos problemas que hoje se padecem.

