Carta aberta à Voz

   Tempo de leitura: 12 minutos

Esta é uma carta aberta à Voz1. Precisa de ser ouvida; urge ser usada, escutada e utilizada, sem preconceitos, com todo o seu esplendor.

Espera-se, na arte, que a voz seja perfeita; espera-se sempre o virtuosismo e a eloquência. Espera-se da voz o mesmo que se espera da mulher na sociedade: espera-se tudo dela, exige-se a perfeição. A possibilidade de fracasso e de erro é tão ténue: a sociedade, tal como o público, atenta ao ínfimo pormenor onde algo pode falhar; observa-se qualquer indício de fracasso, o exagero, a fraqueza. Apenas aceitam a perfeição e rejeitam a mulher como rejeitam quem não afina. Mas deixo a pergunta: e se houver falha? E se a convenção que fazemos da voz perfeita fosse rejeitada? E se todas as pessoas pudessem cantar, bem ou mal?

A voz de Carolina Maria de Jesus, em “Quarto de Despejo”, é tão imensa e impactante como a de Virgínia Woolf, em “Um Quarto Só Seu”. Dois quartos, duas mulheres, duas vozes. E tão distantes na forma de escrita. Carolina Maria de Jesus escrevia com erros ortográficos, de forma irregular e sem gramática normativa. Mas não será o impacto da sua história, do seu pensamento, da sua arte e da sua escrita tão grandioso e pertinente como o de Virgínia Woolf? E se pudéssemos todos ser artistas?

E se déssemos espaço a todas as mulheres para usarem a sua voz?

Faço trabalho de intervenção pela arte com a música há mais de vinte anos e, nos últimos dez, dediquei-me à voz em diferentes comunidades e espaços: aulas individuais de voz, workshops, acompanhamento de orquestra, jardins de infância, bairros sociais, comunidades, migrantes e refugiadas, pessoas com deficiência, coros comunitários de mulheres…

Além disso, sou cantora profissional: álbuns lançados, digressões, carreira consolidada. Senti sempre o peso da perfeição. Sei que canto bem, sou profissional na área e, ainda assim, são inúmeras as comparações, as avaliações, a angústia de desafinar uma nota, o peso do sucesso e a impossibilidade de falhar. Esta experiência — enquanto cantora e, mais tarde, como professora e formadora em diferentes comunidades, idades e estratos sociais — mostrou-me o poder do ato de cantar e como este deve ser objeto de estudo. O ato de cantar, livre e vulnerável, permite criar um lugar de transformação social que começa no coletivo e se prolonga no individual — trabalhando o grupo, mas também cada pessoa —, dando espaço para que todos tenham lugar de fala, enquanto coletivo e enquanto indivíduo.

Cantar é um instrumento de transformação individual da mulher e um agente de mudança coletiva da sociedade. O canto começa nos ensaios, passa pelos palcos e termina nas ruas, nas aldeias, nas manifestações sociais, culturais e políticas. O observatório que tenho utilizado são precisamente os coletivos de canto comunitário: os coros de música popular.

Acredito profundamente que cantar em conjunto, bem ou mal, é, em si mesmo, um ato revolucionário.
Decidi, por isso, fundar um coro de mulheres aberto a todas, sem exceção, onde não importa quem canta bem ou mal. Todas podem integrar o coro, independentemente de qualquer experiência artística ou aptidão musical. Escolhi a música popular tradicional precisamente porque não tem propriedade: é cantada e transmitida de geração em geração através da tradição oral, por pessoas que trabalhavam no campo, muitas vezes sem escolaridade ou formação musical.

Estas canções atravessam gerações, numa forma de cantar própria de cada cultura. No caso das mulheres, falam dos seus sonhos, das suas lutas, dos seus receios e vontades, de amores e desamores, de ser mulher num mundo de homens, de ser trabalhadora, de embalar filhos — os seus e os dos patrões — da vida, do mundo e do próprio canto. Em qualquer lugar do mundo, as temáticas são comuns. Ser mulher será sempre ser mulher em qualquer parte. “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, não afirma Simone de Beauvoir?

Podemos compreender as mulheres do ponto de vista social através das cantigas tradicionais. O mais incrível é vê-las cantar, sem qualquer formação musical, de forma imperfeita e bela: inevitavelmente sentimos, choramos, rimos e identificamo-nos com aquelas mulheres. São a nossa raiz, vimos do mesmo lugar, só num tempo diferente. É nessa imperfeição que reside a arte e a beleza do ato de cantar, bem como a sua força interventiva. Somos todas iguais, cantando bem ou muito mal. O que cantamos, porque cantamos e quando cantamos, cantamos como mulheres, por sermos mulheres.

Hoje, o Coro das Mulheres da Fábrica é um precursor deste património. Estas mulheres serão as transmissoras das cantigas às gerações futuras — aquilo a que, ternamente, chamamos “novas velhas”. Este coro começou com 40 mulheres; nenhuma era profissional. Hoje são mais de 100. Cerca de 60% não sabia cantar, nunca cantou ou não tinha experiência musical. É um coro que realiza digressões com cantoras profissionais, participa em documentários e curtas-metragens, grava canções, integra grandes festivais e atua por todo o país.

O movimento de cantar em conjunto, desprovido da exigência de perfeição, foi tão impactante que, nos últimos cinco anos, nasceram mais de 60 coros comunitários em Portugal, abertos a todas as pessoas, cantem bem ou mal, desde que queiram cantar. Este movimento social apresenta respostas comuns em todos os coros e nas pessoas que os integram: o sentimento de pertença, a liberdade de expressão, um espaço inclusivo e representativo, e a possibilidade de afirmação através do coletivo – usando a arte como lugar de palavra e espaço privilegiado para sermos ouvidos na esfera pública.

Ao cantar em conjunto, regressamos inevitavelmente a um lugar ancestral, a uma cultura quase tribal, presente na nossa história sociológica e genética. Isso sente-se quando todas cantam uma mesma canção. As que desafinam sentem o apoio das afinadas e as afinadas ganham coragem com a voz destemida das desafinadas. E, num repente, confundem-se entre si. Estão nuas. Não há profissões, etnias ou idades – são apenas mulheres a cantar a mesma canção. O canto ganha uma forma própria e um timbre particular e belo que encanta o público, que se identifica e se comove. É nesta vulnerabilidade exposta e aceite que público e coro se cruzam. Todos fazem parte da mesma esfera, pois todos são vulneráveis e imperfeitos. Todos podem cantar. E cantam, juntos.

Essa força imensa, já estudada cientificamente (o que não se justifica desenvolver nesta carta), manifesta-se nestes espaços comunitários urbanos. As mulheres sentem-se ligadas pelas mesmas canções e causas.

Entre o cantar e o que se canta está o pensamento e a reflexão sobre como e porquê cantar. O coro partilha, debate e pensa em conjunto temas como o aborto, a violência doméstica, o trabalho, a maternidade, entre muitos outros. E quem aprende a cantar a solo ganha também coragem para falar em público, manifestar-se, perder o medo e perceber que, se é capaz de se expor a cantar, será capaz de muito mais. Nestes coros há também assembleias, debates democráticos e votações. A voz é explorada em todas as suas vertentes. Termino esta parte parafraseando uma das mulheres do coro, que me disse, aos 57 anos:

“Sabes, ao entrar para o coro, conheci tantas mulheres diferentes, com personalidades distintas, vivas… Eu não sabia que podia ser mulher, assim, que ser mulher era tudo isto. Pensava que ser mulher era outra coisa. Cantar aqui deu-me isto.”

A criação de espaços exclusivos para mulheres permite um lugar comum, livre de convenções. Não têm de provar nada a ninguém, a não ser cantar e experimentar a arte. Percebi que, tanto no coletivo como no individual, o essencial é cantar – e o quanto isso é transformador em todas as dimensões.

Nas canções tradicionais há solos. Por exemplo, no Cante Alentejano, a estrutura vocal organiza-se de forma simples, mas muito característica, em três elementos principais: o alto é a voz que inicia o canto. Começa sozinho, geralmente numa tessitura mais aguda, e define o tom, o ritmo e a melodia principal. Funciona como “guia” para os restantes; o ponto entra depois do alto, numa voz mais grave. O ponto “assenta” a melodia, cria base e introduz uma segunda linha que dá profundidade e identidade ao canto. E, por fim, o coro, que é o conjunto de vozes que entra a seguir, repetindo e reforçando a melodia iniciada pelo alto e pelo ponto. O coro dá força, volume e dimensão coletiva ao cante. Resumindo, o alto lança, o ponto sustenta e o coro expande. Quando uma mulher canta a solo – sobretudo as mais vulneráveis -, gera-se uma emoção coletiva de apoio e afirmação que aumenta a auto-estima, o bem-estar e a felicidade individual da solista, mas também o sentimento de pertença e de força do grupo, a maravilhosa sensação de solidariedade e sororidade.

Chegamos então à importância da voz individual. Cantar sozinha é expor-se, aceitar a possibilidade da falha e, ainda assim, procurar a perfeição; é saltar sem paraquedas; é mostrar vulnerabilidade – cantando muito bem ou muito mal.

“o meu marido sempre me disse para não cantar, que era horrível ouvir-me”
“os meus filhos têm vergonha de mim quando quero cantar”
“sempre me disseram que cantava mal”
“eu gosto de cantar, mas canto mal; nunca pensei entrar num coro”
“a professora disse-me que eu desafinava e mandou-me calar”
“quem sou eu para achar que posso cantar agora?”
“gostava de cantar, mas não tenho com quem nem onde”

Estas frases foram ditas por sete mulheres distintas. Poderia dar muitos mais exemplos. Todas entraram no coro. Todas começaram a cantar. Algumas são hoje solistas; outras tornaram-se cantoras, escrevem canções e poesia; outras passaram simplesmente a cantar mais alto, a cantar melhor e de forma confortável, sem medo e com orgulho. Todas, sem exceção, abriram a sua voz. Perceberam que, se conseguem cantar, têm um lugar de voz, um lugar de fala individual.

É extraordinário quando alguém canta pela primeira vez, sem medo. A voz falha, desafina, o corpo hesita – mas, quando alguém lhe diz que está tudo bem, que falhar faz parte, algo muda. Morre a convenção da perfeição. A liberdade regressa ao corpo e ao pensamento. A mulher arrisca, vai além do que era, canta mais alto — talvez mais desafinado — mas sem medo. A mulher acredita. A mulher entende que pode. A mulher expõe-se com toda a sua fragilidade e toda a sua força. Permite-se. Explora-se. Cria. Nada é despropositado: um gesto imperfeito mas decidido, um canto desafinado com emoção, uma voz frágil que diz palavras fortes.

A voz volta a ser usada por todas as mulheres. Pode ser perfeita ou imperfeita e continua a ser arte. Pode ser interna ou externa, individual ou coletiva, cantada, falada ou gritada. É tudo isto e muito mais.

Para compreender a Voz (que, nesta carta, merece maiúscula), é preciso compreender todas estas vozes que convergem quando cantamos juntas. Esta é a proposta que deixo: que se quebrem as regras da Voz perfeita; que se rompam convenções; que a Voz seja livre; que se aceitem as falhas; que todas possam cantar, sem expectativa além do próprio ato de cantar. Que a voz torne as mulheres em mulheres! Toda a gente pode cantar. Que as mulheres cantem juntas, a uma só Voz, de garganta aberta, como um pássaro, dentro ou fora da gaiola.

Se alguém ler esta carta e eu tiver a sorte de ela ter feito sentido de algum modo, que ela ressoe como as mulheres que ensinam as canções antigas e que siga a transmissão: Cantar em conjunto é, em si mesmo, um ato revolucionário. Revolucionemos.


Vânia Couto pertence ao Coro das Mulheres da Fábrica

  1. O presente artigo foi publicado pela autora originalmente em “Estudos feministas : teorias, praxis, poíesis”coletânea, org. Flávia Gomes, Gabriela Vergolino e Vanessa Cavalcanti e reproduzido com autorização ↩︎
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