Gosto muito dos textos de Sergio Aires para o De Norte a Sul. Parecem-me brilhantemente escritos, e destilam uma visão do mundo com que me identifico profundamente. Como galego que sou, continua a chocar-me às vezes o uso que faz da palavra nacionalismo, mas em geral fico a pensar que eu gostava de escrever como ele. Afinal é uma raridade que na Galiza continuemos a usar essa palavra como usamos, enquanto na Europa e no mundo o conceito identifica movimentos de extrema direita. Suponho que no fundo gostamos de rarices, e inclusive de sermos uma.
Fora das fronteiras da Galiza, e talvez até da Espanha, o nacionalismo é provavelmente o ponto máximo da negação do outro. As estruturas estatais criam identidades colectivas fortemente estratificadas, que não permitem ver as diferenças de classe, que normalmente perpetuam. Nota-se especialmente com as comunidades migrantes, que não participam das conquistas sociais do estado da mesma maneira que as nacionais, e ficam a ser vistas, inclusive, como concorrência.
Apesar daquilo que quer aparentar, o nacionalismo não cria, por si próprio, identidades colectivas fortes. Passa-se do indivíduo à nação, sem necessidade de perceber o outro como um espelho. Quando se dão as habituais sinergias com o liberalismo, o indivíduo tende a pensar que a sua sobrevivência depende apenas de si próprio, em concorrência fera contra os iguais e os mais desfavorecidos. Por isso existem os pobres de direita, suponho eu: ignoram as redes de apoio coletivo e sentem a necessidade imperativa de concorrer. Para a sua sobrevivência, e para a sua desgraça.
Acho curiosa a maneira como o estado lida com identidades. O simples conceito de direito nasce da ideia da igualdade substancial dos seres humanos, mas a única maneira de garanti-lo de forma efetiva parece ser uma estrutura que, por natureza, deixa de fora quem não pertence a um território. O estado-nação tem o propósito de garantir direitos aos próprios, mas também a consequência de negá-los aos alheios. Também serve, é claro, para disciplinar quem quebre a paz social e quem questione as normas. A nação com estado consiste numa estrutura ao mesmo tempo de inclusão e de exclusão. De inclusão dos próprios nacionais no colectivo, criando identidade, mas também estruturas assistenciais e do bem-estar. De exclusão dos não nacionais, mas também dos nacionais que possam chegar a ser vistos como inconvenientes, por uma razão ou outra.
Esta natureza dupla cria uma divisão profunda, basicamente diferenciando aqueles que querem que o estado sirva para integrar, por meio dos serviços públicos e do estado social, e aquelas pessoas que querem que o estado sirva para excluir. É o segundo, é claro, aquilo que se costuma reconhecer lá fora como nacionalismo: a utilização da identidade nacional para deixar de fora quem não caiba nela. E no entanto, a nação continua a ser o principal conceito que individualiza um determinado estado, sirva ele para o que quer que sirva. Por isso, acho eu, utilizar o estado para a integração das pessoas, nacionais ou estrangeiras, poderá ser chamado de não-nacionalismo, mas está a fortalecer igualmente as estruturas e identidade nacionais. O nacionalismo é excludente, mas a alternativa é, no mínimo, nacionalizar estrangeiros, e no máximo os meios de produção. Existe uma linha subtil a unir esses pontos, embora não se veja: decidir o que, ou quem, pretence ao coletivo.
A identidade nacional também pode deixar de fora quem supostamente pertence a ela. Na Espanha, a imagem construída da nação deixa amiúde de fora muita gente: não-cristãos, árabes, pobres… e também as identidades culturais que nasceram no território séculos antes da identidade espanhola. E essas comunidades, a basca, a catalã, a galega, procuraram no século passado organizar-se perante aquele apagamento, usando o melhor conceito que existia na altura: a nação. A lógica era evidente: havia uma identidade cultural, tradições, um idioma e um território. Se a própria identidade espanhola os deixava de fora, deviam construir sem ela a sua identidade nacional. Por isso se identificaram com o termo nacionalismo.
Na Catalunha e em Euskadi1, houve uma burguesia que liderou o movimento, mas na Galiza houve, quase exclusivamente, intelectualidade. É uma diferença importante, que ainda hoje em dia pesa. A identidade estava alicerçada na cultura das classes populares. Isso facilitou que, quando, na Guerra Civil espanhola, grande parte da direita galeguista se integrou no fascismo, o que restou do movimento se transformasse num movimento de esquerda, similar aos que nasceram também, ao mesmo tempo, nos Països Catalans2 e em Euskal Herria3. É claro que há muita mais coisa que possa ser dita a este respeito: décadas de reorganização e tensões entre o exílio e a Terra; mas não quero chatear. O caso é que existem, no nacionalismo galego, individualidades de direita, mas o movimento é em geral de esquerda. Nem trabalha a partir da identidade nacional do estado, nem tem como objetivo ser integrado nela. É nacionalismo, e é de esquerda, para incompreensão geral forânea.
Na Galiza, há uma tensão constante entre o nacionalismo de esquerda e a esquerda espanhola, ela própria plural. Sendo o nacionalismo espanhol eminentemente de direita, e existindo também nacionalismo galego de esquerda, a esquerda espanhola tende a não se identificar como nacionalista. Em geral, nenhuma esquerda de um país com estado o faz, e faz sentido. Poderão achar limitadora a identidade nacional do Estado, e em qualquer caso aspiram a um estado integrador. Querem, inclusive, integrar as identidades nacionais periféricas, mas esse intuito choca frontalmente com a estratégia das nações sem estado.
Tirando isso, na verdade a esquerda espanhola e o nacionalismo galego concordam em quase tudo: serviços públicos, habitação, impostos, imigração, diversidade cultural… No fundo, a grande questão de discórdia é quem é que faz as coisas, e onde, porque, embora pareça só questão de protagonismo, na verdade implica uma séria divergência de fundo. Inclusive concordam na necessidade de fortalecer o estado, que querem que sirva para integrar, cuidar, embora difiram no lugar e sociedade em que essa integração deve dar-se. Mas ambos acreditam que só o estado pode parar a tendência para os abusos do mercado imperante. E agem em consequência.
No contexto galego, identificar-se como não nacionalista poderá levantar suspicácias. O Bloque Nacionalista Galego é atualmente a principal força da esquerda, nas instituições e na sociedade galegas. Mas é mais do que lógico em Portugal alguém de esquerda chamar-se de não nacionalista. É claro que, do meu ponto de vista, desde que se tenha como estratégia o fortalecimento do estado para enfrentar o mercado, essa estrutura não pode deixar de ser nacional, embora nada tenha a ver com o nacionalismo da direita. Mas, neste cantinho do mundo chamado Galiza, neste contexto político e social concreto, necessitamos de lembrá-lo. Afinal, ao atravessarmos a fronteira, é essa esquerda não nacionalista o mais parecido àquilo que na Galiza continuamos a chamar, talvez de forma teimosamente confusa, mas funcional, de nacionalismo. Inclusive eu, que não acredito no conceito de nação: tão-só nas suas consequências.
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