Parte I
Há uma ficção tão bem contada que ninguém a questiona. Não é a Bíblia. Não é o Senhor dos Anéis. Não é o último romance que te venderam como a voz de uma geração. É o capital. O dinheiro. A ideia de que um pedaço de papel ou um número num ecrã vale alguma coisa. Vale porque concordamos que vale. No dia em que deixarmos de concordar, é papel. E o ecrã apaga-se.
Tudo o que sustenta a tua vida assenta numa ficção colectiva. O banco onde guardas o dinheiro não o tem. Emprestou-o. A nota que tens na carteira vale o que vale porque um governo garantiu que vale. E esse governo dura enquanto durar. O mercado sobe e desce não porque a realidade mudou, mas porque alguém ficou nervoso. A bolsa é o sistema nervoso do capitalismo: reage a emoções e chama-lhes indicadores.
Dizem-te que isto é natural. Que a economia é uma ciência. Que o mercado se autorregula. Que a mão invisível organiza tudo. Mas a mão invisível, vista de perto, tem um relógio suíço no pulso e uma conta offshore no bolso.
Mas há coisas que não são ficção.
Eu nasci na República Democrática do Congo. Em Kikwit. E o país onde nasci tem setenta por cento da produção mundial de cobalto. O mineral que faz funcionar a bateria do telemóvel onde provavelmente estás a ler isto. No Congo há escravatura. Há crianças nas minas. Há violações. Há comunidades expulsas das suas terras para que o teu carro eléctrico tenha bateria. E o país que alimenta os ecrãs do mundo inteiro tem dez por cento da sua população com acesso a electricidade. Extraem a luz dos outros e vivem no escuro. Chamam-lhe transição energética. Eu chamo-lhe colonialismo com carregador USB.
E no entanto, o Congo dança. O Congo canta. O Congo inventa línguas, ritmos, formas de resistir que nenhuma mina conseguiu enterrar. A maior ficção sobre África é que é um continente de tragédias. Não é. É um continente de sobrevivências tão extraordinárias que o sistema precisa de as apagar para continuar a justificar a extracção.
E o mundo olha e normaliza. Porque quando normalizas o suficiente, a realidade torna-se ficção. Torna-se notícia de rodapé. Torna-se “situação complexa.” Torna-se o parágrafo que saltas quando o jornal é demasiado longo. E quando uma tragédia se torna um parágrafo que se salta, o sistema venceu.
O poeta palestiniano Mourid Barghouti escreveu: “Se queres desapossar um povo, basta contar a sua história e começar pelo segundo capítulo.” Chimamanda Ngozi Adichie acrescentou: “Mostra um povo como uma única coisa, repetidamente, e é exactamente nisso que ele se transforma.”
Começa a história da imigração em Portugal pelo homem que roubou e não pelo país que o importou para trabalhar sem contrato, e tens uma história completamente diferente. Começa a ficção dos bairros pelo tráfico e não pelo Estado que os construiu para arrumar quem não queria ver, e tens uma ficção completamente diferente. Começa a história do cigano pela feira e não pelos quinhentos anos em que lhe negaram escola, casa e emprego, e tens uma notícia do Correio da Manhã. Começa a ficção da pessoa em situação de rua pela droga e não pelo sistema que lhe tirou a rede, e tens um documentário com música triste. Começa a história de África pela fome e não pelos séculos em que a Europa lhe roubou tudo o que alimentava, e tens uma campanha de Natal com uma criança de barriga inchada e um IBAN no fundo do ecrã. Começa a ficção da mulher que sofre violência doméstica pela vez que ela voltou e não pelas vinte portas onde bateu e ninguém abriu, e tens uma opinião de café. Começa a história da Igreja pelos hospitais que fundou e não pelas crianças que violou, e tens um púlpito de onde ainda se dão lições de moral a quem ama diferente. Começa a ficção do trabalhador pobre pelo salário que aceita e não pelo país que não lhe dá alternativa, e tens meritocracia.
E é aqui que chegamos à ficção-mãe: o mérito. O patrão que se diz self-made nasceu num berço que lhe deu escola, contactos, segurança, e tempo. Tempo é a palavra-chave. Tempo para pensar. Tempo para errar. Tempo para falhar e tentar outra vez sem perder a casa. Quem nasce sem rede não tem tempo para falhar. Falha uma vez e cai. E depois dizem-lhe que caiu porque quis. Mas o mérito é a ficção que os vencedores inventam para justificar a sorte. E a sorte não é democrática.
A ficção mais perigosa não é a que te contam. É a que tu contas a ti próprio para não teres de olhar. É a distância. É o ecrã. É o scroll. É o “não é comigo.”
Na próxima crónica: o que acontece quando o segundo capítulo já não convence. Quando alguém insiste em contar o primeiro. E quando quem ouve descobre que a história que lhe contaram toda a vida não tinha início. Tinha uma omissão.


