Inteligência Artificial para Totós: Como matar a Arte em 15 segundos

   Tempo de leitura: 6 minutos



Pedi ao Chat GPT para me fazer uma letra para um fado tradicional português que falasse sobre “perder a alma pela pressa da vida, pela artificialidade das máquinas e o sucumbir ao destino da tecnologia”.
E, passado nem 15 segundos, eis que nasceu um poema artificial:

Perdi a Alma às Máquinas (Fado)

(1.ª estrofe)
Nas ruas corre o relógio,
Sem parar nem descansar,
Toda a gente vai com pressa,
Sem tempo para olhar.
As máquinas dão as horas,
Mandam no meu coração,
E eu vou atrás dos ponteiros,
Sem escutar a canção.

~~Refrão~~
Ai, quem me roubou a alma?
Quem ma levou sem eu ver?
Foi a vida apressada,
Foi o medo de perder.
Entre ecrãs e luzes frias,
Fui-me deixando levar,
E quando procurei por mim,
Já não me ouvi cantar.

(2.ª estrofe)
Já não conheço o silêncio,
Nem o sabor do luar,
Nem o perfume das tardes
Que ficavam por passar.
As máquinas fazem contas,
Mas não sabem ter saudade,
Não conhecem o abraço,
Nem a dor da liberdade.

Refrão

(Final)
Quero voltar ao caminho
Onde o tempo sabe esperar,
Onde a guitarra me chama
E me ensina a respirar.
Que as máquinas fiquem longe,
Do que em mim ainda é chama,
Porque um homem sem a alma
É só sombra sem destino…
A chamar por quem o ama.

Curiosa a escolha de palavras, inacreditável o tempo levado para construir um poema dentro do tema que pedi, assustador ler e ver a morte da arte em 15 segundos.

Depois pedi-lhe para fazer a música da canção utilizando a minha voz e os meus discos como referência. Passado algumas instruções e uns minutos tinha uma música pronta, com uma voz muito semelhante à minha, com os instrumentos e o contexto e estilo sonoro muito semelhante aos meus projetos. Fiquei aterrorizada, triste e senti-me roubada. Senti que a minha alma, os meus 25 anos de trabalho, que as minhas mãos sujas de trabalho puro no canto e os pés cansados de experimentar a beleza e a feiura da vida tinham sido destronados por uma caixa limpa, feita de algoritmos de dados mortos e vazia de carne e sangue.

Arte feita por algoritmos, será que pode ser considerada Arte?
Quais são os limites entre a excelência da tecnologia e excelência da Humanidade?

Escusado será dizer que não a irei divulgar ou mostrar, pois isso seria um ato suicida e simultaneamente o alimentar do genocídio da arte através da IA. Este “Fado” poderia entrar numa playlist qualquer de música popular tradicional ou mesmo fado e passaria facilmente despercebida. A Plataforma Deezer fez um inquérito e conclui que 97% das pessoas não consegue distinguir uma música feira por IA e uma música feita por humanos1. Deixo algumas provas disso mesmo e as suas consequências:

A investigação jornalística do The Guardian comprovou que bandas e artistas independentes de renome, como Luke Temple, Uncle Tupelo e King Gizzard and the Lizard Wizard, tiveram os seus perfis oficiais invadidos por burlões que colocaram músicas falsas geradas por IA nas suas páginas de lançamento para enganar os fãs. A investigação comprovou que entre 5% a 10% de todas as reproduções de streaming globais são falsas, o que equivale a um desvio anual de 1 a 2 mil milhões de dólares dos bolsos dos verdadeiros artistas.

5% a 10% de
todas as reproduções de streaming globais são falsas, o que equivale a um desvio anual de 1 a 2
mil milhões de dólares

Jason Moran —antigo diretor do Kennedy Center e lenda do Jazz— encontrou álbuns inteiros de IA (onde nem sequer havia pianos a tocar) creditados no seu perfil do Spotify sem qualquer autorização, provado pela Digital Music News.

Poderá ser a Arte utilizada pela inteligência Artificial?
É urgente termos limites para o uso do mundo digital, assim como temos regras para comer à
mesa ou pedir um café.

É necessário haver estatutos de ética bem delineados para o mundo digital, assim com temos uma constituição uma carta das nações unidas. Foi preciso uma ditadura para se criar uma constituição. Foi preciso um holocausto para se escrever uma Carta dos Direitos Humanos. Será necessário uma crise de decadência humana, de morte cerebral social, de destruição global, para se entender que é necessário um código de ética universal para o uso da tecnologia?

Até onde teremos de ir para saber parar??
A Arte é uma forma histórica e social desde o início dos tempos, A.C e D.C que revelam e representam a nossa humanidade. A Arte é o reflexo do mais humano que existe dentro de nós e da nossa intimidade para o mundo. Não tem certo nem errado, não é feita por máquinas. As máquinas servem para fazer arte mas quem a faz é o Ser humano. A guitarra , a maquina fotográfica, o cinema fez-se como um instrumento para a fazer. Mas não substituiu jamais o seu criador. Chegamos à estupidez da falta de limites, superamo-nos a nós mesmo a substituir-nos a cada dia que passa.

Mas será que a inteligência artificial é o único problema?
Será a forma como estamos a produzir música?
E quem ouve, quem a compra?

Cabe a ti, a cada um de nós, responder a esta questão e fazer diferente. Não podemos sucumbir ao Spotify’s, às aplicações de produção de música e a própria IA que te mata em 15 segundos, alimenta o mercado que te engole e ainda destrói a natureza a cada base de dados construída, a cada uso da tecnologia.

A Arte é uma das grandes armas contra a artificialidade. Pois a Arte é tudo menos isso mesmo.
Eu tenho de fazer diferente e tu também.
Pensa nisso, mas pela tua cabeça e o teu coração.


Da fotografia © Tiago Cerveira

  1. Segundo noticiado em PúblicoP3, Ipsilon Público, 2026 e no podcast #Como Assim ↩︎
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