Por quê razão odiamos os sem-abrigo

Em 2020, escrevi um artigo com este título para o jornal Público. Estava dentro de uma carrinha emprestada pelo Teatro Art’Imagem à associação Saber Compreender, com refeições quentes na bagageira, e tinha outro nome e identidade de género. Contei a história do Cinco Escudos, um mendigo da minha infância que toda a gente conhecia pelo preço que pedia. Contei como um homem nos pediu desesperadamente uma garrafa de água porque os cafés estavam fechados e ele não tinha onde encher uma garrafinha. A crónica foi uma das mais lidas dos Diários da Pandemia do Público. Partilharam-na. Comentaram-na. Comoveram-se. E depois …

Continue lendo
Mapa Feminicídio ONU

Feminicídio: Crime Autónomo – Sim ou Não? Uma Análise no Contexto CPLP+

O Mundo em Língua Portuguesa Opina, uma rúbrica mensal de Paulo Lamas A Urgência do Debate Sobre O Feminicídio O feminicídio, o assassinato de mulheres em razão do seu género, representa a forma mais extrema de violência contra a mulher. A sua crescente visibilidade na agenda global tem impulsionado um debate jurídico e social crucial: deve o feminicídio ser tipificado como um crime autónomo nos códigos penais? Esta questão ganha particular relevância no seio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP+), onde a diversidade legislativa e cultural dos seus membros oferece um campo fértil para a análise das abordagens …

Continue lendo

Mudam-se os tempos, mudam-se as letras das canções

A música popular é frequentemente entendida como um território sem propriedade — algo raro nos tempos de hoje, em que até a água, as praias e a terra têm dono. A canção tradicional não pode ser privatizada: qualquer pessoa, sabendo música ou não, pode inventar uma cantiga que, através da tradição oral, passa de geração em geração. No fado, nas desgarradas, nas regueifas e nos bailes galegos, a mesma canção podia ser alterada, misturada e transformada, tanto como desafio artístico como enquanto forma de pensamento, desabafo e protesto. Hoje, porém, este movimento é considerado controverso. Vários projetos musicais e coros …

Continue lendo

Zeca Afonso, Álvaro Siza e José Saramago maravilham em Vite de Compostela

O cantor e músico Zeca Afonso, o arquiteto Álvaro Siza Vieira, e o escritor José Saramago, três das pessoas que melhor identificam Portugal e a sua cultura internacionalmente, conheceram Vite, um bairro não turístico de Santiago de Compostela, e são nele lembrados por produtos que maravilham. As suas singulares histórias abrem uma oportunidade a uma experiência diferente e a gozar de uma maneira ativa de um espaço muito atrativo e enriquecedor, que não costuma ser alvo das atenções das gentes que peregrinam ou visitam a cidade. Estreia de Grândola Vila Morena As vivendas de Vite começaram a ser habitadas em …

Continue lendo

Próxima paragem: Inferno?

Já são consideráveis as filas de pessoas que, civilizadamente, se organizam para esperar pelas várias linhas de autocarro que confluem e partem da estação da Casa da Música, no Porto, a uma segunda-feira, às 7 da manhã.Vão, umas quantas, atravessar a ponte da Arrábida, para sul, nota-se nas faces o despertar já cansado, e a semana está só no começo. São, na maior parte, homens. Jovens. Africanos subsaarianos, africanos magrebinos, brasileiros, alguns asiáticos. Calados, cabisbaixos, humildes, trabalhadores, um fala comigo a custo, quando lhe dou o lugar na fila, porque, digo-lhe, ele já ali estava, só que na fila errada. …

Continue lendo

RTP: Esta língua que nos une | 17M

Às portas da celebração do Dia das Letras galego a RTP decidiu falar sobre a língua da Galiza com destaque para a vitalidade da conexão cultural a Norte e Sul do Minho. Foi no último capítulo do “Esta Língua que nos Une“, um programa de 2ª a 6ª com o tradutor, professor da FCSH e linguista Marco Neves. Nascida em outubro de 2025 —e contando já com duas temporadas e mais de 80 episódios— a rubrica, que explora a origem das palavras com reflexões acerca da língua, apresenta-se num tom divulgador e familiar, acessível a todos. Neste caso uma explicação …

Continue lendo
alminhas

As Alminhas: uma leitura etnológica

As alminhas constituem uma das expressões mais significativas da religiosidade popular no espaço cultural galego-português. Presentes sobretudo em zonas rurais do norte e centro de Portugal e em grande parte da Galiza,estas pequenas construções devocionais — nichos, capelinhas ou painéis — são dedicadas às almas do Purgatório e fazem parte da paisagem simbólica das comunidades desde, pelo menos, a Idade Moderna. A origem das alminhas está intimamente ligada à consolidação da doutrina do Purgatório, difundida pela Igreja Católica a partir da Baixa Idade Média e reforçada após o Concílio de Trento (século XVI). A ideia de um espaço intermédio de purificação …

Continue lendo

O observador de nuvens

Francisco Remiseiro (Barro, 1975) aprendeu o ofício com o avô. Este artesão autodidata, que se dedica a criar imagens de santos, altares, trípticos, barcos de pedra e artefactos diversos, desenvolve uma arte figurativa e conceitual no trabalho humilde da pedra e da madeira. As suas excecionais habilidades na escultura derivam do saber ancestral dos canteiros e carpinteiros. É um artista em vias de extinção, detentor de conhecimentos antigos e tradicionais, tal como a sua companheira, a escultora numismática polaca Monika Molenda. Homem generoso, sempre disposto a partilhar a sua sabedoria. Tenta seguir os passos de Asorey, Gregorio Fernandez, Brancusi e …

Continue lendo

A China e o Estreito de Taiwan

O Mundo em Língua Portuguesa Opina, uma rúbrica mensal de Paulo Lamas Contexto: O que aconteceu em Pequim? No dia 10 de abril de 2026, ocorreu um encontro histórico no Grande Salão do Povo, em Pequim: o Presidente da China, Xi Jinping, recebeu Cheng Li-wun, a líder do Kuomintang (KMT), o principal partido da oposição em Taiwan. Esta foi a primeira vez em anos que um líder do KMT visitou o continente com tamanha pompa, ocorrendo num momento de elevada tensão militar no Estreito de Taiwan. A visita, que durou seis dias, focou-se na promoção da paz e no diálogo …

Continue lendo

Sete (ou oito) costelas galegas na Literatura Portuguesa

Luis de Camões (1531?-1580), Eça de Queirós (1845-1900), Fernando Pessoa (1888-1935), Alfredo Pedro Guisado (1891-1975), Augusto Abelaira (1926-2003), Fernando Assis Pacheco (1937-1995) e José Carlos González (1937-2000): estes sete nomes bem conhecidos da Literatura Portuguesa compartilham o terem antepassados nascidos na Galiza. E essas sete costelas provam o “Génio literário português com ascendência galega”, como sintetizou Carlos Quiroga, professor da Universidade de Santiago de Compostela e escritor, nas Jornadas de Língua e + realizadas o 21 de março no Museu da Límia, em Vilar de Santos (Ourense), sob organização da Academia Galega da Língua Portuguesa. E podem ser porventura oito, …

Continue lendo

O fôlego da liberdade

EDITORIAL | Hoje, 25 de abril, nascemos como jornal e como compromisso. Não estamos apenas a somar uma voz à entropia mediática contemporânea. Estamos a tentar construir um espaço de convergência e um projeto comum. O De Norte a Sul surge em abril como rebento em flor para contribuir a atualizar esse espaço atlântico que desafia fronteiras. Nós não iremos encerrar-nos num regionalismo eurocéntrico. Olhamos também de Sul a Norte, para o sul global e para as terras com que partilhamos o mar, não como periferias mas como centros de novos significados e de dilemas fraternos. Vivemos tempos de confusão …

Continue lendo