Entrevista | Emmy Curl: Era ideal usar os nossos recursos para o bem comum

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Emmy Curl é o nome artístico de Catarina Miranda (1990). Habitando esse território subtil entre a memória e o sonho, construiu uma identidade artística marcada pela serenidade e pela sensibilidade. A sua arte nasceu do detalhe, do silêncio e do sussurro, revelando uma força tranquila capaz de transportar quem a escuta para paisagens de rara beleza e contemplação.

Emmy Curl, o nome veio de onde?

Na idade de 15 anos eu era muito fã de Harry Potter e gostava muito da personagem de Harmione. Identificava-me muito com ela, tendo-se a atriz que a personificava, a Emma Watson, tornado um ídolo para mim. Adotei, pois, o nome dela, em diminutivo, Emmy, em homenagem ao trabalho que ela tinha realizado. O Curl vem das formas oníricas de desenho que eu sempre fiz, do meu lado visual que está ligado a isso. Cantar e desenhar, quase que comecei ao mesmo tempo com tudo. Era muito miúda, se calhar hoje dar-me-ia a mim própria um nome diferente, mas é o nome que eu fui assumindo e conquistando naquilo que escolhi.

Tem comentado que a chegada da Internet foi fundamental nessas suas descobertas e trabalhos de miúda.

Sim, por volta de 2005-2006, eu comecei a publicar no MySpace. Tornaram-se virais as músicas que tinha posto e comecei a ter propostas. Comecei a andar de autocarro, a tocar em cafés …. sem a Internet teria sido impossível que pessoas do Porto ou de Lisboa me descobrissem. Foi muito importante mesmo ter nascido nesta era.

Como lembra a sua infância em Vila Real?

Basicamente, eu era muito ligada com a natureza. Na primária passava as tardes a andar de baloiço na árvore do chorão. E a brincar com a areia e a terra. Vila Real tem duas montanhas, o Marão e o Alvão, e eu adorava ir lá. Ainda hoje, eu gosto mais da natureza do que da própria cidade, conviver com a natureza à volta é fantástico.

Esse contato contínuo com a natureza, esse nascer da tecnologia … e aparece o “Solar Punk”. O que é isto?

Existe uma estética visual de um futuro que para quem nunca ouviu falar deste estilo, pode associar aos filmes futuristas. Quem não conhece o Star Wars, o Star Trek e outros. Imaginem assim um futuro, como visualizaram os realizadores desses filmes: uma realidade distópica, onde a tecnologia se sobrepõe ao humano, ficamos meio cyborgs, controlados pelas máquinas, com muita pobreza… daí é que surgiu o cyberpunk. Porém, sendo assim, como é que seria se isto fosse pelo caminho certo, e se em vez disso a tecnologia nos ajudasse, nos libertasse, e mesmo nos permitisse viver com a natureza de uma forma mais cómoda. Afinal, o sentido da evolução foi esse comodismo: pagar por ter uma vida confortável, casa, água potável, luz… Então é só imaginarmos um futuro em que a tecnologia nos dê isso, uma vida melhor, ter acesso à comida, e tudo facilitado e acelerado pela IA e pela robótica. Ou drones que ajudassem a plantar. Tudo muito sustentável, quase como numa aldeia futurista.

Eu sou adepta da política de recursos, inspirada e regida a contar com os recursos que existem da terra. Nem eu nem o Solar Punk acreditamos nas cidades, porque elas estão a sugar materiais demais. A ideia é tornar o modelo face às cidades circulares, que vão aumentando consoante a terra e os recursos que existem. Há um documentário muito giro, antes do Solar Punk, trata-se do “Projeto Vénus”, recomendo imenso ver. Um projeto arquitetónico focado em cidades sem tanto dinheiro. De facto, nós não precisámos de tanto dinheiro como recurso, se a tecnologia evoluir e nos ajudar. A miséria do povo é terrível, era ideal ajudarmo-nos uns aos outros e usar os nossos recursos para o bem comum.

Longe fica aquel Ether de 2007, o primeiro da sua carreira musical, nesse pop onírico e cheio de “folktrónica”. Como foi mudando nestes anos todos, até chegar ao álbum “Pastoral”, álbum que também está a promocionar na Galiza ?

É engraçado, quando era miúda e realizei aquele trabalho, “Ether”, tinha grande apreço por música celta. Foi aí que se consegue ouvir algo daquelas músicas celtas, que eu considerava “importadas”. Neste sentido, estava a gostar de algo que não era meu. Aliás, eu não me lembro de ser ensinada nesse “celtismo” e durante muito tempo achei que esse estilo tinha vindo da Irlanda. Hoje, no “Pastoral” houve uma grande pesquisa pessoal, quer a nível de som (português e da península Ibérica), como também da nossa história. Fui à época medieval, pagã… e descobri que a Galiza e Portugal eram um só povo. É diferente de quando vais à escola. Quando estás a pesquisar por interesse próprio, na idade adulta, faz todo o sentido. E descobres essa herança celta, hereditária. Perceber esta comunhão… somos como formigas. Os portugueses, eu mesma, vamos para muito longe e não sabemos nada do que está do outro lado da “linha”. Isto é ridículo. Para mim era muito raro ir a Vigo, que está muito mais perto do que Lisboa. Estou a abrir a mente e a descobrir o que há atrás de um muro irreal, um muro político. Nos dias que correm, a quebrar barreiras, não faz sentido.

Pastoral, pois, surge no fim deste caminho longo, que eu fiz para chegar a mim mesma. Todos nascemos para criar, para descobrir quem é que somos. No Pastoral adora-se o sol, a lua, o pagão. Além disto, temos que reivindicar que há mais música do que o Fado, em Portugal. No Norte estamos virados para outras coisas, e o nosso folclore está ligado intimamente com o da Galiza: Faltriqueira, Baiuca… há artistas novos dos que eu gosto imenso. Esse ser guerreiro, essa luta pretende ser divulgada, além do mantra de vitimização do fado. Como no caso da América, porque não conviver o blues e o rock? Aqui deveria ser assim, com o fado e o nosso folk.

No fundo é esse colocar do fado como musica nacional, símbolo do Estado-nação, como com o flamenco na Espanha ou o samba no Brasil…

Mas, repara, o flamenco não tem nada a ver, é uma música mais expressiva. Eu gosto dos fados corridos, mais alegres. É urgente para Portugal deixar esse pessimismo atrás, essa cabeça baixa. Sempre achamos que o de fora é melhor, isto é algo que une galegos e portugueses, e quando viajas, por exemplo, pela França, Itália ou Dinamarca, eles não são assim.

Na música de Mirandum a Emmy fala, precisamente, dessa alegria, de dar vida, de amor, estarmos gratos… o contrário dessa pena existencial.

Eu uso muito a música com cura. Este álbum é assim, arte de curar, tanto essa melancolia portuguesa. Nos meus álbuns anteriores, eu tenho muito poucas músicas positivas, e no Mirandum há esse manifesto para mim própria: “ergue-te, temos muito que fazer”. Mas também há uma mensagem para o meu povo, eu não sou ninguém sem as pessoas à minha volta. Portanto, é um canto para quem tem medo… e uma necessidade de me libertar. Será que ser alegre é deselegante em Portugal? (risos)

É uma das primeiras produtoras mulheres no país. Este dado reconforta, é um prémio…?

É um facto, infelizmente sou uma das primeiras. Eu aprendi com o meu pai, que era e é músico e montou um estúdio onde gravava. Foi lá que eu lancei os meus trabalhos. Mais mulheres têm de aparecer e produzir os seus trabalhos, sem dependerem de homens. Quando depois fui produzir com homens, houve muito poucos que me deram liberdade para eu produzir e ter um sentido estético. Estive sempre ao pé deles para que nada fosse diferente do que eu queria… e como quando pintas uma tela, sabes perfeitamente o que é que queres, mas tens outra pessoa à tua frente a pintar e perguntar onde é que queres o risco. É um bocado frustrante.

Hoje, no entanto, é barato teres o teu próprio estúdio, não há razão para não produzires as tuas próprias músicas. Contudo, isto é se sabes o que queres fazer. Há pessoas que ainda não sabem e precisam de ajuda. Mas, sim, faltam mulheres a colocar as mãos na massa, sem medo. Só há lado feminino sem o lado masculino a influenciar. É precisa uma visão feminina para balancear. Na nossa geração, as mulheres começam a poder desenvolver os seus projetos, sem terem apenas que tomar conta dos filhos. É muito interessante o processo.

Faltam mulheres a colocar as mãos na massa, sem medo.

Só há lado feminino sem o lado masculino a influenciar.É precisa uma visão feminina para balancear.

Interessante foi também o prémio José Afonso 2025, que reconhece a difusão cultural, histórica, linguística e musical em Portugal— prémio que antes foi recebido por Fausto, Jorge Palma, Sérgio Godinho ou a Garota Não—. O que significou este reconhecimento?

Quando recebi a chamada, não estava a contar. Eu nunca tinha ganho nada na vida e fiquei muito grata. É fundamental para os artistas serem reconhecidos no próprio país, é saber que impactamos, um aconchego no coração de que não estamos sozinhos. Termos o apoio das pessoas e das entidades que se ligam à música é um alento enorme, uma coisa que me faz trabalhar mais. Continuar.

A Emmy participou também no Festival da Canção. Neste ano 2025, chegando à final com “a rapsódia da paz” e em 2018, ficando em segundo lugar com a música “para sorrir, eu não preciso de nada”. Mas, voltando a 2025, como é que correram essas experiências em Melide, na sala Rebulhom de Mos?

Para já, é muito cedo para desenvolver uma grande reflexão. O que eu vivi foi uma simpatia e uma conexão muito grande com a Galiza. O pessoal recebeu-nos muito bem, parecia que estávamos em casa. Só muda o sotaque… por acaso, descobrimos mais grupos de mulheres nos cafés a rir e conversar. Foi muito engraçado tocar numa sala de bowling (risos) Em suma, é como no Norte, há muita vontade pela cultura, vontade de fazer coisas, não temos muito, não há dinheiro mas a gente faz na mesma. Achei muito bonita essa sede de cultura, de unir.

Será que existe maior fronteira musical entre a Galiza e Portugal do que por exemplo, noutros âmbitos da cultura, onde existe maior permeabilidade? Será pela influência das músicas latinas e anglo-saxónicas?

Sim, temos sido dominados pela cultura musical americana durante muitos anos, o que fez com que só nos últimos anos as pessoas estejam a tentar fazer músicas tradicionais. Não estou a falar de fado, mas de algo longe das músicas que estamos habituados a ouvir. Estamos perante um despertar único, na direção ao centro, e na época pós-covid. Isto não é apenas uma questão portuguesa, as pessoas procuraram essa volta…

Uma volta às origens…

No mundo inteiro. Essa busca daquilo que nós temos para dar. Quem sou eu? Onde é que é a minha casa? São aspetos muito recentes, essa consciência, esse despertar. E essa proximidade com os nossos vizinhos. Em termos culturais, temos muitos festivais próprios… mas os intercâmbios são sempre muito mais interessantes. Temos mentalidades complementares, que poderiam acrescentar visões umas às outras. Há muito a aprender. Vocês são muito de luta, e acho que o português é mais submisso. Lembro-me da minha avó moderna, que adora a Galiza. Ela já me disse várias vezes que viveria do lado norte do Minho, vocês são mais descomplexados… Portugal foi mais dominado pelo catolicismo.

É engraçado, a nós acontece-nos o mesmo com Portugal. Essa visão de Galiza expandida, esse irmão que se foi embora, essa galeguidade com Estado próprio. Será que sempre idealizamos e achamos que os outros estão melhor do que nós?

É verdade, mas nada me tira a ideia de que temos sempre muito a aprender. São os outros os que têm que dizer o que aprenderiam connosco. Mas insisto nessa descomplexidade, dessa naturalidade… repara na Uxia Senlle, ela é incrível. É raro ver aqui uma mulher assim, que “sabe ser mulher”. A mulher portuguesa é mais submissa, está com medo do que o homem vai dizer. Mas é a minha visão, claro. Eu lembro-me das pessoas da Sala A Fundación, ouvi-los falar era muito engraçado.

Como foi essa voltar linguístico, esse processo, em que passou do inglês para o português?

Foi essa volta, esse momento de eu me encontrar, essa viagem do eu até agora. Eu escolhi quem era e de onde era… então, por que cantar tudo em inglês? Não vou deixar de cantar noutras línguas também, é bonito, mas é preciso balancear, dar outra visão da música portuguesa. Estou nesse processo. E é engraçado, porque estamos perante estilos folk muito europeus, muito enraizados com o povo. O meu namorado é dinamarquês e vê essas semelhanças.

Pode-se viver da música longe do comercial? É viável a vida arredor do Solar Punk?

Em termos de longevidade, sim. Se pensares em curto prazo, é mais difícil. Mas estás a fazer algo único, desconhecido, não comparável. É um caminho solitário, demora tempo a crescer. As pessoas não conhecem, e tendencialmente consomem o que já conhecem. No fim, quando olhas para trás, não te vais arrepender de nada. Ficas íntegra, orgulhosa do teu trabalho. Com certeza.

E o futuro? Como a Emmy vê a sua vida profissional daqui a 5 ou 10 anos?

Agora estou a acabar o Pastoral vol. II, vai sair em setembro de 2026. Também estou a realizar um documentário com o Explora. Adoro improvisação, criei um projeto há cinco anos, trata-se de jam sessions de improvisação. E o documentário consiste em ir às aldeias e perguntar: “quem canta aqui?”. Tem sido muito engraçado, no início toda a gente foge ao ver uma câmara, como é óbvio. Parece que estamos a ser vigiados, a meio da rua. Porém, nos cafés eles aparecem. E após uma hora, há sempre alguém a cantar. É muito giro, já percorremos seis aldeias e mais haverá a percorrer no verão. A seguir a isso temos mais frentes, na Escola Normal do Porto. É um laboratório cultural, um centro multicultural interativo para mentes criativas. Se alguém tiver um projeto, é só dizer, nós fornecemos estadia e acolhemos. Nós gravamos o concerto, filmamos e tem sempre um público fixo. Fica aqui o convite.


Esta entrevista foi realizada em outono de 2025 no programa Galiportus da rádio municipal de Alhariz e transcrita para o De Norte a Sul pelo autor e condutor do programa

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