Em qualquer percurso humano há datas especiais que marcam mudanças de paradigma e nos enviam a lugares que, apesar de porventura imaginados, nunca teríamos sonhado vivenciar fisicamente nem como é que seria habitá-los.
Pode ser a morte do pai, ou o nascimento do primeiro filho, o dia em que quebramos uma perna e esta deve ser operada…. há momentos que transcendem o raciocínio e nos enviam para lugares em que o chão se abre por baixo dos nossos pés ou o sol brilha entre nuvens de trovoada no céu.
São os tais espaços onde tudo de repente passa a ser possível ou de uma clarividência que nos aproxima das boas loucuras.
E se fosse para colocar uma imagem a aguarela e título a condizer, qualquer coisa como “ilhas do Oeste entre a brêtema, com nuvens claras em castelo e lôstregos em rama sobre fundo lilás”.
Há pessoas que gostam de fazer cócegas no hemisfério direito do cérebro, seja com boas ideias, contos de terror, poemas de amor, técnicas narrativas —ou a tal oficina de escrita criativa à qual nunca arranjaram tempo para ir—.
Quem sabe até com propostas de aventuras ousadas de perder o fôlego no topo do mundo, no mais escuro dos abismos ou numa ilha paradisíaca no Brasil.
Outros somos apenas simples aprendizes a balbuciar os nossos primeiros passos na escrita e a tentar captar a atenção do leitor. Se o conseguirmos ou não, vocês é que sabem… mas nunca será por não termos feito o esforço necessário.
Há datas especiais, e numa altura em que a história está já a tentar ser reescrita novamente com as velhas ideias de sempre: confronto, divisão, estrangeirice, inimigo, supremacia,desconfiança, guerra… não seria demais pararmos a refletir sobre alguns conceitos culturais que conformam, queiramos ou não, a nossa identidade coletiva.
E o calendário ou as efemérides encontram-se entre a mais banal das ideologias apolíticas. No pessoal ou no coletivo são as tais balizas temporais: o nosso aniversário, o parto de uma criança, tomar conta dos serviços fúnebres de um familiar, uma guerra de libertação, uma proclamação republicana, santo António de Lisboa ou o são João da Corunha.
É sempre possível deixar ir embora algumas das tais velhas referências ou sorrir com gratidão ao ver nascer outras novas que conformam o percurso de vida, ou da vida social.
Somos prisioneiros das nossas efemérides e das homenagens e mundos possíveis que com elas conferimos, e assim dizemos 1383-85 e acreditamos no rigor de Fernão Lopes , 1936 e pensamos em tudo que poderia ter sido diferente, 1789 e sonhamos com o nascimento do sujeito político, 1917, onde o mundo mudou para todo o sempre ou o tal ano 1 D.C que, já agora tem muito que se lhe diga . Todo e qualquer movimento, povo ou grupo social se depara com a necessidade de revisitar, revisar, recriar e homenagear constantemente o que quer que seja um 5 de outubro, um 25 de julho, uma data como 1580 ou outras como 1836 ou 1863.
Postos a ser românticos, e antes de ousar tocar em qualquer uma das Castro escreveríamos prosa garretiana, uma pobre imitação, sobre o conceito histórico das efemérides.
E presos muitas vezes ao etnocentrismo cultural, esqueceríamos no nosso dia a dia que o ano 1 começou em 622 para a cultura árabe ou que os judeus moram no ano de 5786, por sinal 1062 anos à frente dos chineses, apesar de eles serem bem mais avançados do que qualquer um de nós a escrever sobre a beleza do efémero e do fluxo natural das pequenas coisas — do Tão pouco que nós somos e da harmonia dos vinhos do Dão. Taoismo para principiantes.
Assim, por exemplo Abril, o nosso abril que muitos transportamos no peito sem o ter vivido na carne, não teria talvez começado em abril, mas para muitos militares surgiria em 73 na Guiné (ou para muitos mais africanos ainda, o seu próprio Abril, em 61). Seja como for todos abraçamos ainda hoje abril —e ainda bem que há quem teima em manter abril em maio, seja na casa da achada em Lisboa ou na primavera dos coros no Porto e nas datas e lugares que vierem pela frente—. Sabemos quem somos.
Se eu dissesse “1936” muitos galegos pensariam em qualquer coisa que conclui em 39, mas outros ligarão a data com a batalha do Cambedo em 1946 e — quem sabe outros—, os menos, com a partida de Mário de Langulho para a França em 1968 ou com Reboiras morto pela polícia em 1975. Ou talvez nunca tenha acabado.
Vontade de querer saber e interesse que fazem toda a diferença nestas homenagens mentais e no lugar de onde enxergamos o resto do mundo. As referências culturais podem crescer ou minguar e a escolha de datas, destaques ou prioridades nos livros de história nunca foi banal. Longe disso.
Nós e os Outros. Do Neolítico aos nossos dias a história narrada e escrita em pedra fala das nossas efemérides e personalidades, não como elementos a imitar mecanicamente mas como símbolos daquilo que nós próprios somos, ou poderíamos chegar a ser, uma tribo que conserva o lume.
E assim, quanto mais conhecêssemos outros povos —e quanto mais utilizássemos esta língua-outra, nossa-mas-partilhada, como canal, código secreto, bandeira de união, porto seguro— mais poderíamos ajudar-nos uns aos outros a usufruir de uma nova alteridade, de um novo olhar atento ao mundo enquanto lemos o pensamento de asiáticos, europeus ou africanos.
Uma identidade renovada de cores diversas, sabores e sons que deveriam avançar juntos. Que realmente já avançam juntos sem que ninguém tenha reparado e sem homenagens à vista. Uma comunidade partilhada. Uma tribo que partilha o lume.
Ou assim deveria ser para quem tivesse tal vontade de encontro e libertação de caixinhas mentais incutidas na escola, mas para isso seria preciso arregaçar as mangas, deixar para trás o medo do abismo, entregar à vida aquilo que amas (mas não te pertence) e aceitar que talvez nem somos os donos disto tudo, nem mesmo uma parte numérica ou especialmente significativa de um elemento que une civilizações diversas um pouco por todo o globo. A língua com letras capitais.
Voltando (porque nunca nos fomos) ao propósito do texto, há quem ouse indicar anos zeros para tudo: o ano zero do cristianismo, o ano zero da Egalité ou da independência norte-americana, o ano zero da revolução bolchevique, ou o ano zero duma autonomia poucochinha e relés, uma paródia de cartão e papelão daquilo que definimos com conceitos maiores como soberania, livre decisão, poder político, ou língua… Não nos peçam por favor para celebrar o que quer que seja que faça de nós uma pitoresca imagem de postal para consumo estrangeiro e empregado de balcão com sotaque engraçadinho…..
Todos os povos têm as suas datas e centenários a celebrar e por um momento terei de falar daquilo que conheço minimamente, como quem diz, da minha praia, a zona de conforto, o tal lugar das opiniões informadas. Língua e política, políticas de língua, paradiplomacia, diplomacia para a língua. Com estes vimes é que se pode construir um cesto e não outros.
E é isto que nós somos, uma semente de qualquer coisa no fundo dum cesto à espera de se sentir acompanhada, um projeto de futuro, pastores de sonhos na apanha da azeitona e o ruído seco dos primeiros frutos no fundo dum balde, língua como aquilo que nos define enquanto não se constrói com factos e decisões a nova cultura que surge e acompanha uma nacionalidade emergente se a tentativa não for gorada. Uma cultura como a poderia definir um líder africano de um país em formação ou um chefe guerrilheiro: Cachamuinha, Mercedes Nuñez Targa ou Omar Cabezas, Amílcar Cabral, Ramos Horta, Che Guevara, Castelão, Garrett, Margarida Tengarrinha ou o novo presidente do Burkina Fasso. É aí que se constrói a verdadeira identidade coletiva… nós… Ainda cá estamos.
Um dos elementos de formação da identidade nacional utilizada pelos estados europeus em séculos passados foi a língua. E em alguns lugares da Europa latina a procura de uma ancestralidade ou ligação mais “pura” ao latim contribuiu no seu momento a dar uma maior legitimidade à língua. In principio erat Verbum e o Latim o único veículo legítimo em que a palavra de Deus se transmitia. Mais próximos do latim ergo mais próximos do autêntico poder divino e da legitimidade para comandar outros povos, “descobri-los”…. ou subjugá-los.
Assim, na península tem-se dado uma corrida ao passado — com invenções de permeio— à procura duma maior ancestralidade da língua X ou da língua Z. A ideia de procurar um ano zero anterior aos outros, na construção das línguas nacionais ibéricas, foi no caso do castelhano uma obsessão, no caso do português um reflexo. Então ir até ao mais longe possível no passado: 1214, não, 1175, não, 1173. Olha que antiguidade que nós temos. Mais coisa menos coisa, Mil primaveras mais para a nossa língua.
Um ano zero de futuro
Contudo, um outro raciocínio diferente poderia ser partir à procura dum ano zero para a frente, pensado a construir novas cumplicidades, novos significados, um recomeço, uma nova partida a caminho do futuro. Lá chegaremos se este artigo não for uma maçada ou mais uma excentricidade.
Há semanas atrás o escritor angolano Agualusa brincou com todos nós ao indicar um novo nome para a “Língua geral” que utilizamos, num exercício semelhante ao que já tinha feito o escritor argentino Martín Caparrós ao propor “Ñamericano” em 2023 para substituir o nome de espanhol.
Um nome que poderia muito bem ressoar no Brasil com naturalidade, mas soa presunçoso numa Europa onde o omnipresente inglês é, de facto, visto como a língua geral da humanidade.
Estas propostas excêntricas e outras brincadeiras populares —vir a definir o castelhano como mexicano europeu ou Portugal como a Guiana Brasileira— mexem com a supremacia das culturas ibéricas nos seus próprios imaginários culturais, mas acho que atendem dalgum modo ao atual pluricentrismo emergente dalgumas línguas e culturas globais surgidas na velha europa.
Uma revisão carregada de banalidade popular, mas também de intuição, em que a velha metrópole, e o gigante brasileiro, quer queiram quer não, vão ter de se reconfigurar como parceiros de igual a igual com outros povos, no caso, com os outros países de língua portuguesa, porventura negros e africanos.
E a propósito do reconhecimento do português como língua africana acredito, eis outro dos propósitos de tanta letra, que existe um ano zero global que poderíamos agora trazer à tona e reivindicar como próprio.
Outras pessoas têm proposto um ano zero moderno da língua antes deste texto (sabe-se lá com que interesses), mas na minha opinião, se tivéssemos de ir à procura de um ano zero da nossa língua comum, entendida como pluricêntrica e cheia de sabores — na qual África está chamada a destacar no próximo século1 e tem já muito para contar— , se fôssemos enfim, à procura desse momento inicial, deveríamos olhar para aqueles pioneiros de ´80 que souberam contribuir a que povos recém independizados fossem chamados a uma mesa de negociações a falar sobre a língua comum a todos eles. Eu sou porque nós somos. Ubuntu
Homenagens com propósitos múltiplos
Às vezes desvendar aos poucos os propósitos dos artigos poderia ajudar a manter a atenção de quem gosta de ler textos compridos. Há vontade de encontro naquilo que nos une mas também respeito à diferença e ao percurso realizado. Digam o que disserem dicionários ou ditados, trabalhar como um galego ou como um negro nunca serão sinónimos. E ser escravos da cultura do trabalho ou fugir da fome difere muito de ter estado agrilhoados. Labrego e camponês, leira ou lavra nunca indicarão o mesmo em cada contexto. E assim artigos como este podem ser uma reflexão global mas também uma pequena homenagem necessária fruto do presente imediato. Uma homenagem atlântica, honrar os mortos, falar das velhas tradições e de coisas de há quarenta anos para as atirar de novo para a frente em direção ao futuro. Do país dos cabodanos2 para o mundo, sim, este é um artigo com várias camadas de cebola, data de aniversário, toque pessoal, lume brando, maresia… e sal e extensão q.b.
O meu pai3, figura controversa dentro e fora de casa, morreu há hoje um ano, mas julgo que ele se encontra entre o grupo de entusiastas galegos e brasileiros que —querendo alargar a visão reduzida daquilo que o conceito de <<português>> significava na altura—, promoveram um novo entendimento que transcendesse (sem os excluir) os antigos donos da língua. Um tratado internacional e um novo paradigma. Loucos e sonhadores? Diplomatas e estrategas?… A terra mãe, o berço da língua, e a mãe áfrica, o berço da humanidade, de mãos dadas. E que inteligentes foram também os brasileiros, a mexerem os pauzinhos necessários… Eppur si muove e o mundo pula e avança.
O acordo ortográfico de 1990, que muitos europeus criticam na parte técnica, dificilmente poderá escapar a ser visto como um sucesso político insólito quando analisado, do ponto de vista das periferias, na sua parte diplomática.
Este tratado internacional, assinado na velha metrópole, é a continuidade natural do I Encontro de ´86, o primeiro em que africanos foram chamados por primeira vez de igual a igual entre ocidentais. Gosto de pensar que foi ali que qualquer coisa começou a se mexer, reunidos uma primeira vez na capital imperial do Rio, outra segunda na capital do império colonial. Ei-la, uma África jovem a tratar da essência da nacionalidade em tempos em que muitos jovens devorávamos novelas de ficção da Editora Europa-Ámérica.4
Ousaria dizer que hoje a dinâmica de promoção da língua na CPLP e a própria concepção dum Instituto como o IILP (chamado a atualizar periodicamente a ortografia comum) bebem também das mesmas fontes que esse primeiro ato de inteligência política: Multipolaridade, unidade na diversidade, equilíbrio institucional.
Há quem fale mal do Novo Acordo (em vigor nas aulas) como se este fosse um assunto português (só), ou brasileiro (só). E na imprensa falou-se muito mal do acordo na europa porque, acredito que, não se observa ainda a própria língua na sua globalidade mas apenas dum ponto de vista local,para o caso, nacional. De umbigo inchado e olhar nos dedos dos pés, ou com terra nos olhos. E poucas vezes com binóculo na mão ou a mão em pala, brisa leve, sol no alto e a enxergar o horizonte do futuro.
Somos do tamanho do que enxergamos e não do tamanho da nossa altura mas não irei citar Fernando Pessoa. Sim animar a quem for contra o tratado a sete para que leia as opiniões do autor sobre a ortografia que vingou desde 1911. Revejam sff as suas próprias conclusões.
O Ano Zero da Língua Comum
Em ´80, os assuntos da língua também diziam respeito aos novos países que tinham conquistado a independência da metrópole 10 anos atrás. Alguém refletiu sobre isso e atuou a pensar fora da caixa. E fora da caixa teceu cumplicidades para os posteriores encontros e instituições que hoje em dia reúnem, finalmente, uma visão pluricêntrica da língua.
Hoje o conceito de unidade essencial na diversidade é o discurso oficial do conjunto da CPLP, e o novo acordo consequência prática desse paradigma.
Uma língua global que como o árabe, o chinês, inglês ou espanhol, não tem dono privativo e encontra dia a dia ferramentas técnicas para aceitar as variedades nacionais no seu seio e encher tudo de muitas bandeirinhas, como tem de ser.
Desse ponto de vista, acredito que a génese daquilo que hoje chamamos português internacional, entendido como língua pluricêntrica, foi forjado quebrando aos poucos um velho paradigma etnocêntrico de propriedade privada luso-brasileira.
Nalgum momento o mundo mudou. E pelo nosso próprio interesse em existir como iguais nos assuntos de língua, o Ano Zero da Língua Comum que angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos ou galegos poderíamos reivindicar como próprio muito bem pôde ter acontecido há agora 40 anos, no I Encontro para a Unificação Ortográfica da Língua Portuguesa de 1986.
Uma sorte de genialidade pouco usual, um jeitinho brasileiro para a política, o tal sentidinho galego ou uma abertura diplomática inédita fez com que os diferentes países africanos fossem chamados na última da hora a participar como iguais pela primeira vez. Assim sendo, o evento foi a primeira vez que as periferias todas puderam participar num ato diplomático sem precedentes. Nunca tantos negros e galegos houve à mesa. O berço da língua e o berço da humanidade, passado e futuro entrelaçados.
Defender aquilo que é nosso
O primeiro Acordo ortográfico de 86 não era melhor do que o atual (ainda que os alunos com problemas com a acentuação gráfica até acho que iriam gostar) mas sentou a base essencial que hoje ninguém discute, uma base diplomática que no momento só uns poucos viam como chave de futuro: a língua portuguesa também é uma língua africana, e galaica, asiática, e oceânica.
Uma Língua Comum que os colonizadores nos deram, fosse há 2000 anos com a chegada das tropas de Décimo Júnio Bruto ou há 500, com as tropas portuguesas. O melhor presente que os tugas nos deram. Uma língua com a qual enxergamos o mundo e que continuaremos a utilizar para sonhar novos mundos, porque temos toda a vontade de continuar a existir dentro dela.
Então é só isso que eu tinha para contar, um ano zero como um mapa, uma bússola, uma corrente oceânica ou ventos de Oeste de regresso às origens : O início de um livro novo, incipit liber, Mátria da palavra, o Coro dos poetas de são tomé, o Encontro de Rio, a Poesia angolana de amor dos 80, a lusofonia galega a criar cumplicidades. Viagens de ida e volta a nós próprios. Crónica duma semana de cinco dias.
Um cabodano e um quarenta aniversário.
Obrigado Guerra da Cal e Paz Andrade5, obrigado pai e restante pessoal da Geração galega da Lusofonia por terem feito um trabalho a anos luz da mentalidade da época. Obrigado por lá terem estado a puxar a brasa à nossa sardinha, à sardinha de todos.
E a vocês todos que até aqui chegaram lendo isto.
- Calcula-se para 2050 existirem mais de 125 milhões de falantes de português africano ↩︎
- Cabodano = Aniversário da morte de um familiar ↩︎
- José Luís Fontenla Rodríguez ↩︎
- Nesse I Encontro de 1986 o Brasil tinha 8 delegados, Portugal 3. Cada delegação tinha direito a um só voto global, sendo que com a entrada dos PALOP, os países africanos, juntos, somavam 5 dos 7 votos totais. Esta maioria africana alinhou-se num dado momento com a delegação do Brasil para aprovar o polémico projeto que eliminava cerca de 70% dos acentos gráficos que hoje utilizamos. Assim, numa situação inédita a delegação de Portugal acabou por ficar sozinha numa votação sobre a nova ortografia comum. Galiza como observadora não podia votar mas sim participar dos trabalhos, com 3 representantes. ↩︎
- Presidente e vice-presidente da comissão galega do acordo ortográfico ↩︎


