Um dos leitmotiv mais persistentes da tradição cultural ocidental sustenta que, se não há Deus, tudo é permitido. A fórmula — atribuída a Dostoiévski e repetida até à exaustão — condensa a convicção segundo a qual apenas a existência de uma instância suprema, de um fundamento último, poderia garantir a ordem da realidade, do conhecimento e da moral. Sem esse ponto de apoio absoluto, diz-se, a humanidade ficaria exposta ao caos, ao niilismo e ao relativismo ético e epistemológico. No entanto, a história oferece motivos mais do que suficientes para desconfiar dessa premissa. Pois sob a ideia de uma ordem …
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