Entrevista | Marco Neves:“Não há um povo, seja qual for, que fale muito bem português e os outros não”

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Marco Neves tornou-se um fenómeno nas redes, rádios, podcasts e na televisão ao divulgar a sua paixão pelas curiosidades linguísticas de maneira pedagógica. É tradutor, revisor, divulgador, docente e autor de vários livros. Professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mora em Lisboa e faz parte do Conselho Editorial do De Norte a Sul. Atende-nos ao telefone, no médio de uma agenda intensíssima que reúne cursos, aulas, escrita, colaborações ….

Hoje no estúdio de Lisboa… Não é fácil encontrar o Marco em casa nos últimos tempos com a sua agenda…
Sim, tenho muitas participações: aulas, conversas, entrevistas… mas, repara, a colaboração que faço com a RTP é aqui em casa, portanto, ainda que pareça incrível, é possível eu estar em casa (ri)

Sempre a falar de línguas…
Eu gosto mesmo disso, e nunca pensei em chegar a tantas pessoas a falar deste tema. As pessoas associam com questões escolares e se calhar o tópico está um bocado “queimado”. Porém, quando falamos de como as pessoas vivem a língua, acaba por explodir e tudo é muito mais visível. Fico contente com este interesse “global”, mas não deixa de ser misterioso para mim…

Professor da Universidade de Lisboa, tradutor, escritor… e desde há uns anos, divulgador. Quando é o momento em que decide dar este “salto”?

Fui e sou tradutor e comecei a dar aulas, eu gostava de falar com as pessoas, e levar o conhecimento para mais pessoas é algo fantástico. Comecei por criar uma página, “Certas palavras”, onde falava de línguas. Depois escrevi livros, que me levaram a muitas ligações com a Galiza. Eu não tinha vínculo nenhum e ganhei ligações pessoais, amigos galegos. Assim sendo, boa parte do que fazia chegava a pessoas interessadas. Porém, os vídeos nas redes sociais (tiktok, instagram, youtube) fizeram com que eu começasse a chegar a muitas mais pessoas, desta vez à partida não interessadas pelo assunto. Quanto à dimensão atingida, eu não estava à espera. Depois chegou a tv, a rádio… Gosto imenso de divulgar este tema e de ganhar audiência.

225 mil seguidores no Instagram, 150 mil no Facebook, 22 mil no Youtube. 87 mil no Tiktok…
Mais do que os seguidores, o importante dentro da lógica dos algoritmos são as pessoas que veem os vídeos, uns quantos milhões por mês. Isto era imprevisível, mas abriu-me portas a conversas com pessoas do Brasil, por exemplo. Não estávamos habituados a ouvir-nos e a falar entre os diferentes países da comunidade lusófona.

Em Portugal é verdade que há décadas que ouvimos novelas, mas havia distância, não existia o diálogo constante. Agora, por causa das redes sociais e da imigração, estamos todos a falar uns com os outros. Agora discuto com galegos, brasileiros, angolanos, é muito bom. Apesar de não concordarmos sempre, estamos a falar, e acho que esta nova fase de encontro é “tensa” nas redes, mas muito mais “fiável” quando nos vemos em pessoa. A primeira vez que fui ao Brasil tinha vinte e poucos anos. Voltei nesta última época e senti uma diferença enorme. Daquele “qual é este sotaque” passou-se a uma perceção absoluta.

Alguns até conheciam o meu trabalho. Isto há 20 anos seria impossível. É um momento de pessimismo geral, e ainda há pessoas que não reconhecem o galego em Portugal ou que ficam chocadas ao ouvir o português continental, mas nem tudo é tão mau.

Como alinhar o rigor académico necessário com a acessibilidade destes discursos?
Costumo aplicar os conceitos de tradução à divulgação científica, sem simplificações. Podemos dar mais informações, com rigor, transmitindo na linguagem da pessoa que está a ouvir. Além disto, acho que a motivação é importantíssima. No mundo académico posso estar a escrever um artigo, a investigar… sem estar apaixonado. Na divulgação vou criar sempre vídeos que me interessem, sem perder rigor. Não vou publicar temas de que não goste.

E ainda, temos de ter em conta que esses milhares de pessoas, no seu conjunto, sabem muito. Sempre sublinhamos as reações negativas, mas no meio daquilo tudo há comentários que ensinam, e que ficam se calhar à parte, devido à “nuvem” de negatividade na qual estamos inseridos. Tenho a experiência de sentir isso: 5 comentários violentos de 150 são muito poucos, mas criam essa visão negativa. Por exemplo, agora no Mundial de futebol fiz um vídeo sobre os hinos nacionais. Neste ponto, uma revista inglesa dizia que o hino mais violento era o português…

Às armas!…
Sim, sim, o vídeo era brincalhão e falava dessa combatividade. Eu expliquei as origens desses hinos, criados em contextos de guerra. Nem todos são como o da Galiza, muito mais calmo, suave (ri). Esse vídeo teve, pois, reações negativas, principalmente vindas da extrema-direita, que acreditavam em que eu queria mudar o hino (volta a rir) foram centenas de comentários, e muitos negativos, mas parece que olhamos só para o mau.

Porém, se analisarmos bem, foi um dos vídeos mais vistos e com mais reações positivas dos últimos meses. Mas isso nós não vemos! Então, apesar deste mundo de faroeste, estas coisas incentivam-me a continuar.

Como lidar com a fama ante estas e outras situações? Como é ser uma pessoa tão conhecida?
É engraçado: ao contrário da Internet, na rua não acontecem reações negativas. Se calhar as pessoas que não gostam já não se aproximam (ri), mas, de resto, corre tudo muito bem. Já tive conversas bem simpáticas, há uns dias falei com um senhor que era compositor e que andava a procurar ideias de um livro que dessem para uma ópera. Por outro lado, os meus filhos encontram tudo muito estranho e ficam atrapalhados… Enfim, as pessoas são simpáticas. Basta dizer isto e amanhã chegar alguém que quer bater-me… (volta a rir)

O Marco é muito positivo quando fala da aproximação entre a Galiza e outras partes da Lusofonia. Falamos entre nós mais do que nunca.
Esta visão otimista parte daqueles primeiros tempos. Em 2011, 2012, 2013… aqui mesmo em Lisboa, sentia o desconhecimento. Porém, a partir de 2017, com o referendo da Catalunha, a realidade plurilinguística e cultural do Reino de Espanha ficou muito visível em Portugal. Então, essa indiferença respeito à Galiza eu acho que é muito superficial.

Isto é, se rasparmos um bocadinho, sob a minha perspetiva, os portugueses encaixam bem a questão galega. No entanto, são eventos como o referendo catalão os que quebram essa visão vinda do Estado Novo: cada país com a sua língua. As pessoas descobrem que as coisas são mais difíceis do que pareciam no início. Até para pessoas sem esse interesse.

Por falarmos em desacordos, não concorda com o Acordo Ortográfico, pois não?
Quanto ao Acordo, acho que fez mais mal do que bem. Neste aspeto, julgo que até poderíamos ter um sistema mais parecido com o castelhano: Cada país com a sua academia, e elas a conversarem umas com as outras. Ou seja, falamos de coordenar formas académicas e ortográficas que podem mudar periodicamente.

Acho que a reforma não teve nenhuma vantagem prática. As duas ortografias já eram muito próximas. Podia ter havido o reconhecimento mútuo das pequenas diferenças, sem alterar a ortografia num momento em que a maior parte da população já estava escolarizada. Então não se entenderam estas reformas: hoje não há mais livros portugueses vendidos no Brasil. A forma não trouxe mais comunicação entre os países, por estes motivos.

Eu não sou contra as reformas, mas devem ser feitas em períodos de debates alargados, e graduais, com uma necessidade concreta. As barreiras hoje são alfandegarias, não ortográficas, com certeza. E de existirem problemas, é com algum vocabulário. Não havia necessidade de mexer, e apareceu esse certo antibrasileirismo que me incomoda imenso.

No que diz respeito ao ensino, o que teria de mudar nas aulas de português?
É difícil responder, são muitos níveis. Em primeiro lugar, gostava que a história da língua portuguesa fosse ensinada de forma mais completa e ampla. Isto é, sabemos muito pouco das influências indígenas e africanas. Ou de que se passou com a língua depois da independência do Brasil, lá. E é evidente a pouca atenção à questão galega: sim, sabe-se do galaico-português, mas o galego devia ser apresentado de uma forma muito mais visível. Há manuais, mas… Quanto à literatura, com todas as críticas que podemos fazer ao governo português, há umas semanas que foi lançada a proposta de incluir mais livros dos países de língua portuguesa. Isto é muito bom.

A utopia seria completa com mais livros de autores galegos, mas já se sabe que existe o problema da ortografia “oficial”. Mas o que não é o utópico é termos mais contactos e até os professores levarem os alunos Minho acima, e descobrirem onde é que a língua nasceu… O ensino do português daria para muitas conversas.

A IA está por toda a parte… Como é que pode mudar a aprendizagem das línguas? É ajuda ou interferência?
Há aspetos particulares muito imprevisíveis. Por exemplo, no que refere às traduções. É uma questão difícil: a tradução automática ajuda-nos, informalmente, a chegar a textos com facilidade. Mas vai estar sempre presente a questão ética. Da perspetiva da comunicação, diz-se que podemos estar perante o inglês como última língua franca. Depois dele, os sistemas automáticos vão facilitar a intercompreensão. Parece que caminhamos nesse sentido. Na minha viagem à China, não encontrei quase ninguém que soubesse inglês; pelo contrário, muitas pessoas contavam com ferramentas de IA e comunicavam comigo apenas com o telemóvel.

Voltando ao nosso tema, na lusofonia, nós não precisamos de nada disto, só de atitude: a pessoa não deve estar presa, podemos comunicar perfeitamente e isto deve ser valorizado. De facto, em Portugal ainda vemos como os portugueses acham que a sua língua é pouco falada. Alguns até sentem que o falar “brasileiro” é outra língua, se calhar é por não quererem aceitar a diferença. Esta visão de língua pequena é estranha e não está acompanhada da realidade.

E cá estamos nós a falar com sotaque galego e lisboeta, comunicando a 100%. O Marco escreveu em 2019 um livro muito comentado na Galiza: “São português e galego a mesma língua?”. Qual o ponto de situação deste debate? Onde faz mais falta tratar desta questão, a norte ou a sul do Minho?
A norte do Minho o debate está muito mais vivo. A sul há cada vez mais pessoas interessadas, a pensar nesta mais-valia. A maior parte das pessoas com as que falo sabem da questão e consideram que é a mesma língua, é evidente. Aliás, realizei um inquérito e tentei encontrar pessoas que respondessem, sem elas terem nenhum interesse no tópico.

Fiquei muito surpreendido ao ver que metade dos entrevistados consideravam galego e português a mesma língua. Curiosamente, um número inferior de pessoas chegava a reconhecer o galego como sendo português em certos sotaques. Quer isto dizer que, ao não haver exposição, não há reconhecimento, há dificuldades.

Mais hábito e mais escuta poderiam trazer esse reconhecimento comum?
Posso contar uma história que me aconteceu há algumas semanas no Couto Misto quando fui à cerimónia dos juízes, onde me nomearam “Juiz honorário”—por tecer pontes entre a Galiza e Portugal—. Fui lá com a minha família, habituados eles todos a ouvir falar destas questões, mas sem o meu interesse, é óbvio.

Ali tivemos contacto naquele dia com pessoas galegas que falavam, uns com “sotaques mais oficiais”, outros com “sotaques mais populares”. Ninguém dos meus duvidou que aqueles sotaques populares pertenciam à mesma língua. Pelo contrário, quanto mais “oficial” era o galego que ouviam, mais se afastava da nossa língua.

Como foi a experiência da nomeação como juiz honorário nesse espaço tão simbólico?
Eu já conhecia o lugar, quando o visitei em nome de Fernando Venâncio. Desta vez fui em nome próprio, com a família, o que ajudou a ver as coisas pelos olhos deles. Foi muito enriquecedor e muito engraçado ver pessoas ligadas, sem existir fronteira nenhuma. Ali havia galegos e portugueses a conversar com naturalidade e sem perguntar nada acerca da língua A ou língua B. Não é fácil explicar a quem está habituado a ouvir aquilo de que “um país= uma língua”. O Couto Misto nega esse modelo e é um espaço que reafirma uma fronteira antiquíssima, mas que mostra uma continuidade evidente. Nessa zona existem relações muito fortes, mais do que entre outros lugares do mesmo “país”.

O reintegracionismo… como explicá-lo em Portugal?
Tive uma experiência ao dar um curso de verão sobre a História da Língua, com pessoas que não tinham nenhuma relação com a Galiza em particular. E a ligação existe, quer seja “reintegracionista” ou “não- reintegracionista”. A questão é a opção escrita. Eu acho que o reintegracionismo dá essa possibilidade de sublinhar aspetos do galego que levam os galegos a serem muito sortudos: uma população que sabe castelhano, porque têm de o saber —e isto leva-os a comunicar com pessoas de muitos lugares do mundo—, mas também sabe galego, o que lhes permite falar com a lusofonia. É irónico que, no meio desse retrocesso de utilização da sua língua, são um povo com uma das maiores “amplitudes linguísticas” que existe.

Termo muito apropriado e encorajador…
Quando digo o da ironia, vejo essa ligação e esse reintegracionismo, e considero que isto tudo pode ajudar a prestigiar a língua. Apesar de os portugueses não puderem fazer muito por “salvar o galego”, podem sim dar maior atenção ao galego. Pessoalmente, sou a favor de uns mínimos que iriam favorecer a atenção dos portugueses, pelo menos: -nh, -lh… Seria maravilhoso ver Corunha escrito assim… E não seria tão difícil, decerto.

A respeito desta “sorte” galega, ainda há muitos que estão nesse “reducionismo”, sem saber dos mundos que têm abertos à sua frente. Um enquadramento idóneo entre o mundo hispano e o mundo lusófono. Isto não se dá em parte nenhuma.
É verdade, e apesar de o número de falantes não o ser tudo, é absurdo não aproveitar essa imensa oportunidade. Não podemos olhar só para “nós próprios” e não querer aperceber-nos de como falam os outros, da variedade. Falta alguma pedagogia, falta aceitar a variação. Continuamos a pensar que uma língua é uma coisa bem definida, que não pode variar. Dois caminhos diferentes, mas o resultado, quer na Galiza, quer em Portugal, acaba por ser o mesmo: fecharmo-nos todos muito.

O Marco é membro do nosso Conselho Editorial, desta aposta por um jornalismo atlântico. Como entender o potencial de uma iniciativa assim?
Efetivamente, jornalismo em conjunto, dos dois lados. Não se limita o De Norte a Sul a falar disto: trata-se de mostrar que é possível fazer jornalismo fantástico, no mesmo espaço, com parcerias de um lado e outro, pensamentos partilhados…

Sem estarmos o dia todo a falar só de línguas…
Isso mesmo, num mundo ideal não tínhamos de estar a discutir se é ou não a mesma língua. Simplesmente, aproveitar o potencial, a proximidade que temos e que tantas vezes tem sido ignorada.

Como vai ser no futuro a sua participação no projeto?
Mal tenha regularidade e tempo, conto poder escrever alguma crónica. Espero que seja em breve. Enquanto não faço isso, falo do projeto para o visibilizar.

Para concluir, se pudesse desfazer um preconceito sobre a língua portuguesa, qual escolheria?
O de que há um povo, seja qual for, que fala muito bem português e os outros não.


Fotografia do autor: descendencias.pt

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