Ministério Público arquiva inquérito sobre o abate massivo de animais

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Investigação à polémica montaria de 2020 na Azambuja foi encerrada sem responsáveis identificados devido ao “código de silêncio” mantido pelos intervenientes. O Ministério Público decidiu arquivar o inquérito ao caso ao concluir que não existirem indícios suficientes da prática do crime de dano contra a natureza.

Redação |

O episódio remonta a dezembro de 2020, na Herdade da Torre Bela, altura em que a divulgação de fotografias nas redes sociais gerou uma vaga de indignação nacional e internacional. Nas imagens, dezenas de caçadores surgiam sorridentes ao lado de cerca de 500 animais mortos alinhados no chão — designadamente veados, gamos e javalis.

Apesar de reconhecer que foi abatido um número relevante de animais, o Ministério Público sublinha no despacho que as espécies em causa não eram protegidas por lei, motivo pelo qual a conduta não preenche os requisitos do crime em investigação.

Segundo o despacho de arquivamento, as investigações foram fortemente condicionadas por um “código de silêncio” entre os envolvidos. A justiça nunca conseguiu identificar a maioria dos autores dos disparos nem ouvir Mariano Morales, o empresário espanhol responsável pela Monteros de la Cabra, empresa organizadora do evento que se descrevia publicamente como defensora da “ética na caça“.

Diferenciando-se claramente das rurais, as montarias elitistas em Espanha representam a vertente mais exclusiva, restrita e de maior poder aquisitivo de todo o setor cinegético. Na prática, estas jornadas funcionam como clubes de negócios itinerantes, combinados com experiências de hospitalidade de cinco estrelas no interior de grandes latifúndios privados.

A Estremadura, Castela-Mancha e a Andaluzia consolidaram-se como os epicentros do luxo cinegético, regiões onde o elitismo do sector se define estritamente pela exclusividade, garantia de resultados e privacidade. Devido ao estatuto dos assistentes, estas jornadas funcionam sob estritos contratos de confidencialidade, sendo proibido o uso de telemóveis ou fotografias.

O funcionamento financeiro e operacional deste mercado baseia-se em custos elevados, que oscilam entre os 3.000 € e mais de 12.000 € por caçador, dependendo da densidade de animais e da qualidade dos troféus. Além disso, estas montarias desenvolvem-se quase exclusivamente em grandes propriedades privadas vedadas, uma característica que permite gerir a pureza genética das espécies e garantir um número mínimo de capturas por posto.

O perfil do cliente que frequenta este ambiente é composto por grandes empresários e financeiros, membros da aristocracia, ou dirigentes internacionais, os quais utilizam frequentemente a montaria como uma ferramenta estratégica de relações públicas e diplomacia corporativa. É habitual que em determinadas montarias participem também figuras do toureio, desportistas e personalidades da televisão, cinema e entretenimento.

O preço destas montarias não cobre apenas o direito ao tiro, mas sim toda uma infraestrutura logística de luxo montada para o cliente. No terreno, cada caçador dispõe de pessoal qualificado que o assiste, recarrega as armas, avista as peças e marca o local exato onde caem os animais.

O conforto estende-se à gastronomia, com os tradicionais pequenos-almoços e almoços de montaria a serem substituídos por tendas climatizadas a meio do monte, onde operam chefes profissionais, cortadores de presunto ibérico de bolota e vinhos de caves exclusivas.

Ao finalizar a jornada, equipas profissionais de veterinários e taxidermistas, recolhem os troféus no campo de tiro para a sua posterior preparação e envio para o país de origem do cliente.


Fotografia: Redes Sociais Monteros de la Cabra

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