Conheci o poeta Reginald Dwayne Betts aos poucos, como se houvesse ali um conceito demasiado revolucionário a precisar de ser recebido em doses devagarinhas.
Certa vez criminoso, depois recluso, agora advogado de formação, mas também ativista e sobretudo poeta, constrói a sua poesia em torno da experiência da vida. A sua experiência, antes de qualquer outra, mas também a da condição humana no sentido mais amplo, abraçando o erro, a identidade, o questionamento, a memória, a sobrevivência, a redenção. Mas escrever poemas não é o único caminho por onde Dwayne Betts vive a poesia: ele também é bibliotecário.
O meu primeiro contacto, que é como dizer a primeira dose, aconteceu há alguns anos, a propósito de uma notícia no “The Guardian”, sobre um ex-recluso norte-americano que, uma vez cumprida a pena e recuperada a liberdade, entregou toda a energia e inteligência – ambas em excelente quantidade e qualidade – a conceber e pôr de pé um plano tão notável quanto revolucionário: apetrechar todos os estabelecimentos prisionais dos Estados Unidos com pequenas bibliotecas de livre acesso, colocadas nos espaços comuns de cada bloco, em estantes desenhadas para permitir a aproximação de vários leitores em simultâneo e equipadas com livros novos.
O projeto fundado em 2020 com o nome “Freedom Reads”, assenta na ideia de que a liberdade começa com um livro. A revelação de tudo o que pode caber no reino da possibilidade, a ideia de futuro e de regresso, a compreensão mais inteira da justiça e a assunção da dignidade começam com um livro.
Para Dwayne Betts esse livro único foi “The Black Poets” organizado por Dudley Randall. Um pequeno milagre de salvação que clandestinamente deslizou por debaixo da porta da cela onde, com dezassete anos de idade, cumpria um castigo de nove meses em confinamento solitário. A antologia organizada Randall, com primeira edição de 1971, reúne um largo conjunto de textos da chamada black-american poetry, desde as canções que os escravos entoavam no embalo do trabalho e da esperança, à produção lírica mais recente, abordando as questões políticas e as tensões raciais, mas também o amor, o quotidiano, a condição humana.
Consigo ver o jovem Reginald, encurralado num canto escuro do mundo e perdido para dentro de si próprio, equilibrando-se numa ideia de caminho através das palavras daquele livro, encontrando-se nos sonhos de liberdade cantados tanto tempo antes e tão longe dali, imaginando-se de regresso a uma rotina vulgar, a uma casa sem vigilância ou ameaça, com família e vizinhos e portas que se abrem a qualquer hora do dia. Consigo perceber o impacto da leitura da poesia do próprio Dudley Randall, abrindo a possibilidade de um gesto de liberdade onde nenhuma outra liberdade era possível.
A poet writes about what he feels, what agitates his heart and sets his pen in motion. – escreve Randall. / A poet is not a jukebox for someone to shove a quarter in his ear / and get the tune they want to hear, / […] A poet is not a jukebox. / So don’t tell me what to write.
Dwayne Betts leu e aquele livro foi o seu começo de liberdade. Depois leu mais. Leu muito. Leu tudo o que havia para ler e, eventualmente, começou a escrever. A escrever de maneira compulsiva, todos os dias, encontrando palavras para o que sentia, o que lhe agitava o coração, o que o movia a pegar na caneta.
O meu segundo contacto foi precisamente com a poesia do já ex-recluso e poeta Dwayne Betts, nas leituras de “Fellon”, publicado em 2019, e de “Doggerel”, de 2025. Chegaram-me às mãos quase em simultâneo, a pretexto de uma oficina de tradução colaborativa de um conjunto de poemas do último título – Doggerel –, uma atividade integrada no âmbito do Festival Literário Babell, que teve lugar no Porto em junho deste ano, e que juntou nas salas do Clube Fenianos Portuenses um conjunto de oito felizes tradutores – a saber: Fátima Vieira, Gualter Cunha, Miguel Ramalhete, Rui Amaral Mendes, Rui Carvalho Homem, Rosa Alice Branco, Zulmira Castanheira e eu. Para mim, foi como se tudo tivesse partido desse livro que era, agora, o meu começo de algo novo. É impressionante como a poesia mantém esse mistério de trazer nas palavras do outro, um outro tão diferente e tão longínquo, a centelha de um reconhecimento universal, de uma identificação e de uma empatia que abalam sempre, que fazem sempre pensar a partir de um perspetiva nova e inesperada.
Penso que o ponto de contacto talvez tenha sido a total candura da escrita. o tom desassombrado e despretensioso, a facilidade de entrega das palavras ao pensamento sobre as coisas mais simples, as mais importantes também. You ask me how I’m doing – diz o poeta – / & I realize there are not enough / Words for joy in this language, /Not like the German, where a man / Can whisper a phrase for relief / That roughly translates to / It felt like a stone falling from / My heart. The g–ds must not / Know the things I’ve wanted in this / World.
E a candura que respira na poesia, respira também na pessoa, na voz, na forma como Dwayne Betts se move no espaço à sua volta e partilha a sua história de vida, as coisas que foi aprendendo e aquelas com que ainda se debate, os seu projetos e, naturalmente, os seus poemas.
Este foi o meu terceiro contacto, pelos dias do Babell, quando o poeta e ativista Reginald Dwayne Betts se juntou aos seus colaborativos tradutores, que – numa sessão belíssima em que eu desgraçadamente não pude estar presente – tiveram a oportunidade de ler alguns dos poemas traduzidos durante as oficinas e, assim, devolver ao poeta a sua própria poesia, com as palavras, os sons e os sentidos de uma outra língua. Veio juntar-se, também, aos leitores e escutadores que o vieram ver numa muitíssimo cheia Praça dos Leões, tudo isto umas horas depois de o poeta ter chegado de Lisboa, aonde tinha ido aterrar por engano, um engano que me fez sorrir e sentir mais compreendida e acompanhada.
Na verdade, penso que este sentimento de compreensão e de companhia será o elemento mais significativo, não só da poesia, mas também do percurso cívico de Dwayne Betts. Seria inquestionavelmente uma boa história de vida, a de um adolescente de dezasseis anos que é julgado como adulto por um crime de roubo de um carro à mão armada e condenado a uma pena de nove anos de cadeia. Um jovem que se agarra à poesia como a um bote salva-vidas, consome-a e pratica-a como se ela fosse a fonte da redenção, sobrevive e regressa à liberdade para reconstruir a vida. Esta narrativa é, por si só, inspiradora que baste para justificar as quase mil pessoas que se reuniram para o escutar. Mas talvez o ingrediente mais poético do seu percurso seja a transformação da sua experiência, do seu pensamento e da sua arte, num conjunto de ações concretas inspiradas no passado, mas focadas no futuro, nascidas da vivência de um indivíduo, mas dedicadas a mudar as vidas de muitos outros. Tudo isto utilizando essas ferramentas poderosíssimas que são os livro e a mensagem “Tu não estás sozinho. Eu compreendo-te e eu acompanho-te”.
Já passaram quase cinco anos desde a publicação da notícia do “The Guardian”. A “Freedom Reads” é hoje uma pujante organização sem fins lucrativos que tem vindo a trabalhar e a crescer, a ganhar notoriedade e a receber apoio, a integrar mais elementos numa equipa multifacetada. Conta – ao dia de hoje – com 671 bibliotecas instaladas em 63 estabelecimentos prisionais espalhados por 15 estados dos Estados Unidos, promove centenas de palestras e sessões de leitura de poesia, anima dezenas de clubes de leitura e promove oficinas e concursos de escrita junto das comunidades de reclusos. Debate temas relacionados com a justiça e a responsabilidade cívica, fomenta a experimentação e a criação literárias e artísticas como lugares de intervenção política e de transformação humana, de dignidade e de reconstrução. Um projeto que nasceu da experiência de Dwayne Betts e que é já muito maior do que ele, carregando mais leitores, mais vidas em processo de transformação, mais possibilidades de caminho livre e mais olhares sobre a esperança. Um caminho que começa com um livro e onde ninguém segue sozinho.
Fotografia: DwayneBetts e RaquelPatriarca ©DanielMordzinski





