Mudam-se os tempos, mudam-se as letras das canções

   Tempo de leitura: 8 minutos

A música popular é frequentemente entendida como um território sem propriedade — algo raro nos tempos de hoje, em que até a água, as praias e a terra têm dono. A canção tradicional não pode ser privatizada: qualquer pessoa, sabendo música ou não, pode inventar uma cantiga que, através da tradição oral, passa de geração em geração.

No fado, nas desgarradas, nas regueifas e nos bailes galegos, a mesma canção podia ser alterada, misturada e transformada, tanto como desafio artístico como enquanto forma de pensamento, desabafo e protesto. Hoje, porém, este movimento é considerado controverso. Vários projetos musicais e coros de música tradicional alteram letras populares para eliminar expressões e contextos machistas, racistas, patriarcais e fascistas, tanto na Galiza como em Portugal. Parte da esfera pública vê este gesto como um ultraje, como um apagar da História, outra parte considera-o um avanço social.

A pergunta que permanece é simples: alterar a letra de um canto popular será desrespeitar a tradição e a ancestralidade? Será um ato de censura ou um instrumento de mudança?

Os grupos populares que trabalham a canção tradicional — sobretudo os ligados ao folclore — procuram transmitir este património repetindo canções, figurinos e tradições o mais próximo possível da recolha original, partindo da premissa de que só assim a cultura não desaparece.

Mas será que repetir exatamente o mesmo de há sessenta anos é benéfico para o futuro? O que é, afinal, a cultura de um tempo? Como dialogam a cultura de ontem e a cultura de hoje?

Tomemos o exemplo de Salazar, o tenebroso ditador português. Faço questão de utilizar o adjetivo “tenebroso”, porque hoje existe uma tendência digital que procura suavizar a ditadura, afirmando que Salazar “até era um ditador leve”, quase “fofinho”, comparado com Franco ou Hitler. É curioso aceitarmos a palavra “ditador” como algo normativo e discutirmos apenas a quantidade de mal que um governante pode fazer. Seguindo essa lógica, poderíamos também ouvir frases como: “Foi violador, mas não lhe bateu” ou “Foi assassino, mas deu poucas facadas”. Eis a força das palavras: há que cuidar delas.

Salazar utilizava o folclore para construir a imagem de um povo feliz a cantar nos campos, quando, na realidade, esse mesmo povo viveu ostracizado e explorado durante 50 anos. Sabemos igualmente que o regime aceitava o canto apenas no campo e não nas ruas; recorde-se que o ajuntamento de mais de três pessoas podia constituir crime.

Vários estudos científicos, como Sons do Império, Vozes do Cipale (Cristina Valentim, 2021), demonstram que, nos territórios colonizados, o canto era permitido nos campos porque o ritmo do trabalho aumentava a produtividade. A cantar, escravos e presos trabalhavam mais e mais depressa. Enquanto isso, José Afonso e outros cantores eram perseguidos, estudantes eram enviados para a guerra, havia censura sobre livros, rádios, festas, concertos e escritores, incluindo figuras como Natália Correia e Rosalia de Castro.

O Cante Alentejano, por exemplo, transformou-se num ato político e num canto de protesto popular através das letras criadas durante a ditadura e após o 25 de Abril.

Tudo isto demonstra a força das palavras e a forma como elas podem transformar uma sociedade inteira, provocar revoluções ou alimentar ditaduras. Até ao século XVIII, a esmagadora maioria dos autores publicados e reconhecidos eram homens e muitas mulheres escreviam anonimamente ou sob pseudónimos masculinos. Eram os homens que escreviam sobre as mulheres — não em biografias, mas em ficção, poesia e literatura.
A ficção transmitida de século em século ajudou a consolidar imagens femininas que ainda hoje persistem e que Simone de Beauvoir sintetizou em O Segundo Sexo: a mulher como: mãe; virgem; feiticeira; prostituta; femme fatale; musa.

A “ideia de mulher” foi, em grande medida, uma construção histórica masculina, imortalizada nos livros e repetida ao longo dos séculos. Não acontecerá o mesmo com as canções?
Deixo alguns exemplos de letras populares para reflexão.

Portugal

“Se eu fosse um ladrão,
roubava aquela menina,
roubava a filha ao rei,
deixava-a desgraçadinha.
Deixava-a desgraçadinha,
deixava-a no mundo só.
Tem pena, meu amor, tem pena,
tem pena, meu amor, tem dó.”

“Ó prima, ó prima, ó rica,
deixa-me ir dormir contigo.
Uma noite não é nada,
eu entro pelo escuro,
saio pela madrugada.
— Nem entras pelo escuro,
nem sais pela madrugada.
Eu sou rapariga nova,
não quero ser difamada.”

Galiza1

“Não me toques no refaixo
e se me queres tocar
mete-me a mão por debaixo,
ailalelo, ailalalo.
Arde-lhe o eixo, arde-lhe o carro,
arde-lhe o eixo, há que molhá-lo,
há que molhá-lo, há que molhá-lo,
arde-lhe o eixo, arde-lhe o carro.”

“Como te colha no prado,
como te colhim mais vezes,
hei-che de meter no corpo
erva para nove meses,
ailalelo, ailalalo…”

“Moreninha por morena
tenho-che o olho botado,
hás de ser minha mulher
ou não hei de ser casado.”

Como dizia José Mário Branco, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Cada vez mais projetos musicais, como Crua, em Portugal, ou Erikas e Peluxias, na Galiza, optam por alterar letras tradicionais como estratégia de atualização social e política. Mantêm-se as melodias-base, a técnica, a sonoridade cultural e as regras poéticas da tradição oral de cada região, mas transformam-se palavras e sentidos.

Na minha perspetiva, isso também é respeitar a ancestralidade — respeitar as nossas avós, mulheres que mereciam ter sido livres, com direito ao trabalho, à dignidade e a uma vida sem violência nem censura.

Não poderá esta renovação ser, afinal, um grito de revolta e uma afirmação de liberdade que homenageia a ancestralidade e afirma o lugar das mulheres de hoje?

Deixo ainda outras cantigas antigas que revelam, simultaneamente, a cultura de um tempo e a dimensão interventiva da música popular.

Portugal

“Ó minha mãe, minha mãe,
que tristeza é ser mulher:
se é bonita tem má fama,
se é feia ninguém a quer.”

“Ó minha mãe dos trabalhos,
para quem trabalho eu?
Trabalho, mato o meu corpo,
não tenho nada de meu.
Diz-me lá, patrão António,
que triste pensar o réu:
se não mudares de sentido,
morres tu e morro eu.”

Minha mãe chamou-me Rosa,
e eu Rosa não quero ser.
Batizei-me por Maria,
sou Maria até morrer.
Minha mãe não quer que eu fale
para o Chiquinho moleiro,
e eu falo e hei de falar:
é o meu amor primeiro.”

Galiza

“Uma velha no tempo dos mouros
fijo
2 do c* uma praça de touros,
e fijo bem, e fijo bem,
no c* da velha não manda ninguém.
Uma velha por falta dum macho
meteu pola c*na um mango dum sacho,
e fijo bem, e fijo bem,
na c*na da velha não manda ninguém.
Uma velha no tempo dos celtas
fijo das tetas duas metralletas,
e fijo bem, e fijo bem,
nas tetas da velha não manda ninguém.

Uma velha nos tempos de antes
fijo da c*na um par de tirantes,
e fijo bem, e fijo bem,
na c*na da velha não manda ninguém.
Uma velha nos tempos de agora
fijo da c*na uma lavadora,
e fijo bem, e fijo bem,
na c*na da velha não manda ninguém.”

Termino com um exemplo conhecido do Cante Alentejano, cuja letra sofreu pequenas alterações em versões contemporâneas. Deixamos apenas o refrão para verem as diferenças.

“Ceifeira” — Recolha tradicional
“Ceifeira, linda ceifeira,
eu hei de casar contigo,
lá nos campos, secos campos,
à calma ceifando o trigo.
À calma ceifando o trigo,
pela força do calor,
ceifeira, linda ceifeira,
hás-de ser o meu amor.”

“Ceifeira” — Reinterpretação contemporânea
“Ceifeira, brava ceifeira,
eu hei de cantar contigo,
lá nos campos, secos campos,
à calma ceifando o trigo.
À calma ceifando o trigo,
pela força do calor,
ceifeira, brava ceifeira,
com as mãos colhes amor.”

Concluo dizendo que já cantei esta versão em espaços urbanos e rurais, no Alentejo e em Lisboa, encontrando frequentemente outras pessoas e coros que também a conhecem. E, muitas vezes, até nós — atentos à mudança — continuamos a cantar automaticamente “casar contigo”. É aí que percebemos como o hábito molda a linguagem e como as palavras transportam séculos de repetição.

As palavras podem aprisionar se não lhes dermos atenção e se não lhes permitirmos crescer, como assim deve crescer uma criança. Que saibamos ser mães e pais de um futuro melhor, desde a poesia até às leis constitucionais.
Por isso afirmo: Ancestralidade o c*….!!


  1. Os textos das cantigas galegas foram adaptados para português moderno pela nossa redação ↩︎
  2. (ela) fijo= (ela) fez ↩︎
Share