Lucro de 4,7M de dólares em apostas no jogo do mundial levanta suspeitas
Redação |
Enquanto a FIFA encerrou o torneio declarando ausência total de suspeitas, um relatório do Grupo de Copenhaga revelou sete alertas. A investigação expôs apostas de milhões de dólares no Espanha–Cabo Verde e o desafio colocado por plataformas como a Polymarket.
O Grupo de Copenhaga – criado sob a alçada do Conselho da Europa para prevenir e combater a viciação de resultados – logo da sua monitorização do torneio, emitiu sete alertas referentes a anomalias severas e fluxos atípicos nos mercados globais de apostas.
Estes alertas fundamentam-se na Convenção de Macolin, o único tratado jurídico internacional vinculativo concebido para combater o match-fixing. Também promovido pelo Conselho da Europa e aberto a estados de todo o mundo, este instrumento facilita a troca de dados e exige sanções criminais rigorosas contra a manipulação de competições desportivas.
Os detalhes do relatório do Grupo de Copenhaga vieram a lume através de uma investigação do The Athletic – publicação integrada no The New York Times. De acordo com a documentação revelada pela publicação, o caso mais estrondoso desenrolou-se durante o confronto entre as seleções espanhola e cabo-verdiana.
À entrada para a partida, o favoritismo da Espanha era esmagador, com as casas de apostas a fixarem as suas odds em cerca de 1.09 e a plataforma de mercados de predição Polymarket a atribuir-lhe uma probabilidade de vitória de 92%. Contudo, a monitorização registou uma movimentação financeira altamente desproporcional direcionada contra a vitória da Espanha na Polymarket.
Uma conta operada sob o pseudónimo fishalive, investiu 4,27 milhões de dólares em posições que apostavam que a seleção espanhola não ganharia o jogo. A conta comprou essas posições a um preço 9 cêntimos, o que traduzia uma probabilidade atribuída pelo mercado inferior a 9%. Com o empate no marcador, o perfil fishalive acumulou um lucro líquido de $4.702.769,23. Imediatamente após a liquidação, o utilizador procedeu ao levantamento integral dos fundos e ao esvaziamento total da conta.
Em sentido oposto, a investigação apurou que outro apostador colocou cerca de 1 milhão de dólares na vitória espanhola para tentar capturar um rendimento modesto de escassos milhares de dólares, vendo a sua aposta ser pulverizada com o empate final.
O facto de um operador arriscar mais de 4 milhões de dólares num desfecho altamente improvável disparou os alarmes de risco do Grupo de Copenhaga, levantando suspeitas sobre o eventual uso de informação privilegiada ou manipulação do valor de mercado.
Acresce a esta equação a natureza pseudónima da tecnologia blockchain sobre a qual a Polymarket opera, o que torna a identificação do titular e o rastreio da origem do capital um desafio mais complexo do que nos canais regulados convencionais.
Os perigos dos novos mercados de predição
Este Campeonato marcou o início da monitorização sistemática e em tempo real efetuada pelo Grupo de Copenhaga e pelas Plataformas Nacionais a mercados de predição descentralizados baseados em criptomoedas, como a Polymarket. Esta análise inédita focou-se em plataformas que permitem negociar contratos sobre acontecimentos políticos, económicos ou desportivos sem a intermediação bancária tradicional.
O relatório do Grupo de Copenhaga adverte que este tipo de plataformas introduzem complexidade e risco, ao facilitarem a criação de apostas fracionadas e direcionadas a microeventos específicos fora do alcance regulatório do setor de apostas.
No cômputo geral, o volume financeiro movimentado ascendeu aos 240 mil milhões de dólares, valor que duplica o registado no torneio do Catar. Dos 104 jogos disputados, 15 estiveram sob vigilância reforçada e 12 controvérsias de integridade foram submetidas a uma auditoria profunda.
Apesar da gravidade dos dados recolhidos, o especialista em integridade desportiva Christian Kalb, ouvido na investigação do The Athletic, fez questão de ressalvar o alcance técnico destas conclusões: a emissão de um alerta é um mecanismo de prevenção e troca de dados que não equivale à prova de crime.
Na opinião de Kalb, existem múltiplas razões operacionais, flutuações e estratégias legítimas de gestão de risco por parte dos operadores que podem justificar comportamentos atípicos de mercado sem que haja cumplicidade de intervenientes no terreno de jogo.
Sem processos disciplinares instaurados até à data, o relatório do Grupo de Copenhaga deixa, ainda assim, um aviso claro sobre as vulnerabilidades do futebol perante as novas fronteiras do mercado financeiro e digital.
Fotografia: Adidas





