Tecno-logos e datacracia

Cada época produz as suas próprias formas de racionalidade. Durante séculos, as sociedades ocidentais depositaram a sua confiança na razão humana como instância encarregada de interpretar a realidade e orientar a ação individual e coletiva. Hoje, porém, parece estar a emergir uma nova forma de racionalidade, um tecno-logos baseado na capacidade dos sistemas digitais e da inteligência artificial para analisar a informação, realizar previsões e prescrever os comportamentos. Cada vez com maior frequência, são os algoritmos que nos indicam que conteúdos consumir, que rota seguir, que produto comprar ou que decisões são as mais convenientes. A sua presença estende-se também …

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Educação sexual

Constata-se que, enquanto a agressão machista – verbal, emocional, afetiva ou física – continua, e as dificuldades das mulheres em alcançar uma igualdade efetiva de direitos e reconhecimento no local de trabalho persistem, proliferam discursos que defendem que o feminismo foi longe demais. Abundam as referências ao «supremacismo feminista», denuncia-se a suposta discriminação positiva e difunde-se até a ideia de que as mulheres se aproveitam das regras através de falsas acusações ou exagerando comportamentos considerados «inocentes». Ao mesmo tempo, o binarismo de género e a defesa dos papéis tradicionais associados à masculinidade e feminilidade clássicas estão a registar um forte …

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pintura rupestre a Preto e Branco com mãos humanas de muitos tamanhos e cores

Nós-outros

Uma das ideias eixo —profundamente enraizadas e incontestadas— sobre as quais se sustenta e gira o neoliberalismo, entendido não apenas como modo de produção dominante, mas também como paradigma cultural hegemónico —e que, nessa medida, impregna o conjunto de representações, normas e valores a partir dos quais se pensa, se age e se decide— é a de indivíduo. Isto é, a crença de que cada ser humano é uma entidade separada e distinta das outras, e que, além de ser íntegra, unitária e coerente, dispõe de si mesma, sendo, por isso, autónoma, racional e consciente. O indivíduo —literalmente, “não dividido”— …

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prometeu pensativo com um dedo no lábio

Pós-humanismo

No âmbito do pensamento contemporâneo foi ganhando peso, ao longo das últimas décadas, uma crítica profunda à noção de “humano” construída pela tradição ocidental. Torna-se cada vez mais evidente que essa ideia, apresentada historicamente como universal e neutra, funcionou na realidade como um modelo restritivo que deixou de fora múltiplas formas de existência e experiência. A partir desta constatação emerge o que hoje conhecemos como pós-humanismo: uma corrente plural que, na falta de um termo mais preciso, recorre ao prefixo “pós” para indicar não tanto a superação do humano, mas a revisão crítica da sua definição. Entre as suas figuras …

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ressonância aquática

Anomia e ressonância

Num contexto como o atual, atravessado por conflitos armados e ameaças globais, pelo aumento da desigualdade sócio-económica e pela crise ecológica, ao qual se somam as disrupções tecnológicas e a ascensão da extrema-direita violenta e reacionária, cresce uma sensação difusa de anomia, de perda de referentes, de impotência e de cansaço vital. Também uma forma de alienação que se manifesta ao viver de modo automático, executando ações que ninguém nos obriga a realizar mas que tampouco desejamos, ou levando um estilo de vida no qual já não nos reconhecemos. Neste cenário, a pergunta pela “boa vida” — por uma vida …

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Iconografia da Mão de Deus, dourada a sair dum círculo Branco rodeado de um círculo lilás e outro vermelho sobre fundo castanho

Não ser Deus

Um dos leitmotiv mais persistentes da tradição cultural ocidental sustenta que, se não há Deus, tudo é permitido. A fórmula — atribuída a Dostoiévski e repetida até à exaustão — condensa a convicção segundo a qual apenas a existência de uma instância suprema, de um fundamento último, poderia garantir a ordem da realidade, do conhecimento e da moral. Sem esse ponto de apoio absoluto, diz-se, a humanidade ficaria exposta ao caos, ao niilismo e ao relativismo ético e epistemológico. No entanto, a história oferece motivos mais do que suficientes para desconfiar dessa premissa. Pois sob a ideia de uma ordem …

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