Redação |
Afastando-se da influência francesa e aprofundando o eixo de soberania com Mali e Níger, Burkina Fasso, está a ser palco de uma intensa transformação. O governo militar de transição está a concentrar esforços na segurança interna, na recuperação dos recursos nacionais e na afirmação de um novo bloco regional.
A tónica do governo sob a liderança do capitão Ibrahim Traoré, reside na soberania económica, refletindo a herança do ex-presidente revolucionário Thomas Sankara. Recentemente, foram revogadas licenças de mineração estrangeiras de ouro e reforçada a legislação mineira para garantir que o Estado beneficie de uma quota-parte substancial dos lucros. Com estas medidas estão a romper com o controlo anterior exercido por empresas francesas, americanas e canadianas. Este esforço é fundamental, dado que o ouro é um dos principais recursos de Burkina Faso.
Em paralelo, a aposta na soberania energética tem sido um dos desenvolvimentos mais notáveis. Em parceria com a Rússia, o Ministério da Energia, Minas e Pedreiras assinou um acordo para a construção de uma central nuclear. O projeto visa duplicar a produção de eletricidade do país até 2030, um passo crucial para o desenvolvimento industrial e para combater a pobreza energética. O governo também está a investir na indústria ferroviária para reduzir a dependência de importações, e alocando quantidades significativas de dinheiro a uma empresa estatal para produção de vagões e peças.
Contudo, a principal frente de batalha continua a ser contra a insegurança que já levou a milhares de mortes e a uma crise de deslocados internos. Burkina Faso, um dos países do Sahel mais afetados pela violência jihadista, reorganizou as suas forças de defesa e segurança, recrutando milhares de novos oficiais e adquirindo equipamento militar moderno de novos parceiros como a Turquia e a Rússia.
No plano externo, a aliança com Mali e Níger, formalizada na Aliança dos Estados do Sahel, tem ganhado corpo. Os três países, governados por juntas militares, anunciaram em janeiro de 2025 a sua retirada da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental. A Aliança procura estabelecer uma nova ordem regional que visa reduzir a dependência financeira externa através da criação de um banco de desenvolvimento próprio e da coordenação das políticas económicas e de defesa. O trio também tem denunciado organismos internacionais, como o Tribunal Penal Internacional, acusando-os de “justiça seletiva” e de serem instrumentos neocoloniais.
O governo também revogou o estatuto do francês como língua oficial. A decisão, tomada pela Assembleia Nacional de Transição, consagra as línguas nacionais como oficiais, relegando o francês para o estatuto de língua de trabalho. Esta alteração faz parte de um movimento anticolonial mais amplo no país e na região do Sahel, visando romper com o legado colonial francês.
Apesar dos avanços e do apoio popular que Ibrahim Traoré desfruta, o Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos manifestou em Março a sua preocupação com a situação no país, denunciando um número alarmante de violações e abusos. Paralelamente, o governo aprovou uma lei que penaliza a homossexualidade com penas de prisão, gerando grande controvérsia internacional. Tais medidas refletem a complexidade do atual regime, que equilibra o fervor soberanista e a luta contra o imperialismo com o reforço do controlo interno.

