Decidi tratar-te por tu. Talvez só amigos e família estejam a ler isto, mas se não couberes nessas categorias, então desculpa a confiança. Gosto de ver na pessoa a que me dirijo exatamente a pessoa a que me dirijo. Não aquilo que me disseram dela, nem aquilo que eu tenha imaginado. Afinal, mesmo que não te conheça, serás um ser humano, em toda a sua completude. Eu quero imaginar-te como ser complexo, e só consigo fazê-lo se te imaginar mais perto.
Gosto bastante de pensar na natureza da linguagem. Se estivesse a dizer isto de qualquer outra pessoa, poderia estar a caracterizá-la, indicando uma rareza que a identifique. Suponho que em parte também estou a fazê-lo a falar de mim. Mas na confiança que espero que nos dê a proximidade, aspiro a que sintas alguma cumplicidade. E, aqui entre nós, às vezes impressiona-me a maneira como a gramática mais elementar tem implícitos os conceitos filosóficos mais fundos. Por exemplo, a pessoa.
Tu e eu podemos ser mulheres ou homens, gentes que se identificam como não binárias, ou simplesmente não se identificam com nada. Mas eu é sempre eu, a pessoa que fala ou escreve, e tu és a pessoa para quem eu fala ou escreve. Talvez, até, aquela que também me fala ou escreve. Em qualquer ato de fala, é inevitável haver um eu e um tu. É claro que há identidades várias implícitas em todo o momento, mas não há nenhuma necessidade de fazê-las explícitas na linguagem: ou bem estão simplesmente à vista, ou perigosamente subentendidas.
A dêixis é a capacidade da linguagem para fazer referência ao seu contexto. Mas na verdade é a pessoa que cria esse contexto. A nossa própria vivência do tempo e do espaço estão profundamente atravessadas por ela. Dizermos uma palavra tão básica como “aqui” constrói um significado a partir do lugar em que tu e eu estamos. Se a conversa é cara a cara, poderá significar um lugar mais concreto, mas na língua escrita é normalmente um conceito mais vago, cultural, transido também de significados. Aqui é um espaço, sim, mas pode ser uma casa, uma cidade, um país, um planeta ou uma plataforma digital como esta.
E é ainda mais curioso o que acontece com o tempo. “Hoje” depende sempre do conceito “dia”, mas simplesmente “agora” pode abranger várias épocas históricas. O mais interessante é ver como é precisamente o eu, e também o tu, que criam os conceitos de passado, presente e futuro. E uma vez criados, é a pessoa que pode transitá-los.
O tu e o eu, nós, somos pessoas presentes na comunicação concreta, e é a partir dessa situação que se organiza todo o ato comunicativo. Ele, ela, élu, no entanto, são pessoas que não estão, ou simplesmente não participam na conversa. Não podem corrigir, serem sentidas, endereçadas. São, no fundo, um conceito, uma memória. Talvez sejam ideias mais complexas do que outras, mas neste sentido não passam de nomes, como o de qualquer outro objeto. A terceira pessoa é, por ausência, inanimada, e morrer também é, basicamente, passar à terceira pessoa.
Acho que não é por acaso que a terceira pessoa se semantiza, ganhando, por exemplo, uma flexão de género. Nas línguas que manejo, nada disso acontece nos pronomes pessoais da primeira ou da segunda pessoas. Há, no entanto, o assunto dos pronomes de tratamento. Está a questão da distância social entre interlocutores, e eu escolhi tratar-te por tu.
E depois há esses conceitos que mudam segundo a pessoa. Deus, por exemplo, na terceira pessoa, talvez não passe de uma ideia ridícula. Mas na segunda, ah! Na segunda pode ser a companhia infinita que o ser humano sempre busca. Mas nem por isso é indispensável. Não, indispensável não é deus. Indispensável és sempre tu.
A Luis Gonçalves Blasco, Foz, a Hervigio Vázquez e a José Pérez Recarei, que morreram durante a escrita deste artigo.





