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A chegada de milhares de jovens organizados por pastorais, paróquias e movimentos neoconservadores transforma o troço final do Caminho de Santiago num palco de combate ideológico, tensão urbana e debate sobre a convivência. A presença massiva tornou-se um dos focos do debate sobre a utilização política do Caminho e o modelo turístico de Compostela.
Estes grupos chegam uniformizados com t-shirts identitárias, lenços ao pescoço, bandeiras de Espanha e símbolos religiosos. Protagonizam os denominados “meneos” (mexidas), caracterizados por uma dinâmica de grupo efusiva, ritmada e ruidosa e assume o formato de uma marcha triunfal. Os coros, palmas, altifalantes e cânticos entoados em tom de hino, transformam o final da caminhada numa afirmação identitária. Assim, o que para uns parece apenas expressão pública da fé católica de certa juventude, para outros faz parte de uma batalha cultural e uma ocupação desregrada dos espaços da cidade .
Estas vagas de jovens chegam integradas em estruturas hierarquizadas e coordenadas, dividindo-se em dois grandes perfis organizativos.
Por um lado, encontram-se as estruturas diocesanas e pastorais da juventude, promovidas por delegações de várias dioceses espanholas às que se somam iniciativas impulsionadas por conferências episcopais do resto da Europa. Estas expedições variam entre 50 e mais de 1.000 jovens e marcham sob a supervisão de sacerdotes, monitores e catequistas.
Por outro lado, ganha cada vez mais visibilidade a presença de movimentos associados a correntes neoconservadoras e tradicionalistas católicas.
Entre os principais grupos estão o Hakuna, um movimento urbano de estética moderna e música pop-rock espiritual focado em jovens de classes média-alta; o Camino Neocatecumenal, conhecido como “Kikos”, focado em comunidades ultraconservadoras com forte coesão paroquial e famílias numerosas; o Regnum Christi, vinculado aos Legionários de Cristo e focado na formação de líderes de elite através de escolas de prestígio; o Fraternidad Sacerdotal San Pío X, grupo tradicionalista que rejeita o Concílio Vaticano II e destaca-se por posturas solenes e liturgia em latim; e o Opus Dei, que aposta na disciplina rigorosa, compostura e formação moral sob supervisão sacerdotal.
Apesar de variações estéticas que vão do dinamismo festivo à rigidez litúrgica, estes grupos partilham uma forte coesão identitária e refletem uma ocupação ideológica e moral das ruas de Compostela em contraste com a habitual vivência profana e diversificada no quotidiano da cidade.
A guerra cultural e o imaginário da Reconquista
A afluência destes grupos atinge o seu pico crítico durante os meses de julho e agosto. É nesse período que eventos de grande escala, como a Peregrinação Europeia de Jovens e os encontros da Jornada Mundial da Juventude, convertem o troço final do Caminho numa sucessão de marchas religiosas.
Porém, a análise deste fenómeno exige distinguir entre a presença institucional direta, a afinidade ideológico-cultural e a apropriação simbólica de um espaço de massas.
Na perspetiva do ultranacionalismo espanhol e para redes ultraconservadoras, Santiago “Matamoros” é historicamente o patrono da Espanha e a figura mítica associada à defesa do cristianismo contra a presença islâmica na Península Ibérica. Assim, Santiago de Compostela não seria apenas um destino espiritual, mas um símbolo da nacionalidade e das suas raízes greco-romanas e cristãs. Esta visão foi amplamente reforçada na retórica do regime franquista, que recorreu à ideia de ‘cruzada’ para reforçar o seu projeto ideológico.
A ocupação do espaço público por milhares de jovens que cantam, empunham cruzes e ostentam a sua fé abertamente é vista por estes setores ideológicos como uma batalha cultural contra a secularização, o progressismo, o multiculturalismo, os movimentos soberanistas e a ideologia de género.
A maioria destes jovens não se define formalmente como militante, mas integra contextos onde os limites sociológicos entre o conservadorismo religioso e a extrema direita política são fluidos. Trata-se do mesmo perfil demográfico em que o voto em opções neoconservadoras e de extrema direita encontra grande adesão.
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Créditos: Peregrinação Europeia de Jovens 2022 (PEJ22)






