Níveis de cancro na Praia da Vitória atingem 36,8% após décadas de poluição da base dos EUA. Estudo conclui que Cádmio, Cromo e Molibdénio encontrado em níveis elevados refletem uma exposição em vida decorrente da contaminação ambiental gerada pelas atividades militares.
Redação |
Uma tese de doutoramento em Antropologia Forense, reforça a ligação entre a poluição da Base das Lajes e os casos de cancro na ilha Terceira. A análise a esqueletos revelou que residentes da Praia da Vitória apresentavam níveis superiores de dez metais pesados face aos de Angra do Heroísmo, a apenas 23 km.
Décadas de fugas de combustível e relatórios divergentes
As redes de tanques e oleodutos da base aérea norte-americana das Lajes, capazes de armazenar milhões de litros de combustível, estão a deixar um rasto de contaminação. Estudos encomendados pelos EUA nos anos 2000 revelaram fugas de hidrocarbonetos, confirmando a poluição do solo e das águas subterrâneas.
Avaliações ambientais posteriores, divulgadas em 2008, alertaram para graves riscos à saúde pública e para o desenvolvimento de doenças cancerígenas e não cancerígenas na ilha. Este cenário gerou um forte alarme social, levando o Governo dos Açores a encomendar estudos próprios ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil e à Universidade dos Açores. Embora tenham detetado os mesmos poluentes, os relatórios divergiram nas concentrações e nas interpretações entre peritos americanos e portugueses.
Um rasto mortal nos dados estatísticos
A partir de 2020, com estes relatórios, alcançou-se um consenso: a contaminação ambiental na Praia da Vitória afeta águas subterrâneas e ameaça a saúde pública dentro e fora da base. A exposição a estes agentes está associada a graves patologias e a vários tipos de cancro. Os dados nacionais confirmam que, na Praia da Vitória, o cancro representa 36,8% de todas as mortes, frente aos 26,3% de Angra do Heroísmo e à média nacional de 22,1%.
Análise óssea confirma contaminação por metais pesados
Novas investigações e publicações científicas vieram reforçar o que os dados anteriores já indicavam. Um artigo publicado em março de 2025 na revista Biological Trace Element Research, intitulado “Medições Esqueléticas com pXRF como ferramenta de avaliação para exposição ambiental a contaminantes derivados do campo de Lajes”, serviu como garantia científica para a validação da tese de doutoramento defendida por Félix Rodrigues, em junho de 2026, no Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra.
Com o uso da tecnologia pXRF, os resultados do estudo e da tese de doutoramento demonstraram que as concentrações de metais e metaloides — como Antimónio, Arsénio, Cádmio, Cromo, Ouro, Molibdénio, Estrôncio, Estanho, Urânio e Zircónio — eram significativamente mais elevadas no grupo da Praia da Vitória
A origem dos poluentes: absorção biológica vs. efeito do solo
Para distinguir o que foi absorvido em vida do que resultou da alteração do osso no solo após a morte, a equipa analisou amostras do solo funerário e aplicou métodos estatísticos complexos como matriz de correlação de Pearson e Análise de Componentes Principais (PCA).
A análise concluiu que, embora a presença de elementos como o Arsénio e o Zircónio possa ser parcialmente atribuída à absorção natural a partir do solo dos cemitérios, elementos como o Cádmio, Cromo e Molibdénio em níveis elevados refletem uma exposição em vida decorrente da contaminação ambiental gerada pelas atividades militares.
Amostragem e dados estatísticos: 64 esqueletos analisados
Para avaliar, pela primeira vez, a exposição real da população aos contaminantes ambientais, este estudo recorreu à Primeira Coleção Esquelética Identificada dos Açores. Uma vez que os ossos humanos atuam como bio-reservatórios de metais e metaloides absorvidos em vida, a investigação comparou os restos de residentes de áreas expostas com os de zonas sem risco.
Para o estudo foram selecionados 64 esqueletos. Para a Angra do Heroísmo, foram analisados 44 indivíduos (52% homens e 48% mulheres), com média de idade de 70,6 anos. Já para a zona da Praia da Vitória, selecionaram-se 20 indivíduos (60% homens e 40% mulheres), com média de 72,1 anos ao morrer.
Todos os indivíduos analisados nasceram entre 1922 e 1984, permitindo cruzar dados demográficos com a avaliação de impactos ambientais e, para avaliar a contaminação pós-morte, analisaram-se 46 amostras de solo funerário com as mesmas especificações de pXRF.
Para distinguir a contaminação ocorrida em vida da absorvida do solo após a morte, a investigação cruzou os dados dos ossos com o solo funerário. O arsénio e o zircónio foram os únicos elementos com níveis elevados em ambos e com uma correlação direta entre si, indicando que a sua presença nos ossos resulta, em parte, da terra onde os corpos estiveram sepultados. Pelo contrário, a presença de cádmio, cromo e molibdénio apontam para uma absorção humana em vida.
Investigadores exigem biomonitorização da população viva
O artigo conclui enfatizando a urgência de realizar estudos de saúde direcionados para a população residente, os únicos capazes de esclarecer a exposição presente e os custos reais para a saúde pública.
Ao contrário do registo osteológico, os indivíduos vivos fornecem um acervo biográfico e comportamental muito mais detalhado, como a morada exata, o histórico profissional, diagnósticos clínicos prévios, a fonte de água consumida e a medicação habitual.
O cruzamento destes dados com biomonitorizações de sangue e urina — estendidas não apenas a metais, mas a outros contaminantes orgânicos — permitirá obter um diagnóstico global e preciso da situação ambiental na ilha.
Fotografias : Base Aérea no Campo das Lajes Wikimedia Commons | Fontanário no largo do Conde da Praia da Vitória Carlos M C da Cruz –Wikimedia Commons ,






