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A profissão de calceteiro enfrenta um risco real de extinção a curto ou médio prazo, com o envelhecimento dos trabalhadores, a falta de atratividade da carreira e a ausência de formação profissional a ameaçarem a conservação da calçada portuguesa.
Em declarações à Agência Lusa, o alerta foi deixado por António Prôa, secretário-geral da Associação Calçada Portuguesa, a propósito da celebração do primeiro Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa, assinalado na passada quarta-feira, 22 de julho.
Sem dados exatos sobre o número de profissionais no ativo em Portugal, a associação realizou um inquérito aos municípios do país que confirmou a redução progressiva de calceteiros nos quadros profissionais. A média de idades destes trabalhadores situa-se atualmente nos 55 anos.
“Corre o risco de extinção num prazo que não há de ser muito longo se o país nada fizer para reverter essa tendência”, advertiu António Prôa em declarações à Lusa. O responsável sublinhou que, embora existam algumas mulheres e imigrantes a tentar aprender o ofício, a adesão continua muito reduzida.
As duras condições físicas do trabalho — sujeito às intempéries e a posições desconfortáveis —, o baixo reconhecimento social e as remunerações reduzidas são apontados como as principais causas do declínio da profissão.
No setor público, onde a escassez é mais evidente, os calceteiros estão integrados na carreira geral de assistentes operacionais. Esta situação impede a diferenciação salarial entre um iniciante e um mestre calceteiro. “Isso levou-nos a fazer uma proposta ao Governo para criar uma carreira especial de calceteiro que permita a progressão e valorização em função da sua capacidade técnica”, explicou o dirigente.
No setor privado, o cenário divide-se entre mestres que trabalham por conta própria com rendimentos razoáveis e profissionais integrados em empresas de construção civil com baixos salários.
A quebra no interesse manifesta-se também na formação: apesar de existirem cerca de 20 unidades com competência para ministrar o curso, nos últimos quatro anos apenas 34 pessoas receberam certificação no país.
A escassez de mão de obra reflete-se diretamente na degradação e na manutenção do património urbano. A título de exemplo, a cidade de Lisboa, que na década de 1940 contava com 400 calceteiros nos seus quadros, dispõe hoje de apenas 18 profissionais.
Para mitigar a crise, a Associação Calçada Portuguesa defende a atribuição de um suplemento de insalubridade e penosidade aos calceteiros municipais, à semelhança do que já acontece com outras funções de exigência física.
O Governo anunciou em janeiro a criação de um grupo de trabalho dedicado ao tema, numa altura em que se aguarda a apreciação da candidatura do saber-fazer da calçada portuguesa a Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
Fotografia: Redes Sociais Associação Calçada Portuguesa





