Da boa influência no mundo (ou a segunda carta)

   Tempo de leitura: 8 minutos

Fala – dizia Eurípedes –, caso tenhas palavras mais fortes do que o silêncio… ou então, guarda o silêncio, mas é fácil, hoje, desobedecer-lhe e juntar as minhas palavras a tantas outras que, por esse mundo fora, falam e escrevem, festejando a mesma circunstância. Celebrámos, há poucos dias, o centésimo aniversário dessa maravilhosa pessoa que é Sir David Attenborough. O estar uma pessoa fisicamente presente nas festas do seu próprio centenário, é já um feito digno de nota mas, neste caso em particular, os cem anos que se celebram trazem tanto de riqueza, de sabedoria, de partilha, de maravilhamento, de esperança, que é difícil saber por onde começar a celebração.

Tenho pensado em como, para criaturas que, como eu, se passeiam pela magnífica barreira da meia-idade – uma barreira que bem podia ser formada por recifes de coral, mas é composta, afinal, por bolos de aniversário –, para criaturas que começaram a ver televisão a preto e branco, dizia eu, criaturas para quem o conceito muito moderno de influencer faz pouco ou nenhum sentido, é engraçado constatar que também nós tivemos os nossos elementos de influência, os nossos ídolos e as nossas fontes de inspiração. Nesse tempo, o mundo parecia mais simples – talvez a minha visão do mundo fosse mais simples, como a forma de vida de uma esponja-do-mar, ao revés de um mundo que sempre foi intrincadamente complexo –, e a simplicidade que me parecia ver estava, também, impregnada no trabalho dessas pessoas inspiradoras que se tornaram influências sem se anunciarem como tal, sem se entenderem como tal. Uma simplicidade despida do pretensiosismo, da inclinação natural para o aparente, o passageiro e a conversa vazia de conhecimento ou conteúdo que hoje associo a essa prática estranha do influenciar. Uma simplicidade despida, também, da preocupação com o número de seguidores, antes concentrada na qualidade do trabalho desenvolvido, na honestidade intelectual que se lhe entregava, e no respeito genuíno pelos destinatários de tudo.

A destinatária era, também, eu. Criança desassossegada, brincalhona e curiosa – como são todas as crianças em todos os tempos, semelhantes a todas as crias em todos os habitats do planeta – perdida das horas e dos lugares onde me coube crescer, viajante pelas mais inacreditáveis paisagens do mundo natural, levada pela mão deste senhor de voz doce e espírito encantado. E as viagens eram imensas e sempre inesperadas, de exploração do mundo, mas também de mim, da minha qualidade como ser humano e da minha qualidade como ser social. Conceitos como a colaboração entre diferentes espécies que permite ou torna mais confortável a sobrevivência de todos; a dedicação dos progenitores na defesa, proteção e alimentação das suas crias; a superação de inacreditáveis dificuldades para levar a cabo a migração de uma comunidade inteira para um novo território onde possa frutificar; a consciência de que todas as partes do mundo natural estão irremediavelmente interligadas, para o bem e para o mal, foram germinando em mim, criando raízes que ainda cá estão e crescendo comigo – como a semente de uma ceiba que se pousa e enterra no solo da floresta tropical, para crescer muito alta, acima das copas das outras árvores –, ancorada em tronco forte e com visão de horizonte alargado.

Claro, esta consciência tenho-a só agora, porque nesse tempo, tudo era encantamento e descoberta, olhos arregalados e respiração suspensa, gargalhadas que saltavam à vista de animais estranhos, cómicos e trôpegos, e lágrimas de desgosto ou de comoção – as primeiras no momento em que o gnu é dilacerado pelas garras e dentes de uma leoa, as segundas no momento seguinte, quando a leoa leva o falecido gnu para alimentar os filhotes –, mostrando que há sempre várias perspetivas para a mesma e interminável história.

A profundidade com que tudo se vincava em mim era esbatida na subtileza da relação com as imagens, as vozes, as ideias e as importâncias que se me entranhavam pela pele até aos recantos mais internos do cérebro ou do coração. Uma subtileza que vinha, talvez, da ausência de intencionalidade de influenciar, e da exposição direta e genuína com o encantamento e a pura alegria de quem leva a vida – uma longa e sábia vida, em respeito pela natureza como a das tartarugas gigantes das Ilhas Galápagos –, dedicada áquilo em que acredita e a que se entrega a paixão. Este encantamento, que aparentou estar dormente durante muitas fases da minha vida – como um arganaz durante o inverno –, para regressar, mais ou menos inesperadamente, em resposta a um inocentíssimo estímulo – como a vida ressuscita na savana em África logo a seguir à estação das chuvas. A descoberta da majestade do embondeiro na paisagem inebriante da Serra da Leba; o pousar os olhos na primeira edição de “A Origem das Espécies” de Charles Darwin no Museu de História Natural de Londres; o conhecer o hoatzin nas margens do Lago Garzacocha; o tricotar uma camisola de lã de um iaque visitado no Nepal; o sorrir com o caminhar dos pinguins da Terra do Fogo; o vislumbrar o corpo gigântico de movimento leve de uma baleia ao largo da Islândia; ou o precisar de metáforas para trabalhar, em livros infantis, as idiossincrasias próprias da infância e ter a ideia de roubar o exemplo de vida de pequenos insetos – uma ideia talvez genial como aquela coisa que fazem as larvas para se transformarem em borboletas. Na verdade, basta-me escutar o som da voz de David Attenborough para que tudo no mundo me pareça mais simples, mais sereno, mais fácil de compreender, mais carregado de maravilha e de esperança.

Se não fora por mais nada, bastaria o facto de ter sido este senhor, enquanto diretor do canal “BBC Two”, o responsável pela entrada no ar do inimitável “Monty Python’s Flying Circus”, o programa que mudou as nossas vidas com o “Philosophers’ Football Match” e o “Ministry of Silly Walks”. Mas há muito mais. O trabalho dedicado de uma pessoa encantada por uma boa causa torna-se, ao fim de uma vida tão longa e tão bonita, numa substância próxima do milagre, e penso que é muito difícil calcular com rigor a verdadeira dimensão do impacto que esta vida teve em tantas outras vidas, como teve na minha. A influência, para usar o termo da moda, que esta vida e o seu exemplo teve no mundo que se dedicou a explorar, compreender e partilhar, sem se deixar desacelerar pelo calor do planalto australiano, pelo frio da tundra ártica, pelo perigo do encontro de animais ferozes e venenosos ou pela idade.

Acredito que temos muito a celebrar nesta ocasião do centenário do naturalista mais aventureiro, do apresentador mais despretensioso e do homem mais doce da história da comunicação, porque foram cem anos invejavelmente bem preenchidos, que nos deixam sentimentos de enorme privilégio e imensa gratidão. Uma gratidão que bem podíamos exercitar acolhendo e honrando todas as coisas que este professor nos foi ensinando, sobretudo aquilo que diz respeito ao cuidado que devemos ao planeta que nos sustenta e ao complexo natural de que fazemos parte. Chegámos tão longe como espécie – diz ele – porque somos as criaturas mais espertas que alguma vez habitaram a Terra. Mas se queremos continuar a existir, precisaremos de algo mais do que inteligência. Precisaremos de sabedoria.

Talvez se, como espécie, tivermos a sabedoria suficiente para compreender a importância da vida e das palavras de David Attenborough, possamos ser dignos da oferta que nos faz e, também nós, entender o mundo e o futuro com o encantamento e a esperança que ambos merecem. Entretanto, é tempo de dizer Parabéns e Obrigada.


Da fotografia © 2026 – Raquel Patriarca

Share