Do começo das coisas (ou a primeira carta)

   Tempo de leitura: 11 minutos

Fico sempre surpreendida com a simplicidade – é quase uma desfaçatez natural – com que as ‘coisas da vida’ se nos atravessam pela frente, em dias insuspeitos, sobretudo aquelas ‘coisas’ que a princípio parecem pequenos nadas para, logo a seguir, se revelarem de enormíssima importância. Volto uma e outra vez à sensação de que a existência respira uma espécie de subtileza bege, uma força mansinha que nos empurra no sentido certo, consciente do caminho, mesmo quando nós a seguimos inteiramente ignorantes, tanto do percurso como do destino da viagem.

(Escrevo o primeiro parágrafo desta minha primeira carta. Pauso e leio e penso. Ninguém vai perceber nada do que estou a escrever –o que não seria propriamente novo –, podem até pensar que ensandeci de vez – e também a esta circunstância faltaria novidade –, quem sabe, com algum esforço, me possa explicar melhor.)

Um pouco de contexto, talvez.

Vivemos tempos estranhos. É uma ideia que ouço e sinto de forma aguda, convicta da gravidade de tudo, e tantas vezes incapaz de encontrar uma forma certa para agir. A pergunta o que posso eu fazer? depressa se faz em tormenta autoinfligida, que me assombra as horas do dia e me rouba as horas da noite. Bem sei que em todos os tempos houve más intenções e más decisões, atrocidades e absurdos, invasões e escravaturas, queimas de livros e perseguições. Bem sei que, apesar de tudo, ainda cá estamos, que a humanidade segue inundada de gente digna e consciente, magníficos exemplos da sua margem do mundo, da sua cultura ou religião, cor de pele, língua e entendimento do outro. Uma riqueza plural de cabeças que pensam e de braços que se estendem em função de um equilíbrio mais inteiro, inclusivo, dialogante. Eu sei que estas pessoas existem. Estamos todos vivos e em muitíssimas coisas melhores do que noutros tempo por sua causa. Conheço muitas delas, umas mais de perto do que outras, mas aprendo com todas e faço por ser merecedora do seu exemplo, faço por dar bom uso à inspiração que deixaram e deixam ainda.

Por outro lado, vai o mundo repleto de ignorâncias ignóbeis e servilismos endogâmicos, mentiras que se propõem desafiar factos e ciências, ciências instrumentalizadas pelo poder e pelo lucro, pessoas mesquinhas que preenchem o espaço de debate público com ruído e má educação, e pessoas desencantadas com tudo, que, sem saber o que fazer, tantas vezes se revoltam nos momentos e com as formas menos úteis, alimentando, mesmo sem plena consciência, o lobo de que nos fala o conto tradicional, aquele que medra no ressentimento e no desespero, na autocomiseração e no ódio.

Não quero gerar equívocos. Também eu sou uma desencantada. Uma criatura permeável às más notícias como poucos e suscetível, em qualquer dado momento, a turbilhões de incapacidade de lidar com o mundo, turbilhões que normalmente seguem um percurso de ciclo vicioso entre o choque, a descrença, a absorção, a impotência e a melancolia.

O tempo de vida que entrego à melancolia é bem capaz de tocar a esfera das atividades de natureza patológica, de forma que me fui habituando a associá-la diretamente à minha outra natureza, a poética. A poesia e a melancolia são muito semelhantes nos sintomas e nas aflições, servindo a poesia o duplo – e até aqui secreto – propósito de disfarçar e de milagrosamente curar a melancolia. Que fique claro que a melancolia faz parte integrante de mim e que só a vou disfarçando para que me deixem ser melancólica em paz. Que só a vou curando para que não evolua no sentido de qualquer outra condição mais grave como o atavismo, por exemplo, ou a desistência. Concordo inteiramente com a decisão de Tom Hodgkinson de incluir a melancolia no inventário que faz em “O livro dos prazeres inúteis”, explicando-nos que Num mundo onde estamos habituados a atacar a depressão sem piedade com fortes poções destinadas a nivelar o nosso estado de espírito, como o Ativan e o Prozac, é fácil esquecer que pode existir prazer no cisma melancólico. Pode imaginar que é um poeta do romantismo, vagueando pelos bosques e invocando rimas que descrevem a sua infelicidade, aconselha ele. No meu caso, não é muita a energia que se perde a imaginar, romântica que sou por inclinação natural, ausente de bosques, mas senhora de um enorme jardim, invocando mais versos que rimas, mas cumprindo genericamente a ideia proposta. É ainda o mesmo autor que nos aponta para outro, e para o que apelida de um grande livro de autoajuda do século xvii, “Anatomia da melancolia”, [em que] Robert Burton escreve: que deleite incomparável é melancolizar e construir castelos no ar, sorrindo-lhes e assumindo uma infinita variedade de papéis.” Burton devia saber do que falava [acrescenta Hodgkinson], afinal foi ele que escreveu o livro sobre o assunto.

Este entendimento da poesia como uma espécie de aflição nervosa não é inédita. O “Breve diccionario de enfermidades (y necedades) literárias”, de Marco Rossari, elenca da seguinte forma a poesia: astenia infeciosa, terminal e incurável que pode contrair-se em qualquer lugar e em qualquer momento. Em caso de contágio, aconselha-se o isolamento do paciente em quarentena. Elimine-se, se a doença perseverar sem sinal de mitigação. Felizmente, pelo menos aqui nos arredores do meu jardim, os poetas ainda não são eliminados, ainda que se pratique algum isolamento em quarentenas que são, está bom de ver, sempre bem-vindas pela poeta melancólica em funções.

Este estado de quarentena benfazeja lembra-me as palavras com que Virgínia Woolf descrevia o estado de espírito de uma sua personagem em “Rumo ao Farol”. Por ora, não tinha de pensar em quem quer que fosse. Podia ser ela própria, sozinha. E isso, agora, era algo de que precisava amiúde – pensar; bem, nem sequer pensar. Estar em silêncio; estar sozinha. Todo o ser e todo o fazer, expansivos, cintilantes vocais, se haviam evaporado; e a pessoa encolhia-se, com uma sensação de solenidade, de se ser quem é, um âmago escuro em forma de cunha, algo invisível para os outros…

Enquanto tudo isto se passa; enquanto eu me vejo e sinto perdida num tempo que, as mais das vezes, não compreendo; enquanto me isolo para me proteger das agressões do mundo a ser mundo, a pergunta fantasma ainda lá está, a ecoar nos rincões mais sombrios do cérebro ou da alma; o que posso eu fazer? A cada dia que passa parece que, tanto eu como a pergunta, estamos cada vez mais longe de uma resposta, e logo eu que gosto de me orgulhar de fazer perguntas que não têm resposta e de viver bem com isso. Neste caso particular, não consigo. Não vivo bem com o silêncio a que me vou entregando porque não é o silêncio bom, sereno e produtivo de onde nascem os poemas. É um silêncio dorido de quem tem coisas para dizer, mas não as quer escutar no tom ou na forma como as opiniões se partilham por estes dias. É um silêncio de quem venera as palavras e se recusa a entrar no registo de manipulação, de banalidade, de simplismo unidirecional, de pobreza argumentativa, de paternalismo, de falsas certezas, de sarcasmo ou de pura violência verbal, tudo ingredientes que se vão impregnando e normalizando na discussão de tantos temas tão importantes para todos. É, também, um silêncio de quem muitas vezes não sabe o que dizer e prefere não fazer de conta que sim. De alguém que se sabe perdida e não quer forçar um caminho só para se sentir em movimento, alguém que não quer correr o risco de seguir na direção errada, só porque o estar parado está mal visto num mundo em movimento sempre acelerado.

Também a circunstância de estar perdida, à semelhança da melancolia e da imobilidade, sofre de fraca fama no tempo atual em que o sucesso é um valor incontestado, aferido – parece-me – pela capacidade de cimentar a ilusão do controlo sobre todas as decisões, situações e demais coisas que rimam com estas. Sou uma fervorosa adepta de várias espécies de ilusões – das de ótica, por exemplo, e daquelas que fazem os mágicos ilusionistas, ou das que nos envolvem a partir de uma história extraordinariamente bem contada. Mas não gosto das ilusões que manipulam palavras e ideias, que substituem a verdade que é, ainda, a única base de construção seja do que for. E também o ponto de partida para responder à pergunta que se mantém, o que posso eu fazer? sem deixar de merecer o exemplo e fazendo bom uso à inspiração que deixaram e deixam ainda tantas pessoas boas que, quase sempre de mansinho, foram guiando o mundo no caminho certo.

E, se por um lado, o caminho certo será algo que não se pergunta a alguém confessadamente perdida e voluntariamente parada, por outro, talvez seja mais seguro do que seguir alguém que jura pela mentira de conhecer todos os caminhos e segue, a passos seguros, rumo ao abismo. Se estou perdida – e estou muitas vezes –, mais vale assumir do que iludir esse estado de existência que é, tantas vezes, uma bênção. Porque afinal, como se arranjará uma pessoa para partir à descoberta daquilo cuja natureza lhe é completamente desconhecida? Esta pergunta fui encontrá-la, por acaso, entre as reflexões de Rebecca Solnit, no seu “A field guide to getting lost”, citando uma aluna que, por sua vez, citava um filósofo pré-socrático chamado Meno. A resposta é uma daquelas composições de palavras que havíamos de ter impressas, emolduradas e penduradas em frente da mesa de trabalho. Devemos deixar sempre aberta a porta para o desconhecido [diz Solnit], a porta para a escuridão. É daí que chegam as coisas mais importantes, de onde nós próprios originamos e aonde sempre regressaremos.

E é aqui que eu própria regresso ao começo. Às ‘coisas da vida’ que se nos atravessam pela frente em dias insuspeitos, e nos surpreendem com respostas para as perguntas que nos assombram. Foi o que aconteceu logo depois de receber duas cartas – uma de um amigo de muito tempo, outra de um futuro amigo – e um convite a integrar as páginas do “De Norte a Sul: um projeto aberto a oceano, muito mais que um jornal.” Tens coisas para dizer e queres dizê-las com palavras de sossego e honestidade intelectual, com respeito pelo diálogo e a pluralidade? – perguntavam as cartas. Nós temos um barco pronto a navegar esse oceano e um lugar para ti, se quiseres embarcar. E eu cá estou, embarcada, munida de dúvidas e de silêncios, de ideias e caminhos por onde me perder. Eu, no fim da primeira carta que escrevo em resposta ao desafio, ganhando balanço para a promessa de outras mais, cheia de esperança de que isto talvez seja uma das coisas que eu posso fazer.

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