Entrevista | Brais Lorenzo: “Só o povo salva o povo”

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Entrevista a Brais Lorenzo (Ourense, 1986), prémio internacional “World Press Foto” de 2026 pelo seu trabalho “Terra queimada”, é um fotojornalista galego que há 15 anos acompanha e retrata os incêndios, dando rosto às pessoas que vivem e sofrem no mundo rural uma realidade marcada pelo abandono e pela desertificação humana.

Durante o mês de agosto de 2025, o fogo devorou milhares de hectares perante a impotência e o desespero das populações de inúmeras aldeias. Enquanto persistia a inação política, os números oficiais apontavam para 120 mil hectares ardidos do lado galego e o satélite Copernicus elevava esse valor para mais de 200 mil hectares. Do lado português, os números apontam igualmente para mais de 200 mil hectares queimados, com regiões inteiras arrasadas. O incêndio de Arganil, com mais de 60 mil hectares ardidos, a tornar-se um dos maiores alguma vez já registados em Portugal e o do Larouco, ultrapassando os 30 mil hectares, como o maior da história galega desde que há registos. Reproduzimos a seguir a entrevista realizada em outono de 2025 no rescaldo dos acontecimentos.

O quê defrontou neste passado mês de agosto. O quê se viveu?

Foi muito duro. Documento incêndios desde 2010 e a verdade é que nunca tinha visto o que vivemos neste ano, foi algo impossível de assumir pelas equipas de extinção. São os fogos denominados de “sexta geração”. Após 2 anos “tranquilos”, chegaram estes incêndios simultâneos, destrutores. E vimos vizinhos em completa solidão a lutarem contra o fogo. Pessoas idosas a fazerem o trabalho porque as equipas de extinção não chegavam a tudo.

Lembro-me aquilo que me disse um técnico de extinção: antes, com a chegada de um fogo, sempre havia uma chance para o deter, já que os terrenos estavam trabalhados, moravam pessoas nas aldeias. Mas agora com o esvaziamento populacional e o abandono do território, estamos perante uma emergência histórica. As equipas tiveram que defender as próprias aldeias, e nem puderam chegar a todas.

Por que escolheu abordar esta temática?

Porque dói ver arder a tua terra. Este ano chorei várias vezes, apesar da câmara fazer de “escudo protetor”. Estás a documentar, mas magoa muito. É uma realidade que, quem somos de Ourense, conhecemos muito bem. Lembro, quando criança, ver os aviões a carregar água no Minho, e aí já vais tomando consciência.

Enquanto fotojornalista, esta realidade tem vindo a ser constante a cada verão. Eu ando atrás da notícia, e o interior galego, infelizmente, costuma ser notícia por isto. Desde sempre gostei de documentar de perto o que acontecia nos fogos, nomeadamente sob a perspetiva do vivenciado nas aldeias, ou visto pelos olhos dos bombeiros, que têm um trabalho muito duro e precarizado. Quando comecei, um incêndio de 300-500 hectares já era tratado mediaticamente como um grande fogo.

… agora há fogos que são 100 vezes esses …

Mudou muito tudo em muito pouco tempo. No Larouco, em 2022, 11 mil hectares. Neste ano, alguns de 30 mil, sim, é veradade. É terrível.

Porque acha que foi tudo tão diferente esta vez?

Eram muitos dias seguidos. Dez dias a superar os 40 graus. Tinha falado com muitas pessoas da área que já avisaram: está tudo muito seco, há vaga de calor… quem sabia, já enxergava aquilo que estava para vir. Mas aquilo que aconteceu superou tudo o espectável. Além disso, acho que hoje há menos fogos mas o que são, são é muito maiores.

Neste trabalho de documentação e visibilização, que foi o melhor e o pior com que se encontrou?

O melhor sempre é a luta e a solidariedade entre as pessoas. Vimos novos e velhos a trabalharem juntos. Muitos jovens a ajudarem, longe da ideia que temos deles. Gosto dessa frase tão linda que representa a cooperação: “só o povo salva o povo”. E o pior? Ouvir certos representantes públicos a desvalorizar a questão. Temos que ser conscientes, como disse uma analista, o solo demora milhares de anos em ser recuperado. Com a mudança do clima, isto chegou para ficar, infelizmente.

Como repartiremos as responsabilidades?

Nesta situação penso que têm que estar envolvidos todos os agentes públicos. Do Estado ao governo galego, do governo aos próprios municípios, que nem obrigam, entre vizinhos, a manterem limpas os terrenos colindantes. E também as próprias pessoas, que nem utilizam a terra nem deixam usufruir. Eu gosto mais da atitude propositiva, sabendo que estamos perante uma temática complexa e multifactorial. Há que analisar conjuntamente, e tomar medidas para já.

A sensação tem sido a de tirar valor ao acontecido. O presidente da Galiza falou de que arderam “muitas pedras e mato”. Se ardessem ruas de uma cidade não se falaria nesses termos…

Isso é porque arde a Galiza abandonada. No nosso projeto “Habitar o vazio”1 damos testemunho disso. E, decerto, se os fogos tivessem acontecido na faixa atlântica ou em Madrid… vemos um fogo de 20 ou 30 hectares na serra madrilena a abrir os telejornais. Esses aqui quase já nem se contabilizam.

Fala desse mundo rural que está a morrer. Podemos ser otimistas perante uma catástrofe ambiental que, de facto, está a abrir as portas às prospeções mineiras e macro projetos eólicos?

Temos que ter esperança, a vida é isso: há sombras, luzes… e também morte. Porém, depois novamente a vida rebenta. O que sim é verdade que o modo de vida camponês que foi transmitido séculos após séculos, está prestes a acabar. São os últimos fôlegos. O que poderá surgir atrás disto…

… Será mais ligado ao capital e menos às pessoas…

Não sabemos! Quando realizamos este projeto descobrimos que há, de facto, muitas pessoas que estão a lutar, longe das cidades, que querem modos de vida mais alternativos, sustentáveis, menos consumistas. Há pessoas que valorizam muito o contacto com a natureza. Eu falei com alguns, no albergue Eco d’Os Teixos ou com as pessoas do grupo “Terras Altas” de Trevinca. Eles apostaram nessas novas ideias: caminhadas de montanha, atividades que reforçam o legado cultural da área…

… Até um “grande fogo” chegar e acabar com os seus projetos?

Eles é que guardam o território. Pela primeira vez está-se a falar, e reivindica-se mesmo, da necessidade de fixar população nas áreas rurais. Que a terra seja trabalhada de novo e que haja novamente animais. O que sempre se fez, adaptado ao mundo de hoje. Continua a fazer sentido vivermos todos em “colmeias”, cheios de estresse, sem tempo para nenhuma coisa?

Se repararmos na Raia, vemos como os fogos também não entendem de fronteiras.

Eu estive em Cualedro (Ourense), acompanhando o caso. Lá estavam os bombeiros portugueses, a ajudar.

A mudança do modelo é inevitável? Vivemos rodeados de mato, de floresta sem gerir, de grande quantidade de biomassa que representa um perigo quando aparecem as primeiras faíscas…

A questão económica está sempre atrás de tudo. Tudo é produzir rendimento e o mais simples são as plantações florestais. E as monoculturas, nomeadamente a de eucalyptus, são um problema. Há uma necessidade de paisagem mosaico, que faça aparecer essa descontinuidade no terreno. Cultivos diversos e variedade, é o melhor corta-fogos. Antes não existia isto, havia brandas e campos agrícolas cultivados, o terreno era aproveitado.

Em relação ao trabalho “Habitar o vazio”, acho que não há coisa pior, se exceptuarmos a morte, do que ouvir como idosos tiveram de pegar nas malas e abandonar a sua casa, em prevenção da chegada dos fogos.

As emoções são muito fortes. Já se fala das ajudas para as habitações queimadas. Porém, o problema é que nelas havia vidas, recordações, vidas inteiras. Não há ajuda que recupere disso. Visitei S. Vicente de Leira, em Valdeorras, uma aldeia que parecia um bairro de Gaza. Em todas as aldeias sempre vão acontecer situações em que haja pessoas ficando até ao fim, escondidos da polícia. Querendo salvar as suas casas. Para eles representam tudo o que têm.
E depois está o fumo, e o aviso para o confinamento. Na zona oriental de Ourense houve milhares de pessoas que não podiam sair das suas casas, à espera de tal inferno passar.

Em todas as aldeias sempre vão acontecer situações em que haja pessoas ficando até ao fim, escondidos da polícia.

Querendo salvar as suas casas. Para eles representam tudo o que têm.

As fotos tinham mais de fogo ou de fumo?

Podemos falar do “fumo do abandono”, uma reportagem que também publicamos. Nas minhas fotos havia muito fumo, exatamente. Houve dias inteiros com uma manta de fumo pela cabeça, e os médios aéreos também não podiam voar. Com essa densidade de fumo, não havia visibilidade. Este é um dado fulcral.

E outro dado é que as zonas com plantações autóctones, com carvalho e castanheiro, ardem muito mais dificilmente…

Sim, sim. Essas espécies protegem às aldeias. Mas estes fogos têm outra dimensão, acabam com tudo, sem atender à tipologia da árvore. Contudo, é evidente que os eucaliptos são pirófilos, e convivem perfeitamente com o fogo …

Fogos que vimos atravessar autoestradas!

E rios. São imprevisíveis. Com comportamentos “circulares”, como se fossem tornados. Quando parece que já se foram embora, voltam.

Terá que ser retirada maior quantidade de biomassa da floresta? Menos árvores, apontam alguns? E mais faixas de proteção que impeçam a passagem do fogo?

As duas questões estão estudadas e avaliadas. São necessárias. O que faz falta é a parte política se deixar assistir da parte técnica. Cada zona precisa de ser analisada de maneira diferente. E tomar decisões, agir.

E será este o momento em que todas as partes envolvidas se sentem a falar? Das comunidades de montes, das freguesias aos órgãos institucionais? Não faz falta repensar tudo? Ou, infelizmente, toca “tapar” e até à próxima?

Acho que não vai acontecer nada. Como sociedade levaram-se a cabo duas manifestações, a maior em Santiago de Compostela. Eu não sou a favor de os protestos serem retirados das áreas nas que acontecem, não estamos a compreender nada. Além disto, se analisarmos tudo bem, será que até fomos afortunados? Não houve perdas de vidas humanas, mas poderia ter acontecido, com certeza. Uma imprevisível mudança no ar e…

Gestão das florestas, modelos nórdicos.. o sul da Europa arde constantemente, ano após ano. Terras nas quais não há políticas de investimento nem planejamento algum. Apenas cultura da subvenção pública.

Coincido. As pessoas que lá moram são heróis. Não pode ser que pelo facto de viveres no campo comprometas o teu futuro desta maneira e acabes por ser um cidadão de “terceira”. Menos serviços: saúde, educação, transportes… e o acesso à cultura? Deveríamos ter os mesmos serviços que uma pessoa da cidade. No entanto, nem sempre é assim.

Brais Lorenzo já participou em muitos eventos e encontros, sendo uma referência do fotojornalismo. A nível internacional, qual o feedback que obteve? Como são analisadas estas questões?

A mídia busca o dramatismo, e as notícias têm uma vida curta, em todo o lado. Em setembro arderam muitíssimos hectares na área de Pantom (Ribeira Sacra) e não se falou nada. Se calhar já era muito cansativo tanto “drama”. E a tipologia é muito nossa também, a imagem da Galiza vende-se bem se há infortúnios. Para fora também.


Houve algum evento que fosse duro particularmente?

Fui até Trevinca, ali reparei na dor imensa, mas também vi um local espetacular. A “Lagoa da Serpe”, coberta de cinzas. Assustador. Espero voltar na próxima vez e vê-lo tudo mais recuperado, o nosso monte recupera com força sempre.

E quais os seus próximos projetos?

O principal desejo é ficar, trabalhar e documentar o território. Aconteça o que acontecer. Esperemos documentar essa aposta por um mundo rural novo. Muitos enchem a boca mas não se tornam as palavras em políticas efetivas. E para acabar, mais uma vez, a questão da habitação. Sempre a falar de “construir habitação pública”. E depois vais a qualquer aldeia do interior e tudo está quase a cair, parece Chernobyl. Construir? Não seria melhor contar com aquilo que já se encontra disponível? Não interessa, mas eu reivindico-o.


Esta entrevista foi realizada em outono de 2025 no programa Galiportus da rádio municipal de Alhariz e transcrita para o De Norte a Sul pelo autor e condutor do programa

  1. *habitar o baleiro no original) ↩︎
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