Distância geográfica ainda estaria a travar o acesso ao Ensino Superior, especialmente em cursos científico-humanísticos
Redação |
Investigação coordenada por Pedro Luís Silva, Carla Sá e Madalena Temudo revela que a distância geográfica condiciona o acesso de jovens portugueses à universidade. O mapa da última década, expõe profundas desigualdades e barreiras à mobilidade no Ensino Superior.
O estudo sobre 724 mil diplomados, entre 2013 e 2023, revela que a distância geográfica ainda estaria a travar o acesso ao Ensino Superior, especialmente em cursos científico-humanísticos. Em contrapartida, a transição no ensino profissional saltou de 4,8% para 20,6%, impulsionada pelos Cursos Técnicos Superiores Profissionais.
Segundo a investigação, as condições socioeconómicas dos municípios são também decisivas na mobilidade académica. A prevalência de ensino privado revela-se um forte preditor de deslocação, sinalizando maiores recursos familiares. Inversamente, alunos com apoios socioeconómicos, confirmam que a vulnerabilidade financeira limita a capacidade de estudar fora da região de origem.
A análise também confirma que a presença local de instituições de ensino superior aumenta as oportunidades e, enquanto diplomados de cursos científico-humanísticos preferem universidades de grande dimensão, os de cursos profissionais priorizam institutos politécnicos.
O estudo confirma a persistência de assimetrias territoriais: enquanto diplomados das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto são mais sensíveis à distância devido à vasta oferta local, os estudantes do interior mostram-se menos condicionados por ela, já que o acesso ao ensino superior exige invariavelmente deslocação ou mudança de residência.
Em conjunto, os resultados confirmam que a mobilidade académica em Portugal é moldada pelo equilíbrio entre geografia, economia e oferta institucional.
A investigação encerra com várias recomendações de políticas públicas entre as quais se destacam priorizar o transporte e o alojamento para mitigar desigualdades regionais.
Ainda, cursos em setores estratégicos como tecnologia, renováveis e saúde deveriam ser estratégicos visando travar a “fuga de cérebros”, convertendo o interior em polos de fixação de talento qualificado e fortalecendo a coesão entre o ensino superior e o tecido empresarial regional.
Para facilitar a ascensão dos diplomados de ensino profissional, o trabalho incide na necessidade de oferta diversificada. O desafio foca-se nas áreas metropolitanas, onde a procura por mão de obra qualificada urge uma resposta formativa adaptada às necessidades produtivas. Ao alinhar licenciaturas curtas com as necessidades empresariais locais, garante-se aos alunos um acesso direto e rápido ao trabalho.
O sucesso no acesso ao ensino superior continua ligado aos recursos económicos familiares. Enquanto o ensino privado funciona como um passaporte para a mobilidade académica, estudantes dependentes de Ação Social Escolar enfrentam barreiras que limitam as suas escolhas. Para mitigar este fosso, urge reformular os apoios específicos conforme a região e o curso. O objetivo é garantir que o percurso escolar prévio deixe de ditar o futuro académico, promovendo que o talento prevalece sobre a capacidade financeira.
O estudo conclui incidindo em que o sistema de ensino superior deve encurtar a distância entre a residência do estudante e a sala de aula. Para isto, propõe que universidades e politécnicos expandam a sua presença através de polos ou parcerias em municípios, visando reduzir a mobilidade forçada. Complementarmente, sugere-se uma revisão nos mecanismos de colocação do concurso de acesso com o objetivo de alinhar as preferências dos jovens com as vagas disponíveis.

