Rui Dâmaso: “Isto é uma janela aberta para espreitar coisas que nós não fazíamos ideia que existiam.”

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O passado industrial do cidade do Barreiro é o palco ideal para sediar uma associação como a OUT.RA, responsável por uma série de propostas culturais fora daquilo que estamos habituados, sendo o OUT.FEST (Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro) já na sua 22.ª edição) o mais conceituado. Mas é sobre outro dos eventos da OUT.RA que falamos com Rui Pedro Dâmaso, programador do Sonica Ekrano, o único Festival de Documentário Musical do país. Uma conversa sobre música, filmes e periferias culturais e geográficas.

O Sonica Ekrano é um derivado do OUT.FEST?

Os públicos são muito diferentes. Isto é giro porque há gente que gosta de cinema e pode vir aqui ver um documentário sobre uma banda que não iria ver tocar ao vivo. Achamos que é um complemento àquilo que fazemos com o OUT.FEST e com o resto da programação. É mais um lado da música que achamos importante mostrar porque vários desses filmes são mesmo interessantes e vale mesmo a pena ver.

A vontade de passar filmes mais fora daquilo que passa por normal mantém-se.

Essa é a natureza do nosso trabalho no geral. No Sonica há mais margem para entrar em algo não necessariamente tão experimental. Isto para mim é tudo música e é isso que eu gostava que fosse cada vez mais para toda a gente mas, claro, há níveis de notoriedade diferentes, há níveis de acessibilidade diferentes face à norma daquilo que as pessoas entendem como música. Se só vais dar às pessoas aquilo que elas gostam é literalmente sempre a mesma coisa. ninguém gosta de nada sem conhecer.

Vocês baptizaram o festival com uma expressão em esperanto.

O esperanto é uma ideia bonita. O Barreiro foi – a seguir a Lisboa – a cidade portuguesa que teve mais pessoas a aprender esperanto. Havia muitos encontros clandestinos porque era ilegal aprender a língua até ao 25 de Abril. Era uma linguagem absolutamente sinistra e internacionalista. No nosso trabalho procuramos ter o máximo de ligações ao Barreiro possível.

A faceta nómada do Sonica Ekrano é uma forma de manter vivos estes espaços no Barreiro?

O Sonica já passou por uma série de salas nestas cinco edições. É um bocado como o OUT.FEST que tem vindo a descobrir sítios novos. No caso do festival de cinema não temos assim tanto interesse, é mais encontrar um poiso que seja ideal. Nós já fizemos concertos e eventos em quase cem locais diferentes no Barreiro. Transformamos os espaços em salas temporariamente.

Vocês descrevem o Barreiro como uma cidade com uma identidade inigualável. Que identidade é essa?

É complicado mas o que posso dizer é que existe uma espécie de sentimento de identidade e de pertença que extravasa muito noutras cidades que estão na mesma condição periférica do Barreiro. Até há 5/6 anos a pergunta mais comum era porque não fazíamos o festival em Lisboa. É aqui porque é aqui. Porque é que não devia ser aqui? Porque o que está subjacente é que não devia ser aqui. Isso mostra muito sobre a forma como o Barreiro é visto por quem não é de cá. Mas também por pessoas que são de cá. O que importa é as coisas serem diferenciadas, de alguma maneira. A sensação que isto só podia ser aqui, não podia ser noutro sítio. Na nossa geração há uma sensação que o Barreiro sempre foi auto-suficiente a vários níveis. E até do ponto de vista cultural que é o que eu conheço melhor e é por isso que estamos aqui a falar. Porque quando eu era miúdo eu não precisava de ir a Lisboa para comprar discos esquisitos, para comprar roupa esquisita, para is a bares super fora, para ver bandas a tocar, para formar bandas, para ter um estúdio para ensaiar. Não era necessário, tínhamos imensas coisas aqui.

Essa identidade mantém-se?

Muito menos. A homogeneização não é só global, também é dentro dos países. Desde as mesmas lojas, os mesmos tipos de programa. Felizmente já há malta mais nova que nós que também está a tentar. Mas quando digo pessoas como nós não é no sentido de estarmos a fazer algo de especial, é mais ter a sensação que fazemos parte de algo que já existia. As associações e colectividades ainda existem. Estão num processo de decadência, toda a gente se queixa – não há dirigentes novos. Mas pelo menos o espaço ainda lá está, ainda há alguns carolas à frente desses sítios. O nosso trabalho é sempre cooperante. Nós não temos uma casa própria. Para usar quase cem sítios diferentes tivemos que falar com quase cem entidades ou pessoas diferentes para fazer as coisas. E eu acho que ainda há essa ideia de proximidade das relações, de poder bater à porta de uma pessoa e ela ter abertura para fazer alguma coisa contigo. Acho que é uma boa característica do Barreiro. Não sei se é a única mas é algo que eu sempre senti como presente e que ainda continuo a sentir.

O festival está sempre atento a outras vivências e outras culturas. A globalização – ao contrário do que se diz – não se traduz numa diversidade de olhares. É mais alguém no Bangladesh poder consumir (é mesmo esta a palavra) a cultura ocidental.

Isso tem a ver com a homogeneização. Tornar aquilo que é diferente igual ao resto. Algumas das sessões que nós tivemos com mais pessoas foram super inesperadas, eram filmes quase etnográficos. Um de Punk na Indonésia – A Punk Daydream (2019) – que passámos na 2ª edição. De vez em quando há assim esses momentos. Eu acho que há interesse. Este ano temos um filme sobre um músico que anda pelo Gana a tocar em funerais – Long Live The Dead! (2024).. O que é que eu sabia da existência dessa prática? Zero! Existe este mundo todo. Isto é um vislumbre, não é uma educação mas é um vislumbre, é uma porta aberta, uma janela aberta para espreitar coisas que nós não fazíamos ideia que existiam. E a música está aqui a unificar isto. Mas também pode ser um documentário de um artista que nós já conhecemos ou que já ouvimos falar mas não sabemos assim tanto sobre a vida dele ou sobre o impacto que teve. Depende dos ângulos dos filmes mas há tantos ângulos possíveis para um documentário sobre um artista também. E quase todos eles acrescentam àquilo que nós já sabíamos. Quer sejam coisas que nós não fazíamos ideia que existiam, quer sejam coisas que já conhecemos e depois faltam-nos uma série de ângulos e portas de entrada para o trabalho e para a vida deles. É o que estes filmes conseguem dar, é esse tipo de coisas.

O que faz um documentário especial para ti?

Isso é um dos exercícios mais complicados para programar o festival porque uma coisa que nós percebemos muito rapidamente quando começámos a fazer isto é que há filmes super interessantes sobre artistas que não te dizem nada ou até de artistas que podes não gostar. Há o contrário que são filmes sobre artistas que tu adoras mas o documentário em si tu sentes que o tempo está a passar e não está a ir para onde achavas que devia ir ou este ângulo não é muito interessante. Há esse equilíbrio. Filme interessante – artista desinteressante ou desconhecido. Ou o inverso. Mas depois há aquele intermédio. Há tantos filmes possíveis dentro de cada filme, tantas escolhas porque fazer cinema são escolhas a cada segundo. Na música também, noutras artes também, mas aqui o plano pode estar mais aqui, pode estar mais ali, pode demorar mais ou menos, a banda sonora naquele momento específico. A maneira como escolhem certas declarações e deixam outras de fora, o ritmo.

Em que é que os filmes do Sonica Ekrano te ajudam a melhor compreender as pessoas, lugares, comunidades e momentos da História?

Não há nenhum contributo aí que não venha de qualquer outra acção da vida quotidiana e da arte. É um processo em qualquer interação que nós tenhamos com pessoas, seja activa, seja passiva. A ver, a ouvir, a ler, a conversar, a ouvir falar ali ao lado. Não te vou nunca dizer que aprendi isto ou aquilo especificamente por ver estes filmes. O que é aprender? Às vezes aprender também é reforçar aquilo que nós achamos que já sabemos de alguma maneira e é muito raro que nós aprendamos algo que vá mudar por completo aquilo que nós achamos que já sabíamos sobre esse assunto. Não sei se tive uma epifania a ver um destes filmes mas se calhar tive micro-epifanias ou micro-confirmações que às vezes também são importantes ou então micro-contradições que me ajudaram a pensar um bocadinho melhor sobre algum assunto. Mas isso acontece a ver cinema, também acontece em muitas interações que nós temos. Com a arte ou com o dia a dia.

E a música. Para que serve?

Eu gosto de coisas que são meio irrepetíveis ou meio únicas. Está a passar alguma coisa do que são as características próprias desta pessoa ou deste grupo de pessoas que tu não encontras em mais lado nenhum. Se calhar são formas que estamos menos habituados a ver mas há pelo menos essa ilusão de que mais ninguém faz isto como esta banda faz ou como este músico faz. Pode não ser absolutamente verdade mas é uma verdade sentida, não necessariamente intelectual. Num certo ponto de vista a arte só devia ser útil para quem a está a fazer de alguma maneira. Mesmo que a própria pessoa não compreenda a utilidade do que está a fazer. Mas a verdade também não é só essa porque a música também é feita para rituais porque há funerais que exigem música, há funerais que exigem um silêncio absoluto Tens aqui a diferença das culturas também. Há músicas que foram feitas para as pessoas estarem a trabalhar. Há músicas que foram feitas pelo som das máquinas das pessoas a trabalhar. A imitar uma realidade, neste caso. Acho que idealmente é expressão individual ou colectiva.

É muito raro haver um documentário cuja experiência de visualização é muito semelhante à experiência de ouvir a banda que está a ser retratada. O documentário é super detalhado.

É um bocado análogo a estares a ver um concerto de Swans que está demasiado alto e aquela malha que parece que vai acabar mas nunca acaba e está sempre a dar-te coisas novas.

A história que perpassa estes três filmes é lindíssima e está pouco contada. A música electrónica só começou porque sobrou equipamento da 2.ª Guerra Mundial e já ninguém sabia o que fazer com aquilo. Mas houve uma série de doidos ou de génios que andava a sonhar fazer música diferente, estavam cansados da música que havia e descobriram naquele conjunto de instrumentos coisas que geravam sons, combinavam sons de maneiras diferentes.

Então estes 3 filmes todos contam histórias de pessoas que de alguma maneira estiveram envolvidas nesse desenvolvimento da música electrónica a partir de material de guerra.

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