Menos povo, mais incêndios: anatomia demográfica e territorial dos grandes incêndios

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Redação |

Os dados científicos e a realidade do terreno revelam que o verdadeiro combustível dos incêndios florestais não é a biomassa acumulada, mas sim o vazio humano. Os territórios que perdem população são aqueles que mais e pior ardem.

Esta é a conclusão central do relatório intitulado «Análise da relação entre o despovoamento rural e a alteração dos regimes de incêndios no sudoeste europeu», publicado pelo Eixo Atlântico. O estudo foi elaborado por Juan Picos, da Escola de Engenharia Florestal de Ponte Vedra. A investigação analisa a evolução demográfica e os registos de fogo entre 2016 e 2026 em mais de 4.400 unidades administrativas da Península Ibérica e do estado francês.

O trabalho dá continuidade a um primeiro lançado pelo Eixo Atlântico em 2018. Passada quase uma década, constata-se que grande parte dos cenários de alta probabilidade então projetados materializaram-se. A rutura dos equilíbrios socioecológicos tradicionais transformou o território num cenário de risco sistémico, onde o declínio demográfico e as alterações climáticas atuam como forças multiplicadoras.

O estudo descreve como o meio rural funcionava através de um mosaico de cultivos, pastagens e zonas de exploração florestal comunitária intercaladas que criavam barreiras naturais à progressão das chamas. O despovoamento rural desmantelou esta arquitetura. Com o abandono da atividade agrícola e pecuária, o mato e as espécies arbustivas ocuparam os antigos terrenos de cultivo. Sem gestão ativa nem povoamentos florestais ordenados, a biomassa vegetal acumulou-se sem interrupção.

A investigação salienta que o despovoamento altera a perigosidade dos fogos. Quando um foco de incêndio surge num território desabitado, a sua capacidade de se transformar num incêndio de grande dimensão e comportamento extremo multiplica-se exponencialmente.

A evidência empírica confirma padrões espaciais a norte do Douro. Os dados do relatório reforçam que as ignições pontuais tendem a concentrar-se nas áreas densamente povoadas do litoral e do noroeste e à proximidade de vias. Já os incêndios de grande extensão ocorrem predominantemente em freguesias do interior rural, caracterizadas por baixa densidade demográfica, forte envelhecimento e menor capacidade económica.

Esta relação explica-se porque a presença de população rural garante um controlo social do território e uma deteção rápida dos focos. Adicionalmente, permite uma primeira intervenção comunitária decisiva até à chegada dos meios de socorro. Verifica-se também que as terras que mantêm valor produtivo ou social para os seus habitantes recebem cuidados e limpeza regulares. Em contrapartida, a perda de valor económico do solo acelera o seu abandono, favorecendo a expansão descontrolada do mato.

O relatório também conclui que o risco não advém apenas da perda de habitantes, mas também da forma como a população se distribui no espaço. Nas últimas duas décadas, assistiu-se à duplicação da área afetada por fogos dentro da interface urbano-rural. A expansão de habitações dispersas, urbanizações secundárias e infraestruturas nas zonas florestais não geridas cria um cenário incontrolável. Quando um incêndio atinge estas zonas, os recursos de combate são desviados para a defesa de vidas e habitações, permitindo que o fogo progrida descontroladamente.

É inequívoco que a mudança climática desempenha um papel determinante. O aumento da frequência de ondas de calor, os longos períodos de seca e a descida da humidade relativa do ar tornam o combustível vegetal extremamente inflamável. Contudo, o relatório sublinha que o clima atua como o gatilho, mas o estado do território é o amplificador. Perante as mesmas condições meteorológicas, uma paisagem mosaico, habitada, diversa e gerida oferece oportunidades de combate, enquanto uma paisagem abandonada e contínua transforma-se num incêndio ingovernável.

A principal lição que decorre deste relatório é que o problema dos grandes incêndios não se resolverá investindo unicamente em meios de combate. Centrar a estratégia apenas na resposta de emergência é combater os sintomas e ignorar as causas estruturais. A verdadeira prevenção passa por atuações que revalorizem o território e apoiem a atividade agropecuária. Para isso, é essencial incentivar o pastoreio extensivo, a pecuária tradicional e a agricultura familiar.

O processo exige também garantir a renovação geracional e a fixação de população no meio rural. Esta atração de jovens e fixação populacional depende da garantia de habitação, acesso a serviços públicos e boa conectividade. Por fim, torna-se imperativo promover uma gestão ativa do território e o associativismo florestal para combater o minifúndio improdutivo e ordenar o território.


Créditos: A Cientista Agrícola

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