Quando tentamos definir a saudade, a sua natureza inefável é a primeira a revelar-se. Assim, uma pessoa saudosa, confrontada com a questão, mal conseguirá explicar o que sente. No seu livro Filosofia da Saudade, Ramon Pinheiro refere-se a ela como um traço característico da personalidade de um povo ou, por assim dizer, de uma “comunidade espiritual” — o grande mistério galaico-português.
Contudo, é mais habitual que sejam os forasteiros a atribuir uma alma comum aos naturais de outro país. Nesse sentido, a abundância de clichés sobre os galegos não deixa lugar a dúvidas quanto à sua singularidade. Um dos mais repetidos — o que diz que ao encontrar um galego numa escada é impossível saber se sobe ou desce — remete-nos para um novo enigma, cuja resposta encerra uma lição de vida: não importa tanto o rumo, quanto mantermo-nos em movimento. O mesmo princípio aplicava aquele general estado-unidense, na Guerra de Coreia, quando argumentava: “Não estamos a recuar, avançamos noutra direção”. Na verdade, aquilo que achamos distintivo acaba por nos tornar ainda mais universais.
O saudosismo encontra-se intimamente ligado a esse perpetuum mobile da nossa existência. Sentimos saudade ao perceber que o tempo nos escorre por entre os dedos; ou quando, de repente, deixamos de nos reconhecer na época em que vivemos. Se calhar, porque só possuímos realmente aquilo que perdemos. Como Borges, sabemos que não há mais paraísos do que os perdidos.
Quanto a mim, dado que vivo num presente que está ainda a trocar de mãos e me dirijo a um futuro que, inevitavelmente, me perderá, costumo recorrer ao passado que me pertence. Faço-o sobretudo relendo livros que outrora me marcaram ou revendo filmes antigos, embora situem o enredo num tempo que nunca foi meu. O importante é que me transportam de novo para o momento em que os desfrutei pela primeira vez.
Um desses filmes é O Terceiro Homem (Carol Reed, 1949). Gosto dele, antes de mais, porque resiste à passagem do tempo ao abordar temas universais e intemporais: a amizade, o amor, a cobiça, o dilema ético, o fracasso… Sempre considerei Harry Lime, a personagem interpretada por Orson Welles, um dos maus da fita mais realistas da história do cinema — longe dos psiquiatras canibais e dos terroristas malucos a que nos habitou Hollywood. Na famosa cena da roda-gigante de Viena, Lime pergunta ao protagonista, Holly Martins (Joseph Cotten), se sentiria compaixão pelas pessoas que passam lá em baixo — “esses pequenos pontos” — caso lhe oferecesse vinte mil dólares por cada uma que deixasse de se mover; e “isentos de impostos, isentos de impostos” — repete, para reforçar o seu raciocínio.
Pela sua parte, o carácter do protagonista aproxima-se muito do retrato de um herói autêntico, cujo único “superpoder” se reduz à capacidade de fazer o correto quando as suas convicções morais são postas à prova. De resto, não passa de um homem comum, algo desajeitado, que permanece grande parte do filme enganado e conserva até ao fim a esperança vã de que a rapariga partirá com ele. Trata-se, portanto, da antítese das personagens mais típicas interpretadas por Chuck Norris.
Fique claro que a minha intenção nunca foi criticar aqui os filmes de Chuck Norris. Vi vários deles em menino. Adorava os disparos, as perseguições e a maneira como derrotava sempre os criminosos com o seu pontapé voador. Não direi nada de mau sobre ele, precisamente, porque tenho saudades da minha infância.
Aquilo que me assusta é que haja adultos que ainda pensem que a razão pertence à força bruta. Há muito que sei que os verdadeiros Harry Lime triunfam neste mundo, mas nunca suspeitei que um dia Chuck Norris o viesse governar.
Chuck Norris faleceu em março deste ano, mas — segundo um dos seus famosos “factos” — parece que hoje já se encontra um pouco melhor. Desde então imagino que Leonard Cohen se inspirou nele para escrever os últimos versos deste poema:
O motivo por que escrevo
é para criar algo
tão belo como tu.
Quando estou contigo
gostaria de ser o tipo de herói
que queria ser aos sete anos:
um homem perfeito
que mata.

