Luis de Camões (1531?-1580), Eça de Queirós (1845-1900), Fernando Pessoa (1888-1935), Alfredo Pedro Guisado (1891-1975), Augusto Abelaira (1926-2003), Fernando Assis Pacheco (1937-1995) e José Carlos González (1937-2000): estes sete nomes bem conhecidos da Literatura Portuguesa compartilham o terem antepassados nascidos na Galiza. E essas sete costelas provam o “Génio literário português com ascendência galega”, como sintetizou Carlos Quiroga, professor da Universidade de Santiago de Compostela e escritor, nas Jornadas de Língua e + realizadas o 21 de março no Museu da Límia, em Vilar de Santos (Ourense), sob organização da Academia Galega da Língua Portuguesa. E podem ser porventura oito, pois também se especula com essa possibilidade em Cesário Verde (1855-1886), mas neste caso as provas não são ainda tão evidentes, admitiu o docente e investigador galego.

Este mais recente estudo é um novo fruto de uma continuada pesquisa, já de décadas, de Carlos Quiroga sobre Cultura e Literatura de Portugal. Em 2018 publicou na editora Através, de Santiago de Compostela, Raízes de Pessoa na Galiza, um volume de mais de 300 páginas, no qual desvenda os vínculos familiares e literários deste escritor, e dos seus heterónimos Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, com vários espaços da Galiza. Põe em destaque como a notícia da ascendência galega de Pessoa foi conhecida em 1914, e lançada para o grande público em 1944 por Joel Serrão em Portugal. Essa ascendência era pela sua avó materna, Madalena Xavier Pinheiro, descendente de uma família emigrante da Galiza.
Em 2021 a editora Doutor Alveiros, promovida pela Fundação Vicente Risco, difundiu A costela galega de Eça de Queirós, outro trabalho de Carlos Quiroga, premiado por esta instituição galega e por outras da Galiza e Portugal (as Câmaras Municipais de Alhariz e Castro Caldelas, e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro). Neste livro, de 169 páginas, dá comprida informação respeitante a Anselmo Vicente do Areal, um bisavô de Eça, também pelo lado materno. Afirma Quiroga que (p. 91) “se a genética pouca importância poderá ter em termos de produção literária, sempre será uma agradável constatação das certezas de vínculos entre galegos e portugueses. Porque também tocam no sangue”.
Estes dois livros de Carlos Quiroga estão a contribuir para um maior conhecimento da ligação dessas duas figuras com a Galiza, onde é celebrada de longa data a relação de Camões, a quem mesmo Rosalia de Castro lhe dedicou um célebre poema de lembrança (poema que finaliza com estes versos: “Esta lembrança doce,/ envolta numa lágrima, /manda-te desde a terra/ onde os teus foram nados/ uma alma dos teus versos namorada”, segundo a versão de Ernesto Guerra da Cal), entre outras manifestações. Em Camos, no Concelho de Nigrán, próximo da cidade de Vigo, reivindicam de diversas maneiras as origens de Vasco Perez de Camões, trisavô do autor d’Os Lusíadas. Também ele é reconhecido em Portugal, como assinala, v. gr., o professor e camonista Justino Mendes de Almeida, quem lhe atribui ter sido quem usou por primeira vez em Portugal este “apelido de origem galega”.
No mês passado, em Vilar de Santos, Carlos Quiroga distribuiu as genealogias de Pessoa e de Eça de Queirós. Na sua intervenção sublinhou o interesse de especialistas bem distintos e distantes, como Manuel Rodrigues Lapa, Carlos Taibo ou Jerónimo Pizarro, nos antecedentes galegos de Pessoa; e de como Pessoa publicou na Galiza o seu primeiro texto fora de Portugal, entre outros assuntos de interesse.
Carlos Quiroga oferece nos seus estudos ampla e exaustiva documentação; inclui documentos genealógicos originais e a sua transcrição, bem como documentos jornalísticos, militares ou mesmo do Santo Ofício, e mais; que acompanha de valiosas iconografias. Relata uma pesquisa muito atraente para o leitor, que permite ir descobrindo também as dificuldades e as surpresas de uma investigação de anos.
Outro académico nascido na Galiza e muito interessado neste tema foi o antes citado Ernesto Guerra da Cal (Ferrol, 1911-Lisboa, 1994): no primeiro livro de poesia que editou em Portugal, Futuro imemorial. Manual de Velhice para Principiantes (Lisboa, Sá da Costa, 1985) salientava num antelóquio a Portugaliza “que corria ancestralmente pelas veias de Camões, de Eça, de Pessoa –que é a mesma que esteve sempre presente no sangue deste país [Portugal] desde o seu nascimento”. Após quatro décadas, o dia 11 de março de 2025, o jornalista português José Miguel Sardo frisava como esses três “símbolos da literatura portuguesa”, na Galiza “são estudados e celebrados também como verdadeiras personalidades locais”, numa comprida e documentada informação, que assinava no jornal Público.
A ascendência galega de Camões, Eça e Pessoa, que ocupam posições centrais no cânone da Literatura Portuguesa, deu já muito que falar. Mais quatro ou cinco escritores darão porventura para muito mais. Assim o provou v. gr. a edição de Trabalhos e paixões de Benito Prada, livro de Francisco Assis Pacheco lançado pela editora portuense Asa no ano 1997, que causou forte impressão em Portugal e também na Galiza. Mesmo se poderá falar porventura de costelas galegas na Literatura do Brasil, com Nélida Piñon muito à frente, mas isso é já tema diferente.
Seria muito positivo, em todo o caso, que esta constatação galego-portuguesa contribuísse para um maior conhecimento e diálogo entre as duas culturas e literaturas, e para fortalecer a amizade e a fraternidade entre as suas gentes.
Joel R. Gômez, é membro da Academia Galega da Língua Portuguesa

