Relações culturais intersistémicas no espaço ibérico.

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Relações culturais intersistémicas no espaço ibérico. O caso da trajetória de Alfredo Pedro Guisado (1910-1930), uma recensão1.

Este livro está alicerçado numa tese de doutoramento, codirigida pelos professores Xaquín Núñez Sabarís e Elias J. Torres Feijó, das universidades do Minho e Santiago de Compostela e defendida em Braga no ano 2013. Editado em 2015, ano do centenário da revista Orpheu, representou um contributo importante para esta efeméride.

O estudo académico é resultado de um percurso de pesquisa, iniciado por Carlos Pazos Justo em 2004, em colaboração com essas duas instituições que teve como frutos um livro anterior —Trajetória de Alfredo Guisado e a sua relação com a Galiza (1910-1921)—, que conseguiu o prémio de investigação Carvalho Calero2 ; e diversos trabalhos em congressos e em revistas e publicações de referência3.

Este novo volume inicia-se com prefácio de Ramón Villares (pp. 9-14), catedrático de História Contemporânea da USC e presidente do Conselho da Cultura Galega, intitulado “Um lisboano na cultura galega”. Villares conclui: (p. 14) “se na perspectiva da historia literária portuguesa o escritor e poeta Guisado se pode considerar um ‘esquecido’, para o Cânone literário galego foi durante muitas décadas um ‘desconhecido’. Com a publicação deste livro, considero que estas duas eivas foram superadas a ambos lados do rio Minho”.

O trabalho de Pazos Justo divide-se em sete capítulos. Na “Introdução” (pp. 17-20) indica como objetivos (p. 20) “criar conhecimento novo sobre o produtor em foco assim como, num segundo plano, ajudar a melhor compreender o funcionamento de grupos, instituições, imaginários ou relações intersistémicas”.

Depois, o “Quadro procedimental e metodológico” (pp. 21-57), esclarece a fixação do corpus primário, frisando a dificuldade devida a um possível (p. 28) “extravio ou furto” do espólio de Guisado; analisa o corpus secundário e a sua funcionalidade; e assinala como (p. 34) “base teórica geral que sustenta este estudo” os contributos metodológicos do investigador israelita Itamar Even-Zohar e do sociólogo francês Pierre Bourdieu, assim como ferramentas elaboradas pelo Grupo Galabra4.

A parte central e inovadora do estudo encontra-se nos três capítulos seguintes: “Estado da questão” (pp. 59-106), “Trajetória e intervenção de Alfredo Guisado 1910-1915” (pp. 107-204) e “Trajetória de Alfredo Guisado 1916-1930” (pp. 205-324).

No primeiro deles frisa a situação das relações culturais intersistémicas no espaço ibérico, com atenção específica às estabelecidas entre Galiza e Portugal; estuda a imagem dos galegos e da Galiza em Portugal, com especial dedicação a Lisboa, cidade em que nasceu e residiu Guisado, a sua origem social (pp. 156 e passim), de família galega, que regia o restaurante Irmãos Unidos no bairro do Rossio da capital portuguesa; e analisa o conhecimento existente sobre Guisado, e como se construiu, de maneira bem diferente em Portugal e na Galiza, assunto presente nos dois capítulos seguintes.

Porque em Portugal Guisado beneficiou do relacionamento com Fernando Pessoa, uma das figuras literárias que mais identifica Portugal internacionalmente na atualidade, e o grupo do Modernismo, que se canonizaram. Teve privilegiada participação na revista Orpheu, um dos marcos referenciais desse movimento, sendo o seu nome associado a esses produtores, entre os quais destacam também Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, ou António Ferro, este talvez menos conhecido, mas muito influente no campo cultural português salazarista, como se sublinha na “Síntese conclusiva” (pp. 325-332); e outros dos campos literário e artístico, que constituíram um dos principais movimentos europeus da altura.

Por enquanto, e apesar do seu relacionamento com nomes centrais do atual cânone galego —nomeadamente com Afonso Daniel Rodríguez Castelao—, na Galiza foi ignorado, em parte pelas dificuldades de legitimação desse cânone no período da ditadura franquista. Assim sendo, só no período final da mesma, em 1972, começou a ser resgatado, e mais decididamente desde 1980 através do esforço de Landeira Yrago, Alonso Estravis e outros estudiosos; embora fosse preciso chegarmos aos contributos de Pazos Justo para atingir uma dimensão mais certa desta aliciante e interessante figura.

Pazos Justo salienta como, através de Guisado e do enclave galego de Lisboa, Pessoa e o Modernismo português foram conhecidos na Galiza antes que em outros espaços da Europa. E recupera os artigos que lhe foram dedicados em publicações galegas, assinadas por J. Barcia Caballero (pp. 191-192), produtor de relevo na altura, e outros. E sublinha ainda o posicionamento político de Guisado, diferente do de outros colegas de aquela geração portuguesa, pelas suas convicções democráticas e pela defesa das mesmas, posicionamento de que deixou constância no seu trabalho jornalístico ou na atuação em cargos na Câmara Municipal de Lisboa e como deputado na Assembleia da República.

As intervenções de Guisado resultaram decisivas para mudar a imagem negativa a respeito da comunidade galega em Portugal. Essas suas convicções também o levaram a implicar-se em lutas políticas na Galiza, como as do agrarismo e a do nacionalismo do pré-guerra de Espanha de 1936. Como em trabalhos anteriores, Pazos Justo chama a atenção sobre os contributos do autor em publicações jornalísticas galegas do período que estuda, um aspeto da sua produção muito menos conhecido que as de publicações portugueses, ou a literária.

A diferenciação da trajetória entre 1910-1915 e 1916-1930 deve-se à centralidade que, com acerto, oferece Pazos Justo à presença de Guisado em Orpheu, editada em 1915 e onde publicou 13 sonetos no primeiro número, um projeto em que ele “além de contribuir financeiramente, figura como administrador” (p. 187), e apoiado pela empresa da sua família.

Valoriza assim mesmo 1916 como “uma data chave em função dos campos galego e português” (p. 155), o que se refletiu na própria trajetória guisadiana; e também leva em linha de conta a diferente posição que atinge o enclave galego em Lisboa nesses dois períodos (p. 217 e passim).

Assim, Guisado, no campo literário, para além das colaborações em publicações periódicas, no primeiro desses períodos publicou três livros de poesia; e no segundo mais seis, todos em Portugal. Edita de novo, em 1969, Tempo de Orfeu, o que evidencia a centralidade que oferecia a essa revista e ao ambiente literário relacionado com ela, num tempo em que o processo de canonicidade de Fernando Pessoa e do Modernismo estava já avançado.

Reivindicava assim o autor a pertença a esse grupo, onde foi aceite como membro do mesmo, quer em Orpheu quer em outras produções. Guisado assinou também com o nome de Pedro de Menezes como, no dizer de Pazos Justo “uma provável estratégia para desvincular a obra do seu nome próprio e, portanto, preservá-lo perante a crítica maioritariamente hostil contra os malucos de Orpheu” (p. 291); e foi indigitado representante de alguns dos “ismos” mais caraterísticos do movimento, como o paulismo ou o sensacionismo do qual foi “magistral” representante, segundo Pessoa, recebendo elogios de outros, como Mário de Sá-Carneiro, quem disse dele que “é sem dúvida alguma um grande poeta”.

O derradeiro volume literário publicado em vida por Guisado foi um livro de contos infantis, de feição bem diferente, em 1974, no ano anterior à sua morte. Já póstumo, em 1996, na Galiza, publicou-se Tempo de Orpheu II, com textos inéditos, preparado pelo professor J. A. Fernandes Camelo e em que de novo se põe em destaque o relacionamento com Orpheu.

Críticos e estudiosos literários de Portugal, como Urbano Tavares Rodrigues, Óscar Lopes, Fernando Guimarães, J. B. Martinho, Nuno Júdice, António Apolinário Lourenço, entre outros, se têm ocupado dele desde 1969; e os últimos anos também na Galiza e na Espanha.

De todos estes assuntos, e outros, se ocupa por extenso este volume de Pazos Justo, que finaliza com completas referências bibliográficas (pp. 333-368). Este estudo terá de ser valorizado como referência inescusável em novos trabalhos que se façam sobre Guisado, pelo acertado resgate que faz desta valiosa figura.

A leitura deste livro é uma ocasião para refletirmos sobre o quanto é muito redutor favorecer só o conhecimento dos resultados dos processos de canonicidade, sem dar mais atenção ao desenvolvimento desses processos, e às diferentes posições que ocuparam as pessoas envolvidas nos mesmos.

Este conhecimento, com análise e pormenor, de uma figura como Alfredo Pedro Guisado, evidencia que ele merece mais espaço que, v. gr., as apenas quatro linhas que lhe dedica a História da Literatura Portuguesa de A. J. Saraiva e Óscar Lopes, em que o único que salientam dele é “que aproxima o decadentismo de alegoria ou de uma saudade rural luso-galega”5.

A publicação deste estudo de Pazos Justo —sob o patrocínio de duas instituições de relevo como são a Universidade do Minho e o Conselho da Cultura Galega—, favorecerá sem dúvida um conhecimento mais alargado de uma figura com muitos centros de interesse para a cultura dos dois países em particular, e para os estudos literários em geral.


Joel R. Gômez, é membro da Academia Galega da Língua Portuguesa

  1. Recensão do livro do professor doutor Carlos Pazos Justo, da Universidade do Minho, que com esse mesmo título tinham editado de parceria o Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho (CEHUM) e o Consello da Cultura Galega, (publicação de Edições Humus): V. N. de Famalição, 2015, 368 páginas (ISBN 978-989-755-109-3). Esta recensão foi publicada originalmente no número 112 da Agália (pp. 154-158) e reproduzida pelo autor para o nosso meio. ↩︎
  2. Prémio convocado pela Câmara Municipal de Ferrol, editado pela Laiovento (Santiago de Compostela, 2010) ↩︎
  3. Trabalhos citados nas bibliografias (pp. 338-339 e 357-358) ↩︎
  4. Galabra – Grupo de Estudos nos Sistemas Culturais Galego, Luso, Brasileiro e Africanos de Língua Portuguesa da USC ↩︎
  5. Citamos pela 16 ª edição “corrigida e actualizada”, de 1994, p. 1042) ↩︎

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