Iniciativa é promovida pela AGAL, entidade com 45 anos de trabalho em defesa da língua. Movimento cultural visa reverter últimos 40 anos do antigo discurso oficial de costas viradas ao português, considerando galego e português como variedades da mesma língua.
Redação |
Com o lema «Falo galego, fala-me português», a iniciativa da Associação Galega da Língua (AGAL) pretende incentivar a comunicação natural entre galegos e outros falantes de português, dentro e fora do território galego, esbatendo 40 anos de políticas contrárias à língua portuguesa.
Quantas vezes uma pessoa galega, ao visitar Portugal recebeu como resposta um esforçado «portunhol»? Para pôr fim a este cenário motivado pelo desconhecimento e anteriores políticas públicas, a Associação Galega da Língua lançou a campanha internacional «Falo galego, fala-me português».
A iniciativa tem como principal objetivo aproximar a realidade linguística da Galiza aos países de língua oficial portuguesa, nomeadamente a Portugal, promovendo o reencontro linguístico entre as duas margens do rio Minho.
A campanha, procura esclarecer junto dos cidadãos dos países lusófonos que o galego poderia ser visto como mais um sotaque dentro da Lusofonia. A iniciativa encaminha a reflexão ao conjunto dos falantes de português: Assim, ao ouvirem galegos, não estariam perante falantes de castelhano a tentar falar português, mas sim alguém a expressar-se na sua língua — e que prefere conversar em português fluído em vez de tentativas de conversação em portunhol—. Uma campanha portanto que não visa medir a proficiência mas a vontade de comunicação e reencontro.
Deste modo, a associação pretende posicionar a Galiza como território de língua portuguesa acolhedor onde qualquer lusófono poderia comunicar em português, colaborando com o movimento pela regeneração da cultura galega.
O pontapé de saída da campanha ocorreu no passado dia 25 de julho, a coincidir com o Dia da Galiza. A primeira ação prática consistiu no lançamento de t-shirts com o logótipo da iniciativa, para os galegos as utilizarem durante as suas viagens a Portugal e ao contrário, sendo que o lote inicial de vestuário esgotou-se no próprio dia.
A iniciativa irá intensificar-se nos próximos meses com a reposição dos materiais promocionais e de consciencialização mas o foco principal mudará para o ambiente digital. Assim, a associação planeia uma forte presença nas redes sociais, com a divulgação de vídeos protagonizados por figuras de relevo da cultura para amplificar a mensagem globalmente. Personalidades como o linguista Marco Neves ou a cantora luso-galega MJ Pérez já mostraram o seu apoio público à campanha.
Políticas de aproximação com nuances e complexidades no terrreno
Oficialmente o galego é considerado uma língua diferente ou —segundo os contextos— a mesma língua que o português, com importantes implicações nas políticas públicas e no conjunto da sociedade. Uma ambiguidade que tem sido utilizada para o avanço da presença do português ou para o seu retrocesso —e que marca também as escolhas quanto à norma padronizada da língua própria no ensino—.
A origem desta complexidade estaria em 1981, ano em que a Galiza recuperou a sua autonomia mas definiu, sob forte pressão interna, a sua “língua própria” exclusivamente dentro das fronteiras políticas do território espanhol, desvinculando-a assim da língua portuguesa. Durante décadas esse foi a única visão permitida oficialmente em exclusiva.
O ponto de inflexão para uma nova política mais alargada terá sido em 2014, com a aprovação da Iniciativa Legislativa Popular Paz-Andrade, em que o governo começou a integrar os esforços da sociedade civil para aumentar a presença oficial do português. Passado esse momento, houve uma tentativa diplomática de integração oficial da Galiza na CPLP como observadora associada , trabalho que finalmente provocou a entrada da Espanha no seu conjunto em 2021.
Por sua parte, o Observatório Galego da Lusofonia —criado recentemente pelo governo da Galiza para alavancar um maior relacionamento dentro do mundo de língua portuguesa— parece querer colmatar um esforço por integrar a Galiza no cenário global. Nascido para acompanhar a aplicação prática da Lei Paz-Andrade, o organismo público avalia o ensino do português e a cooperação institucional elaborando propostas de políticas públicas e articulando o diálogo entre entidades cívicas, governamentais e organismos globais.
Ainda, no seio da CPLP encontram-se como observadoras consultivas quatro entidades galegas : a Academia Galega da Língua Portuguesa, a Associação de Docentes de Português na Galiza, a própria Associação Galega da Língua e o Conselho da Cultura Galega.
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