Da base ao topo: uma semana para a história

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O desporto vive de resultados, mas alimenta-se sobretudo de histórias. Relatos de resistência, de queda, de reconstrução e de fé. Nos últimos dias, assistimos a três exemplos diferentes de superação competitiva que, apesar de acontecerem em modalidades e contextos distintos, partilham a mesma essência: acreditar até ao fim pode mudar destinos.

Da vitória do Mecalia Atlético da Guarda à histórica ascensão do Deportivo da Corunha, passando pelo sonho improvável do Torreense na taça de Portugal, estas conquistas mostraram que nenhum percurso está condenado ao fracasso permanente e que, muitas vezes, os maiores triunfos nascem precisamente dos caminhos mais difíceis.

O caso do Mecalia Atlético da Guarda talvez seja um dos mais simbólicos. Um clube criado na década de 60 e que nos inícios jogava na Escola de Somascos, em terra. Quando chovia, as linhas tinham de ser pintadas de novo antes do segundo período começar. Pessoas daquela aldeia acharam bom que as meninas pudessem jogar andebol. O Mecalia Atlético não nasceu de uma estrutura milionária nem de décadas de hegemonia. Cresceu apoiado numa pequena comunidade, uma identidade local muito vincada e numa rara capacidade de resistir às dificuldades. Longe dos grandes centros do andebol, sem os recursos dos gigantes tradicionais, conseguiu conquistar a EHF European Cup e entrar definitivamente para a história do desporto galego.

Ganhadoras da Liga em 2017, a conquista europeia frente ao Michalovce eslovaco representou mais do que um título. Foi a confirmação de que projetos humildes também podem chegar ao topo quando existe continuidade, organização e uma crença coletiva inabalável. Depois da final perdida em 2023 na Turquia, o clube poderia ter ficado preso à frustração. Em vez disso, transformou a derrota em combustível. A Sangrinha, o lugar dos jogos, tornou-se o retrato perfeito dessa persistência: um pavilhão pequeno comparado com os grandes palcos europeus, mas gigante na paixão e na convicção.

Também nesta semana outro acontecimento desportivo emocionou novamente milhares de pessoas: o regresso do Deportivo da Corunha à primeira divisão espanhola depois de oito anos afastado da elite. O clube, que já tinha sido campeão (7 títulos oficiais, 10 vezes no pódio da liga) e presença habitual nas competições europeias, viveu uma das quedas mais dolorosas do futebol ibérico recente. Problemas financeiros, descidas consecutivas e temporadas marcadas pela instabilidade pareciam ter afastado definitivamente o Deportivo da dimensão que um dia conheceu.

Mas o futebol tem memória. E sobretudo tem gente que não desiste. Durante oito anos, a massa adepta do Deportivo continuou a encher o Riaçor, mesmo nos momentos mais difíceis, acompanhando a equipa por estádios improváveis até da III divisão (durante 4 épocas), onde poucos imaginavam ver um clube histórico daquela dimensão. O regresso à elite acabou por simbolizar muito mais do que uma simples ascensão: foi a recuperação da dignidade competitiva de uma instituição que se recusou desaparecer.

Se o Mecalia Atlético mostrou que se pode crescer desde a base e o Deportivo provou que é possível reconstruir-se após a queda, o Torreense ofereceu talvez a maior surpresa competitiva destes dias. Um clube da segunda divisão portuguesa derrotou o Sporting de Portugal (entre as 8 melhores equipas da Europa nesta época) na final da Taça de Portugal e tornou-se o primeiro “secundário” a conquistar o troféu. Incrível.

Num futebol cada vez mais dominado pela diferença financeira entre grandes e pequenos, a vitória do Torreense apareceu quase como um ato de rebeldia desportiva. A equipa de Torres Vedras entrou no Jamor de Oeiras sem o peso do favoritismo, mas com algo igualmente poderoso: a convicção de que o jogo ainda se decide dentro de campo. Resistiu aos momentos difíceis, sobreviveu à pressão e encontrou forças para vencer no prolongamento,1-2 no marcador com o golo do cabo-verdiano Stopira —que irá jogar a Copa do Mundo com a sua seleção em junho—, transformando um sonho improvável numa realidade histórica.

As três histórias têm origens diferentes, mas encontram-se na mesma mensagem. Nenhuma destas equipas seguiu pelo caminho fácil. O Mecália da Guarda nasceu sem tradição nem poder económico, apostando no desporto feminino. O clube da Corunha caiu e esteve na falência, quase na desaparição pelas dívidas em 2013. A equipa de Torres Vedras ousou desafiar uma hierarquia que parecia intocável.

Talvez seja precisamente acontecimentos como estes que tornam o desporto tão poderoso. Porque, por trás das táticas, dos números e dos títulos, continuam a existir pessoas e comunidades inteiras que acreditam quando quase ninguém acredita. Equipas que sobrevivem graças à persistência dos adeptos, ao trabalho invisível de dirigentes e treinadores e à capacidade coletiva de continuar mesmo depois das derrotas.

Da base ao topo, o caminho raramente é direito. Mas estas vitórias lembram que os sonhos mais improváveis continuam a pertencer àqueles que resistem tempo suficiente para os alcançar. A quem nunca desiste.

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