Linguagem complexa estaria a dificultar o entendimento das notícias por uma parcela considerável da população. Em contrapartida Iniciativas na Noruega, Áustria e Alemanha implementaram noticiários com linguagem simplificada e estruturas frásicas diretas, focadas na máxima acessibilidade.
Redação|
Uma pesquisa do Reuters Institute revela que o jornalismo ainda não é totalmente acessível. O estudo aponta que a linguagem complexa dificulta o entendimento das notícias por uma parcela considerável da população.
A barreira entre o público com dificuldades de aprendizagem e a informação persiste como um desafio crítico. Na investigação realizada no Reuters Institute, o jornalista William Kremer observou que, apesar do alto consumo de média por esse grupo, a complexidade do jornalismo mainstream ainda atua como um entrave à plena compreensão das notícias.
Embora o Barómetro para a Qualidade da Informação (2025), elaborado pela Universidade do Minho, estabeleça a acessibilidade para pessoas com incapacidade e neurodivergentes como um indicador crucial da qualidade informativa, a realidade prática é distinta. O estudo de Kremer demonstra que este parâmetro tem sido negligenciado, evidenciando que a teoria da “qualidade do acesso” ainda não se traduz em práticas editoriais inclusivas.
Com base em entrevistas e dados de grupos de foco da BBC, o autor constatou que o jornalismo tradicional falha na acessibilidade em três frentes. Primeiro, no ritmo: a narração é acelerada demais para quem tem dificuldades de compreensão. Segundo, na forma: o léxico utilizado é frequentemente inacessível. Por fim, no conteúdo: a ausência de contextualização e de resoluções claras para os temas abordados provoca um impacto emocional negativo, transformando a busca por informação num processo de aflição e ansiedade.
Nos painéis realizados por Kremer, ficou claro que a acessibilidade vai além da linguagem simples. Os participantes manifestaram o desejo de um jornalismo mais útil, que não se limite a relatar o que acontece, mas que ajude na interpretação da realidade e ofereça caminhos práticos para a ação e participação cívica.
O autor aponta caminhos claros para alargar o público do jornalismo através da acessibilidade: reconhecer a legitimidade de todos os públicos, investir em processos acessíveis, incluir a voz de quem vive estas dificuldades no processo criativo e abraçar novas formas de comunicar. No fundo, trata-se de aceitar que a forma da notícia deve adaptar-se à necessidade de quem a consome, e não o contrário.
No que toca à criação de conteúdos inclusivos, já existem modelos de referência que integram pessoas com dificuldades de aprendizagem tanto na receção como na produção da notícia. Destacam-se casos como a TV Bra, na Noruega, e iniciativas na Áustria e na Alemanha, que implementaram noticiários com linguagem simplificada e estruturas frásicas diretas, focadas na máxima acessibilidade.

