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Partiu na passada quinta-feira, dia 5, um dos maiores nomes da literatura contemporânea em língua portuguesa. O escritor e médico psiquiatra António Lobo Antunes, nascido em 1942, faleceu na sua Lisboa natal aos 83 anos.
Licenciado em Medicina com especialização em Psiquiatria, a sua trajetória foi profundamente marcada por sua experiência como médico durante a Guerra Colonial em Angola. Após o retorno da guerra, conciliou a carreira literária com a atividade clínica em Lisboa, onde exerceu psiquiatria no Hospital Miguel Bombarda.
Ao transpor para o papel o trauma da Guerra Colonial, Lobo Antunes alcançou um sucesso notável com o romance Os Cus de Judas. Graças a esse impacto, ele se tornou um dos romancistas portugueses contemporâneos mais traduzidos.
O sucesso de Os Cus de Judas encerrou uma trilogia de inspiração autobiográfica iniciada com Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno. Juntas, compõem uma densa descida aos infernos, narrando desde o trauma da guerra colonial e a perda do amor até o cotidiano asfixiante entre hospitais psiquiátricos. Este processo culminou em 1985 com o lançamento de Auto dos Danados. A obra, considerada um fenómeno de crítica, rendeu ao autor o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, selando o seu nome como uma das figuras centrais do cânone literário contemporâneo.
A exploração das relações humanas através da memória marcou Tratado das Paixões da Alma (1990), seguida pelo pessimismo existencial de A Morte de Carlos Gardel (1994). A década de 90 encerrou-se com as publicações de Manual dos Inquisidores (1996) e O Esplendor de Portugal (1997), culminando em 1999 com Exortação aos Crocodilos — obra que lhe valeu a indicação ao Nobel da Literatura — e, já em 2000, com Não Entres tão Depressa Nessa Noite Escura.
A consagração internacional consolidou-se em 2003, quando os prémios União Latina o distinguiram pelo conjunto da sua obra, descrita pelo júri como a “voz mais expressiva” da realidade portuguesa.
Em 2004, recebeu o Prémio Fernando Namora pelo livro Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo (2003). No mesmo ano, marcou os seus 25 anos de carreira com o lançamento de Eu Hei de Amar uma Pedra.
A 25 de janeiro de 2005, durante a cerimónia do Prémio Fernando Namora no Teatro Auditório do Casino Estoril, António Lobo Antunes recebeu das mãos do Presidente da República, Jorge Sampaio, a Grã-Cruz da Ordem de Santiago. Ainda no mesmo ano, em fevereiro, foi homenageado com o Jerusalem Prize 2005, pelo conjunto da sua obra.
Posteriormente, foi galardoado com o Prémio Ibero-Americano de Letras José Donoso, no Chile (2006) e o Prémio Camões (2007). Em 2008, recebeu os prémios Terenci Moix, na Catalunha, e o de Literatura em Línguas Romances da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México. Em 2018, alcançou um marco histórico quando a prestigiada Bibliothèque de la Pléiade francesa, anunciou a publicação da sua obra, tornando-o o segundo escritor português, depois de Fernando Pessoa, e um dos raros escritores vivos a integrar a coleção.

