Napoleão

Há aldeias onde um galo ainda consegue mandar mais no trânsito do que muita rotunda moderna. Aquele saía todos os dias do quintal da Ti Maria da Assunção com um ar tão importante que parecia presidente da junta em dia de festa. Caminhava devagar, peito levantado, sem nunca olhar para os lados. Quem viesse de carro que travasse. E travavam. Porque no fundo ninguém quer ficar conhecido como “o homem que matou o galo da Assunção”. Há alcunhas que duram mais do que o casamento. “Não me toques que me desafinas.” A frase saiu um dia da boca do senhor …

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O país dentro da aldeia

“Todo o mundo é composto de mudança.” Camões podia estar a falar de um império. Eu penso numa aldeia. Porque uma aldeia contém o mundo inteiro. Nela encontramos a infância e a velhice. A chegada e a partida. O nascimento e a despedida. A esperança e a perda.Tudo o que acontece aos povos acontece primeiro às pessoas. Por isso, quando uma aldeia resiste, não está apenas a preservar casas ou caminhos.Está a preservar uma maneira de compreender a vida. O Barroso nunca foi apenas um território.É uma ideia de comunidade.Uma convicção silenciosa de que a vida humana ganha sentido quando …

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José Pereira: a memória de uma injustiça portuguesa

Há vidas que começam por parecer pequenas porque nasceram numa aldeia pequena. Depois, quando se escutam bem, percebemos que trazem dentro um país inteiro. José Pereira, avô de Rui Barroso Gonçalves, nasceu em Lamachã, a 7 de janeiro de 1914. Cresceu entre irmãos, trabalho, fome e necessidade. Ficou órfão de pai cedo, como Rui recorda, e foi a mãe que segurou a casa e aquela vida toda, num tempo em que as famílias numerosas conheciam a dureza pelo nome próprio. Ainda novo, José Pereira começou a trabalhar na Mina,no baldio que separava Criande, Negrões e Lamachã. Ganhava ali o pão. …

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A cozinha na Casa do Barrosão

Na Casa do Barrosão, a cozinha não é divisão da casa. É território. Os presuntos pendurados nas traves não são decoração rústica para fotografia bonita. São a prova material de uma vida inteira ligada à terra. Cada peça ali suspensa tem atrás madrugadas frias, erva carregada ao ombro, animais tratados todos os dias do ano, sem domingos nem feriados. E depois há a fotografia na parede. O trator cheio de fardos ocupa o lugar de honra porque, naquela casa, a fartura conquista-se. Não aparece. Não vem pronta. Faz-se. Há um orgulho muito próprio no mundo rural: o de olhar para …

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