Sonica Ekrano Parte II: A aldeia global tem porteiro

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Neste novo artigo da cobertura exaustiva da 5.ª edição do Sonica Ekrano, o único festival de documentário musical do país, abordamos uma mão cheia de filmes que abrem uma série de janelas para observar, reflectir e debater sobre aquilo que é transversal a todas as civilizações e todas as épocas, a condição humana. Nesta segunda parte olhamos para essa coisa maravilhosa que é a globalização de cima para baixo, o olhar paternalista que nos permite diminuir os outros e a peste negra do racismo.


The Blind Couple From Mali
The Blind Couple From Mali

O mundo que nos prometeram com o advento da globalização foi um universo de partilha e sã convivência entre povos e culturas. Mas esta, tal como outras profecias, revelou-se manifestamente exagerada. Na música, o rótulo da world music, como se a música que polui os espaços públicos viesse do espaço sideral, é o sinal mais evidente. The Blind Couple From Mali debruça-se sobre a carreira de um casal de músicos cegos que construiu uma carreira musical sólida ao longo dos últimos 50 anos. Existe uma permanente infantilização de Amadou Bagayoko e Mariam Doumbia que acaba por ser representado como o casalinho simpático de ceguinhos africanos. Sem voz, nem agência, nem vontade própria. Há uma cena particularmente constrangedora, quando alguém pede a Mariam para sorrir porque está a ser filmada, como se não fosse mais do que um adereço estético.

O documentário de Ryan Marley entra logo a descarrilar com vários músicos mais ou menos conhecidos (Coldplay e Scissor Sisters, entre outros), cuja música é infinitamente menos interessante, a elogiar o casal maliano. Um ângulo que se vai repetindo com excertos de actuações nos grandes festivais europeus, colaborações com artistas e produtores do primeiro mundo (desde o meritório trabalho com Manu Chao até às adaptações mais aberrantes de DJs para as pistas de dança) e especialistas ocidentais a exaltar a produção musical do duo do Mali. É como se a produção artística de Amadou e Mariam precisasse de ser legitimada pelos artistas deste lado. Ainda por cima, no filme afirma-se explicitamente que foi o casal que pôs a música do Mali no mapa. Um truque muito habitual nos documentários musicais que consiste em meter o documentado num pedestal, esquecendo todos os outros à volta. Num país com a riquíssima tradição musical do Mali (a família Diabaté, a família Sissoko e o enorme Ali Farka Touré não contam?) isso é obsceno.

Ainda assim, há uma história que merece ser contada de dois jovens que se apaixonaram numa escola para cegos e decidiram fazer música juntos, contra todas as adversidades. E essas são as partes que valem muito a pena, a cumplicidade entre Amadou e Mariam e as imagens da banda ao vivo (queremos mais solos de guitarra de Amadou e menos música para criar ambiente – incompreensível a opção de contratar alguém para fazer uma banda sonora num filme destes). Quando Amadou e Mariam têm espaço para falar, pegam em assuntos importantes (a música deles não é só festa e alegria

como diz o perito do New York Times): os conflitos armados no país, a iliteracia e o papel dos “jihadistas islâmicos” na perseguição à música. Mas não existe qualquer contextualização e nem sequer se menciona a França, a não ser para falar da diáspora maliana de que faz parte o casal. Não há nada sobre as consequências nefastas do seu papel como potência colonial primeiro e como pai tirano depois, através da moeda que continuam a controlar e da relação muito ambígua com os extremistas que combatem o governo do Mali (de onde vêm os jihadistas, quem os financia e qual é o seu propósito?).


Wisisi
Wisisi Nit Meke

A conjuntura também não é o forte da curta-metragem de Arief Budiman, Bonny Lanny e Harun Rumbarar. Wisisi Nit Meke aborda a nova moda musical da Papua ocupada pela Indonésia (a outra metade da ilha, Papua Nova Guiné, é independente mas presta vassalagem ao Rei da Grã-Bretanha – anacronices da geopolítica). Focado na produção musical de Asep Nayak, o documentário explica como é fácil fazer música com um portátil e um estúdio digital. Basta escolher a melodia e a batida e já está – a certa altura afirma-se que é possível fazer 50 álbuns por ano. As melodias vêm da tradição musical wisisi dos povos indígenas, usadas em todo o tipo de rituais e cerimónias (não admira que as gerações mais antigas torçam o nariz a isto) e que foram popularizadas pelo antropólogo Arnold Ap, com a sua banda dos anos 70, Mambesak, que, graças à sua luta pela autodeterminação da Papua, foi assassinado pelas autoridades indonésias. Esta nova roupagem do wisisi é apresentada como uma demanda por uma identidade musical que por acaso já existia na sua forma original há bastante tempo.


Long Live The Dead
Long Live The Dead

Em contrapartida, não se nota nenhum tipo de condescendência ou qualquer sintoma de ocidentofilia em Long Live The Dead! Sofie Hanegreefs e Kris Pannecoucke optam por fazer um autêntico estudo etnográfico acerca dos rituais fúnebres no Gana. A estrela do curto documentário é Stevo Atambire, um autêntico mestre do kologo (alaúde tradicional de 2 cordas usado no Norte do Gana e no Sul do Burkina Faso) que passa a época seca, a altura do ano mais propícia para um ajuntamento tão grande de pessoas, a tocar em funerais.

À semelhança do que acontece um pouco por todo o lado, também no Gana a componente económica estende-se até à própria morte. A cerimónia decorre quando há dinheiro suficiente para a fazer (o enterro é feito atempadamente, o ritual ocorre quando for possível), e nas famílias mais abastadas chega a durar semanas. Tudo começa com um canto fúnebre onde Stevo percorre toda a história da família numa canção, que demonstra bem a solidez dos laços com os antepassados na sociedade ganesa. Em casos específicos (anciãos muito respeitados, guerreiros e líderes da comunidade) são executadas danças de guerra para honrar o falecido.

Acima de tudo, o filme mostra, de uma forma muito respeitosa e nada intrusiva, todo o colorido de algo que é tão antigo como a própria humanidade e que é comum a todas as culturas – a passagem da vida para a morte. A diferença é indicada pelas palavras do Stevo. No Gana o funeral é a celebração da vida, ao contrário de outras civilizações supostamente mais avançadas em que funciona como a celebração da morte.


Para ouvir e descobrir mais

Dimanche a Bamako
Dimanche a Bamako de Amadou & Mariam
Wineyele
Wineyele de Stevo Atambire
Etai Wisisi Waga
Etai Wisisi Waga O Wamena Hanorasuok de Asep Nayak

Complô
Complô

É com o espectro da morte que abre o documentário Complô, nomeadamente com imagens da manifestação anti-racista em Lisboa após a morte do actor Bruno Candé que foi executado com 5 tiros à queima roupa em plena Avenida de Moscavide à uma da tarde em 2020 por um saudosista do Ultramar (curioso como a cor da pele define as nossas percepções de segurança). Figura máxima do rap crioulo, nascido em Portugal mas sem direito a ser português, institucionalizado desde muito cedo, Ghoya ataca logo a quimera dos países irmãos – o que seria se fossem países não irmãos.

Infelizmente para as minhas expectativas, o foco do filme de João Miller Guerra acaba por ser o trabalho de estúdio, enquanto o rapper tenta oficializar a sua obra, já que as suas músicas até então circulavam por aí quase clandestinamente. O que é pena porque Ghoya tem muito para dizer sobre a sociedade, sobre racismo e sobre a vida em geral. Sem poupar nas palavras, numa franqueza desarmante, o rapper abre o véu sobre a total inversão de valores na vida prisional (verdadeiro mundo sem lei de onde ninguém sairá recuperado para a vida em sociedade) e as aventuras kafkianas da nacionalidade e da legalização. A cena do telefonema para o SEF é capaz de fazer ferver o sangue de raiva a qualquer um – como podemos funcionar como seres humanos se não somos considerados como tal? Talvez a letra de «Di Otu Ladu Lei» ajude a perceber.


The Magic City
The Magic City: Birmingham According To Sun Ra

O documentário The Magic City: Birmingham According To Sun Ra instala nessa cidade, colocando lado a lado a carreira musical de Sun Ra, nome incontornável do jazz experimental, e os acontecimentos mais marcantes de Birmingham. Prova cabal de que a música (por mais mística que seja) não emana de uma matéria divina que anda por aí no ar à espera de ser caçada por algum iluminado mas é o resultado das nossas vivências muito próprias e do mundo exterior que nos condiciona os comportamentos.

Conhecida como uma das cidades mais segregadas dos Estados Unidos, a história de Birmingham é uma história de limpeza étnica, com o genocídio dos povos originários que viviam naquilo que se viria a chamar Alabama. Mais tarde eram os afro-americanos que cultivavam como escravos na antiga cidade de Elyton (hoje um bairro de Birmingham) e depois da abolição da escravatura quem constituía a maioria da força de trabalho nas fornalhas e fábricas da grande indústria de carvão, ferro e aço. Muitos deles, aliás, presidiários que eram obrigados a laborar num sistema que só não é escravatura no nome. Nos anos 70, com a inevitável financeirização da economia dos Estados Unidos, acelerada pela presidência de Ronald Reagan, a indústria da cidade foi completamente dizimada. O que faz com que os afro-americanos que formavam a espinha dorsal da comunidade sejam expulsos num processo de gentrificação obrigatória com a modernização de uma cidade que tenta estancar o seu acelerado despovoamento. Há uma cena engraçada no documentário em que vemos um guia turístico negro a falar de resiliência e empreendedorismo e de presidentes de câmara também negros. As imagens actuais de uma parada de rua e do liceu Parker onde não se vê um único caucasiano é o melhor barómetro para medir as mudanças na segregação. Como diz o académico Cornell West, caras negras em lugares cimeiros não resolvem nada – representatividade não é inclusão.

No meio desta realidade tumultuosa, Sun Ra começou a tocar muito cedo aos 7 anos e foi avançando para uma carreira estratosférica que atravessou gerações ao longo de uma centena de discos editados na sua própria editora e concertos memoráveis. E apesar de apenas ter passado a fase inicial da sua carreira em Birmingham, a sua cidade natal nunca deixou de o acompanhar, sendo os melhores exemplos o álbum «Magic City» de 1966 e o seu regresso para a última morada em 1993. A cena final das imagens da procissão funerária com os seus companheiros de banda é muito comovente mas não choramingas.

A dupla de realizadores Guillaume Maupin e Pablo Guarise alterna de forma magistral todas as mudanças da cidade com a vida de Sun Ra, cuja obsessão pela leitura ajudava a moldar a sua visão do mundo, desde o revolucionário «Ruínas de Palmira» do Conde Volney até às obras de W.E.B. Dubois, figura mítica da esquerda radical afro-americana. Ao mesmo tempo, Sun Ra tentava escapar ao fedor sufocante da opressão numa cidade onde se rebentavam Igrejas Baptistas à bomba (no atentado de 1963 o Ku Klux Klan matou quatro meninas negras) e que tinha como Comissário de Segurança Pública o democrata Bull Connor, assumido supremacista branco que não tinha qualquer pudor em atiçar cães para atacar crianças e estudantes em manifestações legítimas pelos direitos cívicos. O músico da “fé inocente numa mente brilhante” refugiou-se no afro-futurismo, que combinava História e ficção científica num movimento cultural de emancipação negra em busca de uma genuína cidade mágica sem hierarquias étnico-raciais.

A relação entre diferentes povos, países e hemisférios só pode frutificar se estiver num plano horizontal. Caso contrário, em vez de cooperação vamos ter dominação/submissão. Em termos culturais isso é por demais evidente. A globalização só se materializa quando deixar de ser um fluxo unidirecional. Não é preciso ser um marxista ortodoxo da velha guarda para entender que a cultura

dominante é a cultura da classe dominante. O racismo de tasca é profundamente imbecil mas não é incurável. O outro é muito mais complicado de combater precisamente porque não há nada de irracional no racismo estrutural. É uma ferramenta muito importante para manter uma certa ordem social – um lugar para todos e cada um no seu lugar, como se dizia aqui há atrasado.


Para ouvir e descobrir mais

Na Misson Feat Landim
Na Misson (Feat. Landim) de Ghoya · Landim
The Magic City Sun Ra
The Magic city de Sun Ra & His Arkestra

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