Na entrevista com o programador do Sonica Ekrano Rui Pedro Dâmaso, publicada anteriormente aqui no De Norte a Sul, falámos da música como veículo primordial para exprimir a criatividade humana, individual e colectiva. Nesta terceira parte da cobertura do festival, fugimos da indústria musical de massas e viajamos até ao horizonte longínquo da música de muitos mundos diferentes, com um pé na tradição e outro no experimentalismo, num delírio interestelar.

Um dos mandamentos sagrados do liberalismo é que não pode haver liberdade sem liberdade económica. O que isto significa é que não se pode cercear a liberdade de explorar os outros para nosso proveito. O que um humanista devia ler é que não podemos ser livres, para criar neste caso, enquanto tivermos a corda das despesas enrolada à volta do pescoço e faltarem centímetros de salário para suportar o peso de cada mês.
Jason Molina é mais um daqueles músicos estado-unidenses que morreu cedo demais, na miséria, com 39 anos, mesmo deixando uma discografia bastante considerável. You Fuckers Figure It Out: A Jason Molina Story deixa antever que Molina não era uma pessoa muito extrovertida. A certa altura alguém diz que Molina via fantasmas em todo o lado, para logo a seguir acrescentar que o fantasma era ele próprio. O documentário realizado pelo seu amigo de infância, Tommy Nickoloff, tenta perceber quem era o músico por trás da obra, recorrendo a familiares, músicos e outros amigos, através de histórias e episódios mais ou menos curiosos. Mas é difícil traçar um retrato entusiasmante quando não há assim tanto para dizer.
Jason Molina cresceu em Lorain, no Ohio, a Cidade de Aço totalmente desindustrialzada (outra vez ao espectro de Ronald Reagan), e a sua música reflecte a desertificação de uma cidade decadente e o ambiente melancólico das florestas montanhosas da Virgina Ocidental de onde é originária a sua família. Não há muito a destacar num filme formuliaco e mundano, a não ser pela negativa uma tendência inevitável para o fetishismo do choro. Fica a música vulnerável e muito interessante entre o folk-rock e o blues de um músico que viveu a juventude num trailer (apesar do pai ser professor) e morreu alcoólico, cuja mãe era também alcoólica e com um irmão com muitos problemas de alcoolismo.

A música dos escoceses Mogwai também parece ser demasiado interessante para um filme tão poucochinho. Diria mesmo que isto não é um documentário, é um DVD promocional da banda. Mogwai: If The Stars Have a Sound é o típico filme das palmadinhas nas costas que pode agradar a toda a gente que gosta da banda mas que não deixa nada à sua passagem. Sendo este um dos poucos filmes do cartaz que passou pelas salas de cinema em Portugal, podemos constatar o carácter mastiga-e-deita-fora do cinema hoje em dia. O realizador Antony Crook foca-se em acontecimentos que – francamente – não são assim tão importantes como a oferta de equipamentos de futebol a uma escola, a banda sonora de um documentário acerca de Zinedine Zidane, e uma versão de um tema judaico que costumam tocar ao vivo. Acrescente-se que os Mogwai não são uma banda religiosa e a oração original Avinu Malkeinu tem sido usada e abusada pela direita israelita para legitimar o seu conceito de Lebensraum.
A narrativa constante das convicções e dos valores que nunca são concretizados verbalmente esbarra de frente com o arco narrativo que guia todo o documentário. Não se admite que, para uma banda que faz tanto alarde em ser independente, o mais importante seja chegar ao número 1 do top de vendas do Reino Unido, com todos os joguinhos ridículos que esse campeonato obriga – uma grande desilusão.
O título do filme dos Mogwai em português, Se as Estrelas Tivessem Uma Sonoridade, remete-nos directamente para o conceito pitagórico (mais tarde actualizado por Kepler) de Música das Esferas, a harmonia dos corpos celestes que criava uma música celestial que se podia ouvir com a alma. Agora já sabemos que a harmonia do universo é bem mais caótica mas podemos apanhar essa boleia para chegar à música de Federico Mompou e à curta-metragem Ressonàncies (D’Una Música Callada), o antídoto perfeito para os videoclipes em que se transformaram os filmes.

Xavier Esteban realiza um filme lento, onde todas as imagens escondem significados muito profundos, à imagem da música e da personalidade de Mompou. A obra prima do compositor catalão, o ciclo de obras para piano «Música Callada», é frágil, tímida e intensa, como o seu autor. O carácter sombrio e solitário da música é posto em evidência com a interpretação (onde todos os gestos muito pronunciados contam) de um excerto por uma ex-aluna japonesa em visita à casa-museu do pianista. Uma música quase silenciosa, um eco distante, uma memória de um universo longínquo, a ressonância orbital que antigamente chamávamos Música das Esferas.
Em contrapartida, o documentário Il Soffio Dell’Anima é uma curta metragem muito arreigada à terra. O inicio apenas com as paisagens imponentes da Sardenha e aquelas vozes é arrepiante. Há ali qualquer coisa de comum com os gregos, com os árabes, com o canto gutural da Ásia Central e até com os grupos corais alentejanos. Algo que não deveria causar surpresa a ninguém, pois todas as culturas estão ligadas por um traço bem visível (a noção de culturas herméticas é aburda), numa comunidade que é pertença de uma só raça. Esta raça humana é capaz de feitos extraordinários quando está completamente conectada com o mundo à sua volta num colectivo que partilha, vive e desfruta da natureza como parte indissociável da sua identidade.
O canto polifónico soa a algo muito antigo, ancestral mesmo, porque consegue tocar aquela essência espiritual no sentido não religioso do termo. O próprio nome do filme – O Sopro da Alma – ilustra bem essa espiritualidade, com a magia que transborda das cinco vozes. São quatro pessoas a cantar mas ouvimos cinco vozes. A voz número cinco é o sortilégio criado pela reverberação das quatro vozes, a música como conceito universal, um eco da humanidade que atravessa eras intemporais.
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Vitor Rua, membro fundador dos GNR, Telectu e uma longa carreira de outros projectos em que colaborou com algumas das figuras de proa da música mais inovadora dos anos 70 (incluindo o baterista Chris Cutler dos britânicos Henry Cow, nome maior da cena Rock In Opposition) é o alvo de um dos momentos mais surpreendentes de todo o festival. Antes do filme, Nuno Calado (o radialista que realizou o filme a meias com o barreirense Bigos Campaniço) avisa logo que este é um documentário sem orçamento. Que bom seria se todos os documentários com orçamentos a sério fossem assim.
Isto Não é Um Filme É Um Cometa é um filme muito comprometido mas nada pretensioso. Sente-se ali uma relação de cumplicidade muito forte com os realizadores que permite que Vitor Rua vá sacando histórias da cartola em catadupa, numa estrutura narrativa muito caótica, A saída conturbada dos GNR, o trabalho com o famoso disco de António Variações e a sua relação com os Abba, a entrada no mundo das óperas como compositor. Rua, com uma carreira de mais de 55 anos, é um contador de histórias nato, com uma espontaneidade genuína, muito espirituoso sem tentar ser engraçadinho e sempre com uma atitude radical que parte do seu grande conhecimento e de não querer saber o que os outros pensam.
Só dessa forma se pode libertar a criatividade das amarras do sucesso comercial, algo que – mesmo em Portugal – era muito diferente há 40 anos, como está bem elucidado por dois pequenos episódios. Em 1982 uma editora como a EMI – Valentim de Carvalho acedeu a editar um LP de uma banda debutante – os GNR – em que o lado B estava preenchido com um tema de 26 minutos e 3 anos depois os Telectu tocaram música minimalista em pleno horário nobre na TV. Hoje em dia, sob este complexo industrial-mediático, isso é completamente impensável.
A cena chave do documentário é o relato da reunião dos elementos dos GNR logo após a viagem de Rua a Nova Iorque onde assistiu a todo o tipo de música improvisada (incluindo os titãs John Zorn e Bill Laswell) O seu plano seria fazer três concertos com a banda por ano e gravar um disco novo anualmente. O baterista Toli reagiu com a frase “isso não dá para o bife” ao que Rua ripostou: “Estou a falar de música e tu estás a falar de gastronomia”. Linguagens diferentes para diferentes personalidades.

Outra das curtas metragens do Sonica Ekrano focada em idiomas musicais incomuns, Space Festival, funciona como um cartão de apresentação do evento com o mesmo nome. O festival começou em Coimbra em 1999, teve a sua primeira vaga itinerante de seis anos para regressar ao formato actual em 2021 que procura levar sonoridades experimentais e improvisadas para fora dos habituais centros urbanos. A iniciativa do festival é muito meritória, especialmente porque vai a sítios que vemos como isolados em termos culturais mas o documentário de Nuno Alves não acompanha essa experimentação. Ainda assim, podemos perceber que há espaços e salas com muitas boas condições longe dos holofotes da urbe e que existe uma genuína curiosidade por manifestações artísticas diferentes – as cenas com os alunos da escola são um raio luminoso no meio do monopolismo cultural que nos sufoca. Os melhores momentos são imagens de alguns dos espectáculos, principalmente a OGBE – Orquestra de Guitarra e Baixos Eléctricos, uma ideia fantástica que vale a pena espreitar e a banda criada na sequência do próprio festival, Space Ensemble.
Sound Dreams Of Istambul, por outro lado, é o filme que eu gostava que Space Festival fosse. Realizado pelo violoncelista Anil Eraslan, o documentário é quase um improviso com o vento, as montanhas e o mar da Turquia sempre em diálogo, numa comunicação intensa, com a música quase improvisada que reflecte a diversidade cultural e a tradição milenar da maior cidade da Europa, com mais de 15 milhões de habitantes – a Turquia é um país tão essencial para os gatos que até nos sonhos eles aparecem.
O filme é uma espécie de meditação sobre a música, o som e a cidade, todas em transformação constante, onde os músicos vão lançando ideias para discussão, entre cortadas com curtas actuações. Desde exercícios de modulação sonora mais modernistas até às SAVT, um trio feminino de música improvisada que parte da herança de música clássica da Ásia Ocidental (que os imperialistas gostam de chamar Médio Oriente) para criar novas composições usando instrumentos tradicionais. Esta forma de combinar sons com histórias diferentes, reveladora da mestria de Anil Eraslan, resulta da sua proficiência musical, que transforma um documentário numa peça sonora muito livre, cheia mas com muito espaço para respirar.
A certa altura, alguém desmonta a designação de música ao vivo com um “o que será música ao morto?” Essa frase quase ingénua explica muito bem como estamos perante um dos alimentos fundamentais da alma, o som é algo existencial. Fruto de uma visão libertária do mundo, é uma – tal como a arte em geral – arma poderosa no combate ao neoconservadorismo que condiciona as manifestações artísticas a esquemas de procura desmedida do lucro fácil. Sound Dreams Of Istambul é um filme de estreia notável de Eraslan, de quem se espera muito em novos projectos cinematográficos. Basta angariar financiamento para os executar e garantir acesso aos estreitíssimos canais de distribuição. Cultivar a inteligência emocional para ter a resiliência suficiente para sair da zona de conforto é uma quimera. Negar a teologia do empreendedorismo não é uma questão de preguiça. O problema é que o dinheiro não cresce nas árvores e os frutos no pomar da meritocracia são bichosos.
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